[Flashback] About friendship, firewhiskey and black eyes | Barney & Caradoc | December 77
Aquele inverno tinha um gosto diferente em sua garganta, mais amargo e intragável do que o normal. Mesmo protegido por suéteres de lã, pesados casacos, meias grossas e botas de couro gasto, o rapaz de cabelos castanhos ondulados e olhos esverdeados ainda sentia frio.
Levou algum tempo para que se desse conta de que o frio existia dentro dele.
Barney não gostava muito daquela época do ano. Um mundo feito de branco e cinza não era nada aos olhos de quem estava acostumado com verões mornos e coloridos, com dias quentes ao ar livre finalizados por uma chuva refrescante no fim da tarde. Preferia o verde brilhante, o vento fresco e a exuberante paisagem, preferia as tardes passadas nos parques da cidade na companhia de seus ídolos, os autores e poetas a quem tanto admirava. Preferia o Barney de quatro meses atrás, alguém que ainda não tinha conhecido aquela sensação estranha que o não dela tinha deixado.
Naquela noite de sábado, o ravenclaw decidiu que Mafalda Hopkirk estaria completamente extinta de seus pensamentos e que não mais se importaria com o que aquela garota em particular fazia. Para ele, ela agora não passava de exatamente aquilo que deveria ter sido desde o princípio: sua colega de casa. Nada mais especial, nada menos cordial. Iria aproveitar os ares de liberdade que aquela situação lhe trouxe e desfrutar da chance de voltar a ser aquele rapaz divertido e vivaz, porque ele era jovem demais e ainda havia muitas pessoas para conhecer. Por Merlin, Hopkirk não era a única garota da face da Terra.
Atravessou uma rua movimentada e parou em uma pequena loja para comprar cigarros. Fazia um bom tempo que não fumava, mas de repente ele sentiu como se precisasse muito de um cigarro. Agradeceu ao senhor do caixa com um maneio de cabeça e rapidamente levou um aos lábios, acendendo-o com um isqueiro e aproveitando aquela primeira tragada em tantos meses. Andava pela calçada coberta por uma fina camada de neve, uma das mãos enfiada no bolso do casaco e a outra amparando o cigarro quando passou em frente ao um movimentado pub. Um grupo de garotas risonhas passava pela porta naquele exato momento e uma delas olhou demoradamente para Barney, que sorriu em resposta. O ar quente, o cheiro de comida, o tintilar de garrafas de bebida e a atmosfera animada com músicas e risadas pareciam chamá-lo para dentro. Barney permaneceu parado na calçada em frente ao estabelecimento por alguns instantes, tragando mais algumas vezes o seu cigarro, a fumaça cinzenta dançando ao seu redor enquanto ele pensava, até que finalmente uma ideia iluminou seu rosto. Jogou o cigarro no chão e apagou-o com a sola do coturno, caminhando de forma decidida para uma rua vazia ou um beco abandonado. Quando estava protegido pela pouca iluminação e longe do olhar de trouxas, aparatou.
Em uma fração de segundo, deixava Londres e reaparecia no interior da Inglaterra. Foram pouquíssimas as vezes em que visitou Caradoc Dearborn na propriedade de campo dos Shafiq, mas recordava-se o suficiente do lugar para conseguir visualizá-lo ao aparatar. Ainda chegou a pensar que estava no lugar errado ao se deparar com paredes de pedra em meio a neve, mas rapidamente conseguiu reconhecer o terreno, agora tão diferente de quando havia estado ali num verão esquecido no passado. Os muitos feitiços de proteção formavam uma espécie de barreira, uma defesa extremamente importante em tempos como aquele. Apesar do próprio Barney ter sangue Dearborn em suas veias - afinal, sua avó era uma - o rapaz não conseguiu passar pela redoma de encantamentos que protegiam a propriedade e teve de ficar a uma distância considerável da grande casa. O rapaz então recorreu ao sinal muitas vezes usado entre os amigos, fosse quando Barney precisasse visitar Caradoc, fosse quando Dearborn precisasse visitá-lo. Empunhou a varinha e, com um feitiço para iluminar, mirou o feixe de luz exatamente na janela que deveria ser do quarto de Doc, apagando-a e tornando a acendê-la em intervalos que sugeriam código morse, um chamado que somente Barney, Doc e alguns poucos amigos tinham conhecimento.
Dada a mensagem, só lhe restava torcer para que Doc a tivesse recebido e apenas esperar que o amigo aparecesse. Durante esse intervalo, Barney encostou-se em uma das árvores mais próximas, as mãos no bolso do casaco para se proteger do frio de mais um rigoroso inverno no Reino Unido. Acendeu mais um cigarro apenas para passar o tempo, tragando-o lentamente enquanto pensava e observava os flocos de neve caírem como pedaços de algodão. Tentou suprimir um tremor de frio quando avistou a luz fraca de outra varinha aproximando-se aos poucos, e Barney então reconheceu seu colega de casa e amigo.
“Aye!” Desencostou-se da árvore e avançou alguns passos na sua direção, cumprimentando-o com uma voz animada, o cigarro entre os dedos longos. “Achei que ia me deixar morrer de hipotermia.” Brincou Barney, um sorriso divertido no rosto. “O que está fazendo em casa numa noite de sábado? Por Merlin, Doc, vamos sair, fazer alguma coisa, beber um pouco, huh?” A ideia foi sugerida com certo ar casual, mas a verdade era que, caso Doc resolvesse negar logo de início, o que antes seria apenas um convite rapidamente se transformaria numa intimação, talvez até num possível sequestro. “Estou precisando de uma boa dose de firewhiskey e acho que você também. Vamos, não me diga que está ocupado? Tenho certeza de que o que quer que esteja fazendo, pode esperar.” Disse, esticando o braço para um rápido tapa no ombro do mais alto na tentativa de encorajá-lo. Não queria beber sozinho porque sabia de sua tendência a sentir-se gryffindor demais quando estava sob influência do álcool, o que geralmente significava fazer coisas inusitadas, algo que geralmente não faria sóbrio e que provavelmente se arrependeria depois. Coisas como pensar em Hopkirk ou tentar procurá-la. O ravenclaw precisava sim de uma bebida mas, mais do que isso, precisava de um amigo, fosse para conversar ou impedí-lo de fazer coisas estúpidas. Caradoc Dearborn desempenhava esse papel com maestria.