Luto
O luto é algo curioso. Porque as pessoas acham que só se entra em luto pelos amores que perdemos para a morte, mas não se limita a isso,
Há pessoas que continuam respirando em algum lugar do mundo e, ainda assim, precisamos enterrá-las dentro de nós. Não porque deixaram de existir, mas porque deixaram de existir da forma como as conhecíamos. Existem despedidas sem velório, finais sem cerimônia e ausências que chegam sem que ninguém perceba. Há enterros que acontecem em silêncio, sem flores, sem orações e sem testemunhas.
Mas o luto não vive apenas nos cemitérios e na morte da carne. Ele também surge quando uma fase da vida termina.
Quando nos mudamos e deixamos para trás uma cidade inteira de memórias. Quando os filhos crescem e já não precisam mais dos pais da mesma forma. Quando a aposentadoria encerra décadas de rotina e propósito. Quando percebemos que um capítulo terminou e que, por mais que sintamos saudade, não existe forma de voltar para ele.
Há oito meses perdi minha avó. E, junto da saudade que ela deixou, comecei a perceber quantos outros lutos habitavam dentro de mim.
Alguns têm nome e rosto. Outros são mais difíceis de explicar.
Às vezes me percebo enlutada por coisas que nunca chegaram a existir. Pelos sonhos que morreram antes de se realizar e por aqueles que sequer tiveram a oportunidade de nascer. Pelas viagens que não fiz e pelas que jamais farei. Pelos caminhos que abandonei e pelos que nunca encontrei. Pelos amores que imaginei, pelas versões de mim que ficaram para trás e pelos futuros que um dia pareceram inevitáveis.
Existem perdas que não deixam fotografias.
Não há lápides para visitar quando morre uma possibilidade.
Não há velas para acender por um sonho que se desfez aos poucos.
Não há rituais para a morte silenciosa de um futuro que passamos anos imaginando.
E talvez seja por isso que essas dores sejam tão difíceis de nomear. Porque o mundo entende quando choramos aquilo que existiu. Mas raramente compreende quando choramos aquilo que poderia ter existido.
Os filhos com quem sonhei e talvez nunca existam além da minha imaginação. As histórias que não vivi. Os lugares onde nunca estive. As memórias que jamais serão criadas. A vida que imaginei para mim e que, em algum ponto do caminho, deixou de ser possível.
Há dias em que sinto que estou de luto por futuros inteiros.
E então percebo que o luto não é apenas sobre aquilo que perdemos. É também sobre aquilo que amamos o suficiente para lhe reservar um lugar dentro de nós, mesmo sem nunca tê-lo tocado.
Talvez seja por isso que ele seja tão vasto.
Porque o luto não chora apenas os mortos.
Ele chora pessoas, versões de nós mesmos, promessas, sonhos, possibilidades e destinos.
Chora aquilo que foi.
Aquilo que poderia ter sido.
E aquilo que jamais será.
No fim, carrego o luto da minha avó. Carrego o luto dos amores que terminaram. Carrego o luto dos sonhos que desmoronaram antes de florescer.
Mas também carrego o luto da minha própria vida.
Da que eu não tive.
Da que eu tenho.
E da que nunca vou ter.
Líris.
















