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@relevointimo
Sobre ser falho...
As pessoas falam muito sobre assumir os próprios erros, mas tenho a impressão de que poucas percebem que existe uma diferença enorme entre reconhecer uma falha e transformar qualquer crítica em um julgamento sobre a própria existência. Ao longo da vida, vi inúmeras conversas seguirem exatamente o mesmo caminho: alguém aponta um comportamento que machucou, uma atitude inadequada ou uma postura que causou desconforto, e a resposta vem quase sempre na forma de um "já entendi, eu sou o problema". E naquele instante a conversa deixa de ser sobre o que aconteceu para se tornar sobre a pessoa que se sente acusada.
O curioso é que, na maioria das vezes, ninguém estava dizendo que ela era o problema. Estavam falando de um comportamento específico. De uma escolha. De uma atitude. Mas eu percebo que existe uma dificuldade muito humana em separar aquilo que fazemos daquilo que somos. Algumas pessoas escutam "isso que você fez me machucou" e entendem "você é alguém que machuca". Escutam "essa atitude não foi justa" e compreendem "você é injusto". A crítica deixa de ser sobre um ato e passa a ser percebida como uma sentença sobre toda a identidade.
Talvez porque seja mais fácil lidar com absolutos. Pelo menos, é a conclusão à qual cheguei observando as pessoas e a mim mesma. Parece mais simples se enxergar como completamente inocente ou completamente culpado do que habitar a zona desconfortável onde quase todas as relações humanas acontecem: aquela em que somos pessoas complexas, capazes de amar profundamente e, ainda assim, ferir alguém; capazes de ter boas intenções e, mesmo assim, causar dor; capazes de errar sem que isso nos transforme em monstros.
Existe algo quase paradoxal nessa reação, e é justamente isso que mais chama atenção. Quando alguém responde "eu sou o problema", parece estar assumindo responsabilidade, mas muitas vezes está apenas mudando o foco da conversa. Porque reconhecer um erro exige encará-lo. Exige olhar para a situação, entender o impacto causado e aceitar que determinadas atitudes precisam ser revistas. Já transformar tudo em uma declaração dramática sobre si mesmo interrompe esse processo. A conversa deixa de ser sobre o comportamento que precisa ser compreendido e passa a ser sobre o sofrimento de quem se sentiu criticado.
Com o tempo, isso desgasta os relacionamentos. Não porque as pessoas esperam perfeição umas das outras, mas porque esperam abertura. Esperam encontrar alguém capaz de ouvir "isso me machucou" sem responder imediatamente "então eu sou uma pessoa horrível". Esperam poder falar sobre um problema sem que a discussão se transforme em uma disputa sobre quem está sofrendo mais.
Talvez uma das maiores demonstrações de maturidade emocional seja justamente essa capacidade de sustentar o desconforto de estar errado sem precisar destruir a própria imagem para isso. Essa é uma conclusão à qual cheguei depois de muitas observações, muitas conversas e algumas frustrações também. Entender que cometer um erro não faz de ninguém um erro. Que reconhecer uma falha não é uma humilhação. Que ouvir uma crítica não é o mesmo que receber uma condenação.
Porque eu não acredito que alguém cresça sendo tratado como perfeito, mas também entendo que há quem cresça acreditando que cada falha revela uma imperfeição irreparável. Entre a inocência absoluta e a culpa absoluta existe um espaço muito mais honesto: o espaço onde podemos admitir que determinada atitude não foi boa, aprender com ela e seguir em frente sem precisar transformar cada conflito em um julgamento sobre quem somos. É nesse espaço que os relacionamentos sobrevivem. E, para mim, é nele que a responsabilidade verdadeira começa.
Lìris.
prague castle ⚰️
Não deixe seus sonhos morrerem...
Desde nova, eu ouvia minha avó e suas irmãs repetirem o mesmo conselho para filhas, netas e sobrinhas: estudem, trabalhem, conquistem suas coisas, realizem seus sonhos e só depois pensem em casamento. Diziam que a vida é feita de etapas, e que cada uma delas merece ser vivida no seu tempo.
É uma daquelas recomendações que atravessam gerações. A gente escuta tantas vezes que acaba decorando, mas nem sempre compreende de verdade. Durante muito tempo eu achei que não precisava escolher. Acreditava que conseguiria ter tudo ao mesmo tempo, equilibrar sonhos, relacionamentos, responsabilidades e ambições sem precisar abrir mão de nada. Hoje, porém, me vejo repetindo o mesmo conselho que ouvi a vida inteira, mesmo estando muito longe de ter vivido tudo o que minha avó viveu ou de possuir a sabedoria que ela carregava.
Claro que cada pessoa tem sua própria trajetória. Existem caminhos diferentes, prioridades diferentes e circunstâncias diferentes. Mas, se você deseja construir uma vida sua, realizar sonhos, conhecer o mundo, estudar, crescer profissionalmente e ainda está em posição de escolher, escolha a si mesma primeiro. Escolha seus sonhos.
Não porque o amor não seja importante. Não porque casamento ou família sejam obstáculos. Mas porque tudo aquilo que você abandona no caminho, tudo aquilo que você silencia dentro de si para viver apenas em função de outra coisa, não desaparece. Fica ali. E, com o passar dos anos, começa a cobrar seu espaço.
Às vezes penso na minha avó e em quantas experiências ela deixou de viver. Casou cedo, teve filhos cedo e passou a vida cuidando dos outros. Em algum momento, começou a acreditar que já não tinha idade para fazer muitas das coisas que sonhava quando era jovem. Não porque os sonhos deixaram de existir, mas porque o tempo, as responsabilidades e a própria sensação de ter ficado para trás fizeram com que eles parecessem distantes demais.
Talvez seja por isso que ela insistia tanto para que nós estudássemos, viajássemos, trabalhássemos e construíssemos nossa independência antes de qualquer outra coisa. Talvez aquele conselho nunca tenha sido apenas sobre carreira ou dinheiro. Talvez fosse sobre não acordar um dia olhando para a própria vida e se perguntando quem você teria sido se tivesse dado uma chance a si mesma.
Porque para quase tudo existe tempo. Para amar, para construir uma família, para compartilhar a vida com alguém. Mas existem oportunidades que pertencem a versões específicas de nós. Existem sonhos que pedem coragem quando ainda somos jovens o bastante para arriscar. E se torna uma tristeza latente quando percebemos que passamos tanto tempo vivendo para os outros que acabamos nos tornando uma estrangeira dentro da própria história.
Hoje eu entendo melhor o que minha avó tentava ensinar. Não era um conselho contra o amor. Era um conselho a favor de si mesma. Afinal, relacionamentos podem terminar, pessoas podem partir, a vida pode mudar de direção inúmeras vezes. Mas você continuará vivendo consigo mesma pelo resto da vida. E não há companhia mais difícil de carregar do que a dos sonhos que abandonamos pelo caminho.
Líris.
Amor, para mim, sempre foi admiração, respeito, companheirismo, apoio e desejar a felicidade de quem se ama independentemente de qualquer circunstância. Sempre acreditei que amar alguém era torcer por seus sorrisos, celebrar suas conquistas e permanecer presente não por obrigação, mas por escolha.
Que amor também era liberdade. Que amar alguém era reconhecer que aquela pessoa existia antes de nós e continuará existindo para além de nós. Que os sonhos dela não nos pertencem, que seus caminhos não precisam necessariamente cruzar os nossos para sempre, e que o afeto não deveria ser medido pela capacidade de manter alguém por perto.
Ao começar a me relacionar, porém, me deparei com formas de amor que me escapavam ao entendimento. Amores que usavam as mesmas palavras que eu usava, mas pareciam falar outra língua. O discurso era sempre bonito: “eu te amo”, “sua felicidade é a minha felicidade”, “quero te ver bem”. Mas quase sempre havia uma condição silenciosa escondida atrás dessas promessas. Uma pequena cláusula escrita em letras miúdas: “desde que seja comigo”, “desde que seja ao meu lado”, “desde que você não escolha um caminho onde eu não esteja”.
Foi então que comecei a perceber que nem todo amor entende a liberdade da mesma forma. Alguns amam como quem acolhe um pássaro na palma das mãos. Outros amam como quem fecha a porta da gaiola e chama aquilo de cuidado.
Descobri que muitas pessoas confundem amor com posse, necessidade com devoção, apego com profundidade. Dizem querer a felicidade do outro, mas apenas enquanto essa felicidade não as contraria. Dizem apoiar os sonhos do parceiro, até que esses sonhos apontem para uma direção diferente da que imaginaram.
Talvez por isso eu tenha me sentido tantas vezes deslocada diante de certas demonstrações de amor. Porque, para mim, amar nunca foi segurar alguém com força suficiente para impedir sua partida. Sempre foi oferecer motivos para que a permanência fosse uma escolha.
Ainda quero acreditar que amor e liberdade não são opostos. Que o amor mais bonito não é aquele que exige renúncias constantes para existir, mas aquele que sobrevive mesmo quando reconhece a individualidade do outro. Aquele que compreende que alguém pode ser livre e, ainda assim, escolher ficar.
Porque, no fim, não vejo grande prova de amor em permanecer quando não há para onde ir. A beleza está em permanecer quando todas as portas estão abertas.
Líris.
Luto
O luto é algo curioso. Porque as pessoas acham que só se entra em luto pelos amores que perdemos para a morte, mas não se limita a isso,
Há pessoas que continuam respirando em algum lugar do mundo e, ainda assim, precisamos enterrá-las dentro de nós. Não porque deixaram de existir, mas porque deixaram de existir da forma como as conhecíamos. Existem despedidas sem velório, finais sem cerimônia e ausências que chegam sem que ninguém perceba. Há enterros que acontecem em silêncio, sem flores, sem orações e sem testemunhas.
Mas o luto não vive apenas nos cemitérios e na morte da carne. Ele também surge quando uma fase da vida termina.
Quando nos mudamos e deixamos para trás uma cidade inteira de memórias. Quando os filhos crescem e já não precisam mais dos pais da mesma forma. Quando a aposentadoria encerra décadas de rotina e propósito. Quando percebemos que um capítulo terminou e que, por mais que sintamos saudade, não existe forma de voltar para ele.
Há oito meses perdi minha avó. E, junto da saudade que ela deixou, comecei a perceber quantos outros lutos habitavam dentro de mim.
Alguns têm nome e rosto. Outros são mais difíceis de explicar.
Às vezes me percebo enlutada por coisas que nunca chegaram a existir. Pelos sonhos que morreram antes de se realizar e por aqueles que sequer tiveram a oportunidade de nascer. Pelas viagens que não fiz e pelas que jamais farei. Pelos caminhos que abandonei e pelos que nunca encontrei. Pelos amores que imaginei, pelas versões de mim que ficaram para trás e pelos futuros que um dia pareceram inevitáveis.
Existem perdas que não deixam fotografias.
Não há lápides para visitar quando morre uma possibilidade.
Não há velas para acender por um sonho que se desfez aos poucos.
Não há rituais para a morte silenciosa de um futuro que passamos anos imaginando.
E talvez seja por isso que essas dores sejam tão difíceis de nomear. Porque o mundo entende quando choramos aquilo que existiu. Mas raramente compreende quando choramos aquilo que poderia ter existido.
Os filhos com quem sonhei e talvez nunca existam além da minha imaginação. As histórias que não vivi. Os lugares onde nunca estive. As memórias que jamais serão criadas. A vida que imaginei para mim e que, em algum ponto do caminho, deixou de ser possível.
Há dias em que sinto que estou de luto por futuros inteiros.
E então percebo que o luto não é apenas sobre aquilo que perdemos. É também sobre aquilo que amamos o suficiente para lhe reservar um lugar dentro de nós, mesmo sem nunca tê-lo tocado.
Talvez seja por isso que ele seja tão vasto.
Porque o luto não chora apenas os mortos.
Ele chora pessoas, versões de nós mesmos, promessas, sonhos, possibilidades e destinos.
Chora aquilo que foi.
Aquilo que poderia ter sido.
E aquilo que jamais será.
No fim, carrego o luto da minha avó. Carrego o luto dos amores que terminaram. Carrego o luto dos sonhos que desmoronaram antes de florescer.
Mas também carrego o luto da minha própria vida.
Da que eu não tive.
Da que eu tenho.
E da que nunca vou ter.
Líris.
Tudo ficou desinteressante.
A medida da ferida está no tamanho do amor.
Eu já passei por muitas coisas na vida desde a minha infância que geraram inúmeros traumas. Não estou me vitimizando de forma alguma, nem mesmo me colocar numa posição de alguém “especial”; é só uma introdução para o que vem a seguir. Eu quase me lembro de todas as vezes, e, cada vez que algo parecido com isso acontece, eu revivo tudo como se tivesse acontecido ontem. Embora muitas lembranças venham carregadas de detalhes e da sensação de estarem acontecendo agora, acredito que nenhuma delas tenha me preparado para isso.
Porque nada me preparou para a sensação física de sentir o coração se estilhaçando em infinitas e minúsculas partículas.
No instante do impacto, o ar travou na garganta. Foi como se uma limalha de vidro quente tivesse sido despejada dentro das minhas veias, raspando lentamente cada parte de mim por dentro. O corpo inteiro paralisou em choque, quase com medo de se mover e fazer aqueles micro estilhaços invisíveis rasgarem ainda mais o peito.
Por fora, nada se vê. Imobilizada, eu encaro um ponto específico, não porque exista algo interessante ali, mas porque parece que tudo dentro de mim foi arrancado de uma vez. As palavras ainda ecoam na cabeça por alguns segundos, até começarem a soar distantes, deformadas, incompreensíveis. E então não sobra exatamente nada. Nenhum pensamento. Nenhuma expressão. Só o corpo, inerte, vazio, existindo por fora.
Mas por dentro é caos.
Existe uma versão minha presa ali dentro, pequena demais para conter a enxurrada, tentando desesperadamente estancar o sangramento com as próprias mãos. Em vão. Ela olha para os dedos cobertos por essa poeira de vidro invisível, para o peito destruído, para tudo transbordando sem controle, e permanece parada em desespero, os olhos arregalados, sem conseguir compreender como algo conseguiu me quebrar dessa forma.
Porque já tivemos o coração partido outras vezes, não me leve a mal, mas nunca daquela forma, nunca com tamanha intensidade. Em outras ocasiões, por mais que parecesse o fim absoluto, ainda existiam pedaços grandes o bastante para recolher. Conseguíamos remendar as rachaduras aos poucos, como um vitral antigo: fragmentos diferentes entre si, irregulares, de cores e formatos incompatíveis, mas que, unidos novamente, eram capazes de criar algo belo. E quando a luz atravessava essas marcas, o reflexo que surgia conseguia ser ainda mais bonito justamente porque havia sobrevivido à quebra.
Mas dessa vez não houve vitral. Não sobraram partes para encaixar, apenas uma poeira fina e cortante espalhada pelo peito, invisível aos olhos, impossível de segurar com as mãos. Descobri então que os menores fragmentos são os mais cruéis: eles não deixam marcas visíveis na pele, infiltram-se silenciosamente na carne, atravessam cada respiração e transformam o próprio corpo em um lugar impossível de habitar.
E então a realidade retorna sem qualquer delicadeza. Não existe aviso poético, nem tempo para permanecer destruída. O mundo simplesmente retoma seu lugar como se nunca tivesse parado. Um som trivial, o motor de um carro na rua, o bipe de uma mensagem, alguém pigarreando na sala, rompe o transe como uma pedra atravessando água parada.
Eu pisco.
O ponto fixo desaparece. Os olhos voltam a focar o ambiente. Pela primeira vez em minutos, o ar entra rasgando os pulmões, frio, pesado, quase doloroso. E talvez uma das sensações mais violentas seja perceber que o mundo não parou para assistir ao meu colapso. Nada mudou. As pessoas continuam falando, os relógios continuam correndo, a vida continua existindo com uma crueldade indiferente.
Então eu engulo o gosto metálico dessa limalha de vidro presa na garganta, ajeito a postura e costuro um sorriso falso sobre a pele, enquanto por dentro continuo inundada.
Cada movimento agora exige um esforço consciente, como se eu estivesse tentando mover engrenagens enferrujadas. Levo a mão até a testa e forço uma expressão de desconforto físico para mascarar o verdadeiro estrago. Preciso de uma saída rápida, uma desculpa esfarrapada qualquer que encerre o assunto antes que comece.
Então, com a voz um pouco arrastada, murmuro algo sobre precisar de um remédio, dizendo que uma enxaqueca violenta explodiu de repente na minha cabeça. Uma dor comum. Simples. Palpável. O álibi perfeito. Faz com que me deixem em paz sem preocupação excessiva, sem perguntas, sem a necessidade de explicar aquilo que nem eu conseguiria colocar em palavras.
Porque existem dores que ultrapassam o limite do compartilhável. Golpes tão íntimos e violentos que contar em voz alta parece quase profanar a própria ferida.
É um segredo que nasceu para morrer comigo.
Arrasto os pés até o quarto, fechando a porta atrás de mim com um clique suave, o som definitivo do isolamento. Só ali, trancada entre quatro paredes, eu me permito desabar. As pernas cedem antes mesmo que eu consiga pensar, e caio na cama não para dormir, mas porque sustentar o próprio corpo de repente parece exigir força demais.
Enterro o rosto no travesseiro para abafar o som do ar escapando do peito em rupturas irregulares. No escuro do quarto, longe de qualquer olhar, a limalha de vidro que tentei conter finalmente se espalha sem resistência. Não existe mais enxaqueca, nem desculpas ensaiadas, nem expressões falsas costuradas sobre a pele.
Existe apenas o silêncio.
E nele, sou só eu, encolhida entre lençóis amassados, assistindo ao meu próprio colapso interno. Como se aquela pequena versão de mim, desesperada tentando estancar a inundação com as mãos, finalmente tivesse entendido que não há nada a salvar. Porque esse tipo de destruição não explode para fora, ela acontece em silêncio, lentamente, corroendo tudo por dentro até transformar o próprio corpo no único lugar do mundo onde se pode sangrar em paz.
No escuro, o silêncio do quarto se transforma em um amplificador cruel para os piores pensamentos. Deitada ali, encarando um teto que mal consigo distinguir na penumbra, minha mente começa a andar em círculos, repetindo as mesmas frases tantas vezes que elas perdem completamente o sentido.
Será que eu sou tão ruim mesmo?
A pergunta ecoa sem descanso, rastejando pelos cantos da consciência como algo vivo. Então começo a revisitar cada segundo da cena, procurando desesperadamente o instante exato em que tudo desmoronou. Eu realmente não quis dizer aquilo da forma que entenderam. E talvez uma das dores mais sufocantes seja justamente essa: a de perceber que não existe defesa possível contra a interpretação que alguém escolheu fazer de você.
A frustração da incompreensão queima mais do que a próprio vidro atravessando o peito.
E no final de cada volta desse labirinto mental, surge o golpe mais cruel de todos, sussurrado pela voz da minha própria insegurança:
Talvez eu tenha merecido ouvir aquelas palavras.
Fico procurando respostas no vazio, como se o silêncio pudesse devolver alguma lógica para o estrago. Mas tudo o que encontro é essa poeira cortante se movendo dentro de mim a cada respiração, me lembrando que, merecendo ou não, o dano já foi feito.
Em algum momento, o corpo simplesmente desiste de acompanhar o caos. Os pensamentos continuam tentando correr em círculos por mais alguns minutos, tropeçando uns nos outros, cada vez mais lentos, até virarem apenas ruídos desconexos afundando no escuro. A cabeça pesa contra o travesseiro como se estivesse cheia de concreto, e até respirar parece exigir um esforço distante demais para continuar sustentando.
O cansaço finalmente vence.
Não de forma gentil, nem tranquila. É um colapso silencioso do organismo, como uma máquina superaquecida desligando à força para não explodir. A mente apaga antes que consiga encontrar respostas, antes que consiga reorganizar o estrago, antes mesmo de conseguir decidir se aquela dor era justificável ou não. E então vem o sono.
Pesado. Profundo. Não um descanso verdadeiro, mas uma inconsciência densa, quase febril, onde o corpo tenta sobreviver enquanto a mente se afoga no excesso de tudo aquilo que não conseguiu suportar acordada. Talvez tenha sido ali que eu realmente compreendi algo assustador
O dano que alguém é capaz de causar em nós dificilmente nasce do vazio. Certas pessoas só conseguem nos destruir porque antes ocuparam lugares profundos demais dentro da nossa existência. A intensidade da ferida sempre revela, de alguma forma, a intensidade do amor que existia ali. Porque a dor se parece muito com o luto: ela só alcança essa dimensão quando algo dentro de nós reconhece que havia ali uma presença importante o bastante para alterar toda a estrutura ao partir.
Percebi que eu amava muito mais do que imaginava e do que algum dia já senti.
Líris.
Nada como a dor para me fazer voltar a escrever...
As pessoas só conseguem enxergar no limite da extensão de suas próprias dores. É como se os olhos fossem moldados pelas cicatrizes, e o horizonte, limitado pelo peso das feridas. O mundo, então, deixa de ser um lugar de encontro e passa a ser um espelho rachado; cada um vê apenas o reflexo das próprias fissuras. Talvez por isso tantos se desencontrem, porque não conseguem reconhecer no outro mais do que a sombra de si mesmos.
—Líris R.
Às vezes, a sensação de estar perdido não é falta de rumo, mas excesso de caminhos traçados por mãos que não são suas. Você se moldou tanto às expectativas alheias que acabou se esquecendo do contorno da própria alma.
A liberdade, quando chega, não vem com flores, vem com silêncios pesados e olhares de desapontamento. Ser fiel a si mesma é aceitar que alguns vão se afastar, porque não reconhecerão a nova versão que não lhes serve mais. Mas é nesse abandono que nasce o reencontro. Deixar de caber nos moldes dos outros para, enfim, habitar a sua própria forma.
— Liris R.
Há dias em que me sinto como uma casa em ruínas coberta por uma fachada recém pintada. Por fora, janelas abertas com cortinas leves, a impressão de que o ar circula. Por dentro, paredes que rangem, rachaduras escondidas por móveis arrastados às pressas. Ninguém suspeita. E talvez seja essa a minha maior habilidade: sustentar o disfarce, ensaiar normalidades enquanto a estrutura interna desmorona em silêncio. Aprendi cedo a vestir máscaras como quem aprende a respirar. Sorrisos prontos, gestos ensaiados, respostas breves. A máscara protege, evita perguntas, preserva vínculos, garante que tudo siga funcionando. Mas cada vez que ela pesa demais e escorrega um pouco, deixando escapar a sombra que carrego, o mundo me pede apenas que aguente. Sempre mais um pouco. Como se não fosse exatamente isso que eu faço há tanto tempo, fragmentar o cansaço em parcelas, engolir silêncio em doses pequenas, suportar até quando o suportar já se tornou insuportável. E quando alguém me diz que sou forte, sinto a palavra como ferro quente na pele. Porque não é força, é costume. É apenas continuar quando não há escolha. É levantar porque a vida não para, mesmo quando eu já parei por dentro. A cada gesto cumprido, sinto como se estivesse hipotecando partes de mim, deixando nelas um rastro de esgotamento invisível. O que ninguém vê é o intervalo entre os atos. A cena se fecha, as luzes apagam, e eu desmorono nos bastidores. Ali não há plateia, não há aplausos. Só o eco do meu próprio corpo pesando contra o chão, o vazio abrindo suas mãos em volta de mim. Ali, o externo finalmente reflete o interno, mas é tarde demais para que alguém perceba. A verdade é que há um cansaço que não se diz em voz alta. Ele mora nos ossos, nas pausas longas, nos olhares que se perdem no nada. E ainda assim, sigo colocando a máscara todas as manhãs, como quem veste uma armadura trincada. Não porque eu queira enganar o mundo, mas porque é assim que o mundo aprende a me suportar, acreditando que estou bem. No fundo, o desejo é simples, ser encontrada no intervalo entre um ato e outro. Que alguém perceba o peso que carrego em silêncio e não peça por resistência adicional. Que, se a máscara um dia escorregar, haja alguém que escute sem soluções prontas, que ouça, que entenda.
— Líris R. em Relevo Íntimo, o livro.