Sobre não se sentir pertencente...
Existe uma pergunta que me acompanha desde muito cedo, embora eu só tenha aprendido a formulá-la depois de adulta. Ela nunca chega em voz alta. Nunca se apresenta inteira. Apenas muda de roupa conforme o tempo passa.
Às vezes ela se parece com um "por que ninguém parece tão interessado no que eu tenho para dizer?". Outras vezes, assume a forma de um "o que há em mim que sempre parece faltar?". No fundo, porém, todas essas perguntas carregam a mesma raiz: por que eu nunca sinto que pertenço?
Não falo apenas de fazer parte de um grupo. Falo daquela sensação mais íntima, quase primitiva, de ocupar um lugar na vida de alguém sem precisar conquistá-lo todos os dias.
Percebi, com o tempo, que existem pessoas que são naturalmente escutadas. Elas começam uma história e os olhos permanecem nelas. O assunto muda, cresce, ganha perguntas. Existe curiosidade. Existe troca.
Comigo, muitas vezes, acontece outra coisa.
Eu conheço o momento exato em que alguém deixa de me ouvir.
É quase imperceptível para quem está de fora, mas quem passou a vida observando migalhas de atenção aprende a reconhecer detalhes que os outros jamais precisaram notar. O olhar perde o brilho por um segundo. A resposta vira um "aham". O celular aparece entre uma frase e outra. A pessoa continua diante de mim, mas já não está comigo.
E eu continuo falando por mais algumas palavras, como quem insiste em manter de pé uma ponte que já desabou. Até que vou abaixando o volume aos poucos até me calar por completo e me afasto devagar.
O curioso é que ninguém precisa dizer que eu sou desinteressante. O silêncio faz esse trabalho com uma precisão quase cruel.
Talvez seja por isso que, hoje, eu pense tanto antes de demonstrar entusiasmo. Porque entusiasmo também cria memória. E poucas coisas são tão constrangedoras quanto perceber que aquilo que iluminou você não iluminou absolutamente ninguém ao redor.
Acho que algumas feridas não nascem de grandes acontecimentos. Elas nascem de pequenas repetições. De ser interrompida. De perceber que ninguém perguntou como a história terminava. De notar que sua ausência quase nunca altera a dinâmica de um lugar. De aprender, aos poucos, que você sempre parece caber mais no papel de quem escuta do que no de quem é escutado.
Talvez seja por isso que a dor encontra a própria casa dentro da família. Passei muito tempo acreditando que amor também era permanência. Então permaneci. Enquanto minha vida acontecia em outro lugar, eu escolhia ficar perto da minha mãe. Abdiquei de oportunidades, adiei vontades, reorganizei meus dias ao redor da presença dela porque, de alguma forma, imaginava que era isso que o amor fazia. Achei que existir ali, diariamente, significaria ocupar um espaço.
Mas existe uma tristeza muito específica em perceber que esforço e importância nem sempre caminham juntos. Meu irmão não precisa fazer muito. Às vezes, sequer precisa estar presente. Ainda assim, existe uma atenção que parece nascer espontaneamente em direção a ele. Um interesse que nunca dependeu da frequência das mensagens, da disponibilidade ou da quantidade de tempo oferecida.
Eu, por outro lado, passei anos tentando merecer algo que nunca deveria precisar ser merecido. E talvez seja essa a parte mais difícil de admitir.
Não é ciúme.
Não é competição.
É luto.
O luto pela versão de mim que acreditava que, se fosse suficientemente presente, suficientemente boa, suficientemente disponível, um dia deixaria de sentir que precisava disputar um lugar dentro da própria casa.
Hoje percebo que algumas pessoas crescem aprendendo que são amadas. Outras crescem tentando descobrir o que ainda falta para finalmente serem escolhidas.
Existe um cansaço enorme em viver assim. Um cansaço que não vem do corpo, mas da tentativa incessante de ser digna de atenção. Como se cada conversa fosse uma prova. Como se cada vínculo precisasse ser sustentado por desempenho. Como se o amor estivesse sempre do outro lado de alguma meta invisível que nunca é alcançada.
Talvez seja por isso que eu me sinta tão estranha, às vezes.
Não porque eu seja difícil de amar, mas porque passei tanto tempo vivendo relações em que o afeto parecia depender do quanto eu conseguia oferecer, que desaprendi a acreditar que alguém pudesse simplesmente permanecer.
E há dias em que essa antiga pergunta volta a sentar ao meu lado. Ela ainda muda de roupa. Mas continua sendo a mesma.
Como é que algumas pessoas parecem nascer pertencendo, enquanto outras passam a vida inteira tentando convencer o mundo de que também merecem um lugar?
— Líris.












