❝ ERA DO FEITIO DE AARÓN ESTAR NO CONTROLE, SER O GUIA; OLHANDO AGORA, PERCEBERA QUE ROMEO TINHA O HÁBITO DE LHE ROUBAR ISSO, QUANDO JUNTOS. Como num verão de um ano e meio atrás, Millstone havia assumido as rédeas das coisas e pintado a situação da forma que queria. A impotência fazia o Ortega se sentir frustrado, então, de cara fechada e com os pensamentos tão velozes quanto os carros que atravessava a rua, ele acompanhou Romeo, no caminho para a oficina.
E enquanto seguia, as cenas antecedentes ainda no estacionamento piscavam em sua mente. O temperamento ácido de Romeo não o afetou tanto quanto ele imaginava que o faria. De alguma forma, ele sabia que grande parte da postura do garoto era puro reflexo do que ele recebia — de quem Aarón havia se tornado. Um otário apático que não choraminga mais quando perde o controle de uma situação como um bebê impaciente. Então, ele havia merecido, quando naquela noite perto do fim do verão do ano anterior, na praia, Romeo avançou em seu corpo e o jogou na areia. O socou uma única vez e apertou seu pescoço. Olhou-o nos olhos e então cuspiu qualquer palavra raivosa, antes de fugir dali. Em meio a tantos outros grandalhões atrevidos de Ocean View, Millstone havia lhe dedicado toda sua raiva e o espanhol sabia que aquilo ia pra muito além de competitividade estudantil.
Eles haviam criado um paraíso frágil, entre sorvetes, ondas altas e encontros secretos no debaixo de um píer. Aarón ainda lembrava como Romeo havia fugido, no Outono. Ele murchou como as folhas e deixou todo calor ser levado pela queda da estação. E o maldito ainda espera um muito obrigado pelo presente!
No fim do trajeto, Aarón estacionou o carro onde foi orientado, como uma criança obediente que não mostra resistência a seguir comandos, dessa vez porque o comando via de um profissional, não de Romeo. Arranhado e levemente amarrado, o Toyota iria sobreviver. O Ortega estava preocupado era consigo mesmo, naquele início de conversa no qual foi arrastado de repente, enquanto estava recostado no lugar que mais julgou ser limpo na oficina, perto de onde estavam os carros finalizados. O moreno estava pronto para se vangloria sobre como era um ótimo ator, até escutar a voz de Millstone cortá-lo como uma faca, trazendo o verão para aquele inverno. O rosto de Aarón esquentou, com a menção de algo tão distante, quanto suas quedas numa bicicleta que era mais alta que suas pernas foram naquele momento passado; ele andava bem melhor agora, então, estufou o peito e encarou Romeo. ❝ Eu estava sendo um perdedor naquele verão, isso sim ❞ rebateu, olhando para a rua. ❝ E eu me contento com o papel de antagonista ou anti-heroico… galãs tendem a ser rasos e muito clichês, só um rostinho bonito, um corpo atrativo e complemento ao arco da protagonista. ❞ Um sorriso sacana e ele pousou os olhos em Romeo, com aquele ar desafiador de tente me contrariar sobre isso. ❝ Mas eu posso garantir que você é ótimo com atuações.❞ Sério, Aarón remexeu na mochila de uma alça e retirou dali a garrafa de água e um planner onde organizava basicamente tudo da própria vida. O encontro marcado com os amigos atrasaria, ele bufou o ar, vendo que o que havia marcado para o pós também sofreria alguma alteração. ❝ Você quer água? Talvez seja melhor beber alguma coisa que não seja o álcool que dá pra sentir no seu hálito… e eu tenho chocolate comigo, sempre tenho.❞
A dor de cabeça é persistente e latejante. Um vívido lembrete de que andava exagerando na dose; de que seu corpo não chega perto de ser de ferro. Um atleta precisa se alimentar direito e não deve abusar de entorpecentes para aliviar o estresse. Pelo menos não Romeo. Deslizou os dedos pelos próprios fios castanhos e suspirou, procurando atenuar o efeito do álcool que o deixava tonto. Até o momento em que os dois veículos se chocaram no estacionamento, tudo o que desejava era um banho quente. Depois, enrolado em seus cobertores, se desligaria do mundo lá fora até que a segunda-feira chegasse outra vez e ele fosse obrigado a voltar aos corredores da Armstrong. No entanto, Aarón chegara como um sopro de vida em sua rotina. Algo inesperado, diferente. Apesar de despertar nele sensações mistas, era o primeiro que tinha feito o mais alto acordar do estado de inércia em que se encontrava ao longo das últimas semanas.
O verão que aproximou os dois começou como todos os outros. Dias ensolarados em Pacific Beach com direito a bastante protetor solar e picolé de fruta. Porém, era a primeira vez que o Millstone estava trabalhando durante as férias e ele se sentia finalmente útil. Ocupava a cadeira alta do salva-vidas da praia e na maior parte do tempo não tinha muito a fazer além de acenar e sorrir para as belas turistas que passeavam pela orla. Até que aconteceu. Uma criança se afogou nas ondas revoltas do mar e, por sorte, um outro rapaz que parecia nadar tão bem quanto ele — se não melhor — a resgatou e trouxe para a orla. Romeo correu até a beira para ajudar, realizando o procedimento padrão que tinha aprendido. Por ser sua primeira vez, estava tomado pelo desespero. No fim das contas foi só um susto, mas reconheceu que não teria conseguido sem o outro. Aarón, se apresentou ele. E dali surgiu a amizade deles.
Saíram para uns drinques depois que o sol se pôs e riram juntos na mesa do bar. Estabeleceram uma nova rotina e aproveitaram a companhia alheia durante a temporada. Até hoje não sabe ao certo o porquê se afastaram, mas sabia que parte da culpa era dele. Tinha medo do que aquilo poderia vir a se tornar, já que reparava uma intimidade diferente se formando ali. Além disso, com o final das férias, era natural que os dois se afastassem de qualquer forma, certo? O que não tinha como saber era que seriam de escolas rivais, e que de uma hora para outra o Ortega se tornaria seu inimigo declarado. Os dias de mormaço e maresia tinham ficado para trás, parecendo meros frutos de sua imaginação fértil.
❝ Não seja tão duro consigo mesmo, Ortega. Você só era fresco pra caralho e pelo visto ainda é. ❞ Deu uma risada fraca, pensando que talvez, só talvez, ele poderia se acostumar àquilo novamente. Aos dois lado a lado, sem mais provocações. Ou melhor, as provocações continuariam mas só fariam parte das brincadeiras do atleta. Não haveria mais um clima de guerra entre os dois e a bandeira branca teria sido enfim levantada. ❝ Cacete, você continua o mesmo palestrinha de sempre. Antagonista, blá blá blá... beleza, eu me contento com um papel menos desafiador e que só me demande sorrisos e ficar parado sem camisa. ❞ Brincou, estudando a linguagem corporal alheia. Dava pra ver que ele estava um pouco nervoso. ❝ Me dá isso aqui. ❞ Com um movimento brusco, roubou o planner das mãos de Aarón e o ergueu no ar, em uma altura que o outro não alcançaria. ❝ Que porra é essa aqui? Fala sério! Querido diário, hoje o Romeo bateu no meu carro e eu dei um chilique... ❞ Imitando a voz do garoto entre risadas, se recusava a devolver o caderno, até que lhe fora oferecido o doce. ❝ Deal. Passa esse chocolate pra cá. ❞ Murmurou, de repente percebendo como estava faminto. Ao mirar o semblante alheio outra vez, encolheu os ombros. ❝ Ele não deve demorar mais do que alguns minutos para terminar o serviço, vai se livrar de mim logo. Mas foi legal te irritar um pouquinho, confesso. Eu até me diverti, quem diria?! Bati meu carro no meio do caminho, mas ele vai sobreviver. ❞