Idiota, idiota, idiota. Era isso que Inclementia era, uma grande de uma idiota. Ela havia ouvido várias vezes de sua mãe que sua ingenuidade ainda ia lhe matar, afinal, o quão fácil não era enganar uma pessoa como a Marvolo? Inclementia sempre renegou essas palavras, escolher acreditar no melhor das pessoas e aguentar quando nem sempre elas atendiam as expectativas era algo costumeiro para ela, a forma que a jovem funcionava e nada mais. Porém, depois do baile alguma coisa começou a se mexer dentro dela, a mudar. Era como se algo estivesse crescendo dentro do peito, um sentimento que não era conhecido além do que lhe era contado. Rancor. Por que estava surpresa com a atitude de Linda? Ela era uma Adormecida no final das contas, não poderia ser confiada. Falsidade e traição corria nas veias deles assim como a amargura corria nas suas. Uma herança familiar que nenhuma delas parecia conseguir escapar. Havia sido inocente por acreditar em Linda Adormecida. Idiota. Conseguia ouvir claramente a voz de Malévola em sua cabeça, bagunçando mais ainda seus pensamentos. Envenenando-a assim como as palavras de Linda soavam, veneno. "Onde eu pertenço, Linda?" Cerrou as mãos em punhos, agarrando o tecido de seu vestido em uma tentativa de conter a raiva que estava sentindo. Como poderia ser tão idiota ao pensar que Linda Adormecida teria algum sentimento de simpatia que fosse por si? Quem dirá algo além disso. Qualquer coisa além de repulsa e pena. "Eu pertenço ao lixo? Às vielas sujas, frias e abandonadas? A pobreza? Fome? Morte?" Deu um passo para frente, erguendo a cabeça como se daquele jeito Linda não conseguisse a atingir. Ledo engano. "Eu mereço uma vida miserável e uma morte horrenda só porque minha mãe tentou matar a sua?" Suas palavras se tornavam lentas a medida que soltava tudo que havia guardado dentro de si por todos esses anos. Sua raiva engarrafada não era apenas por se sentir enganada por Linda, estava soltando os sentimentos ruins acumulados como se abre uma garrafa de champanhe. Estourando. "Se eu sou menos que você, não precisa descer do seu pedestal pra falar com uma mera mortal." Ela não seria feita de idiota novamente, não por Linda Adormecida. Se arrependia de ter ido contra o pedido da outra, a distância agora parecia o mais sábio. Pena que Clem não soubia disso antes de se fazer de idiota novamente, se rendendo à saudade. "Dessa vez eu que te digo, princesa. Nunca mais fale comigo." Cuspiu e pela primeira vez em muito tempo as lágrimas que queimavam seus olhos ficaram presas ali, somente sendo permitidas a caírem ao virar as costas para a mais alta. Então esse era o sentimento que dominava o coração de Malévola?