No último dia 27 foi lançado oficialmente no Brasil, o novo álbum do Angra, “Secret Garden" e hoje ele está na ponta da agulha!
A banda paulistana de heavy metal iniciou suas atividades em 1991, e alcançou sucesso estrondoso no Japão, na Europa e também aqui no Brasil, se tornando uma das maiores, senão a maior banda expoente do metal nacional. Depois da saída de alguns integrantes, a banda renasce novamente e mais forte do que nunca. Parece clichê dizer isso, mas é a mais sincera opinião, e isto se dá pela pegada incrível do novo baterista Bruno Valverde,prodígio de 24 anos, que mistura a empolgação da idade e a determinação de um músico profissional com técnica e precisão e de Fábio Lione (Rhapsody, VisionDivine, Kamelot, dentre outras) que mostra ser um cantor incomparável e incansável. Sua técnica o permite cantar com uma tranquilidade e competência impressionantes. Digo isto porque quem estava no show de gravação do mais recente dvd do Angra (20th Angels Cry’s Anniversary), viu Lione cantando por 3 horas seguidas sem demonstrar desânimo ou cansaço em momento algum. Além dos integrantes, o Angra também está de empresário novo e contrato com a gravadora Universal, o que certamente auxiliou a banda em toda a exposição e qualidade do trabalho atual. Mas chega de conversa e vamos para o álbum.
Secret Garden traz produção assinada por Jens Bogren(Arch Enemy, Soilwork) e pré-produção pelo renomado Roy Z, além de ter sido gravado na Suécia. A produção se mostrou superior, mais clara e bem organizada que no álbum anterior “Aqua”. Este diferencial faz com que o álbum seja aceito de cara como um dos melhores do Angra se analisarmos em um conjunto. A arte da edição digipack, vendida no Brasil pelo site oficial da banda, é impecável. As imagens são misteriosas, com tons escuros, o que reflete diretamente no conteúdo sonoro de Secret Garden. O álbum é conceitual, mas isto será assunto para um futuro post, podemos adiantar que o tema do álbum gira em torno de uma história fictícia sobre um sujeito que se encontra em um momento de questionamento, algo que remete ao “Temple of Shadows” (2004), mas desta vez, traz uma abordagem mais íntima por não se tratar de um santo ou de um personagem histórico. Por enquanto focaremos na música em si. Vamos então por partes:
A introdução novamente não vem em faixa separada, mas é tão boa e bem produzida que isso se torna um detalhe bem pequeno perto da grandiosidade de Newborn Me, que havia sido apresentada ao público como primeiro single através de um vídeo com a letra da mesma. A música já mostra que o álbum terá base no peso e no lado progressivo da banda.
Apesar disto, a faixa seguinte, Black Hearted Soul, chega a lembrar os trabalhos paralelos de Lione com o Rhapsody e Vision Divine, trazendo orquestrações e corais grandiosos e um metal melódico que se remete diretamente a faixas como Spread Your Fire (Temple of Shadows) e Nova Era (Rebirth). A música é muito fácil de ser assimilada pelos fãs da banda e com certeza trará um sorriso de aprovação imediato.
Final Light chega tão pesada quanto qualquer outra canção do Angra, mas traz a marca registrada da banda de juntar instrumentos mais regionais como no trabalho fantástico na percussão. Pelo ritmo compassado, certamente fará os fãs pularem muito nos shows. Como já era de se esperar, a cozinha continua tão competente e sólida que, mesmo com os novos integrantes, a impressão de que a banda já tinha essa formação a mais tempo fica bem forte.
Storm of Emotions, segundo single do álbum, vem acompanhada de um clipe muito bem produzido e simples, focado na música, na interpretação de cada um dos integrantes. A música em si é mais cadenciada mas bastante pesada para os padrões do Angra. Porém, tem um dos melhores refrões já registrados pelo grupo. Com certeza funcionará muito bem ao vivo, fazendo com que todos acompanhem prontamente ao comando de Lione. A música termina com um coral muito bacana que eleva a música a um grau muito alto e empolgante.
Violet Sky prova que o álbum veio para ser pesado e ponto. Chega a assustar o fã que talvez em algum momento esperou algo mais próximo de trabalhos como Holy Land ou mesmo pelo melódico Rebirth. Esqueça. Como já dito por alguns fãs, este talvez seja o cd mais pesado, mais sombrio e mais impactante da banda. O refrão então, nem se fala, com certeza o Angra superou a fase melódica “simplesinha” de álbuns do início da carreira da banda. A música faz uma reflexão forte na letra que acompanha o conceito principal.
Depois de uma pedrada dessas, somos surpreendidos pela voz angelical de Simone Simons, do Epica, encantando a todos em uma canção que lembra bastante as de sua banda. E não é que a canção não seja boa, mas se você não entender o que proposto na temática, no conceito criativo, pode soar estranho que a moça cante a música sozinha. Talvez haja uma explicação, mas como eu disse, a parte lírica ficará para um próximo post. Do mais, a música é belíssima e como proposto pelo Angra no primeiro álbum, a questão é não ter limites para a criatividade.
A canção da uma esfriada nos ânimos, para que uma venha Upper Levels. A banda volta com a pegada progressiva adotada nos outros trabalhos e que combina muito bem com a proposta atual, mostra que a banda soube inovar e também que o processo de composição a parte instrumental agora traz influências claras dos trabalhos solos de cada um dos guitarristas, Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt. Destaque especial novamente para a percussão e para a abertura feita por Felipe Andreoli que provou que está em sintonia perfeita com o novo baterista. Nesta mesma canção, a banda faz um link muito interessante nos solos que lembra muito Rush e algo de Dream Theater, o que talvez não seja apenas questão de gosto dos músicos, ou mesmo a necessidade de explorar algo mais atrativo aos fãs que procuram mais surpresas do que apenas velocidade, mesmo sendo uma faixa muito empolgante.
Crushing Room traz o que talvez seja o dueto mais esperado deste álbum. Rafael toma a frente dos vocais novamente e divide suas partes com a “Deusa do Metal” Doro Pesch (Warlock, Doro). A musa mostra que ainda tem voz marcante para fazer da canção um ponto alto no disco e deixa sua marca registrada na história da banda “brazuca”.
Em Perfect Symmetry, na opinião de quem vos escreve, a melhor do álbum, traz o Angra que talvez boa parte dos fãs espera ouvir, rápido, melódico, com letra positiva, instrumental refinado e empolgante. A voz de Lione faz toda a diferença pra quem já é fã do estilo, por ser tão característica no power metal em metal melódico em geral. Ainda tenho esperanças de um futuro álbum mais focado neste estilo, que remeta à clássicos da banda como Running Alone, Nova Era, Nothing to Say, ZITO, dentre outras.
Para fechar o álbum, a balada do álbum traz Bittencourt e um coral muito especial, contando com nomes cotados pelos fãs como substitutos de Edu Falaschi, entre eles, Alirio Netto (Age of Artemis) e Bruno Sutter, o eterno Detonator do Massacration. A faixa é uma das mais simples e singelas da banda, mas também uma das mais belas composições.
Concluindo, não é um álbum fácil de ser digerido, ainda mais pelos fãs mais antigos da banda. Mas uma vez que se entenda o conceito, a necessidade de soar mais atual e direto, o álbum talvez seja considerado clássico absoluto da banda e divisor de águas entre uma banda com futuro incerto e agora um grupo com mais vontade e força para se manter firme por anos. Como dito pelo próprio Rafael Bittencourt, o álbum é o produto final do que eles gostariam de ter feito no Aurora Consurgens (2006) e no Aqua (2010). O que é mais interessante, é que mesmo causando um impacto nos fãs mais antigos, talvez seja o mesmo choque os fãs já experimentaram na transição entre o “Holy Land”(1996) e o “Fireworks” (1999), por trazer sonoridade mais pesada e orgânica. Sendo das antigas ou não, é um álbum que merece atenção e que em breve receberá o título de clássico absoluto pelo público, pelos fãs mais céticos e pela mídia. Confira abaixo trechos da entrevista com Rafael Bittencourt falando sobre o disco para a revista Roadie Crew:
“O ponto é que mais uma vez tenho orgulho de termos superado as dificuldade, e feito um disco que está muito bom. Sempre tenho como referência Temple of Shadows (2004) , que é uma obra-prima, e acho que Secret Garden o superou.”
“Nunca tivemos problema em produzir bons discos ou ter secado a fonte criativa. O que mais quero simbolizar com esse título é que o jardim secreto é o jardim da criatividade. É o jardim secreto onde é inesgotável a fonte criativa que muito me guia.”
“O Angra por muito tempo ficou sustentando uma película de super-heróis que sempre me incomodou.”
“(Sobre Fabio Lione) Acho que a voz dele é imponente, é uma voz de rei. A voz do Andre (Matos) é mais delicada, mais sútil. Ela tem outro caráter e é muito bonita também, a voz dele é especial. Já o Edu (Falaschi) tinha uma voz carismática, amiga. Uma voz que aproxima você. Já o Fabio tem essa voz de rei, acho que ele trouxe essa glória – é um sentimento meio épico para o Angra.”
“Este é um novo começo. O Angra não tem que provar nada, eles são livres para fazer o que quiserem. Também acho que ao vivo a banda está melhor, está mais carismática. Acredito que eles entenderam que poderiam fazer algo diferente, mais moderno e matador ao vivo. Acho que trago algo para eles e eles para mim também. Posso sentir esse lado brasileiro, a forma de criar músicas e melodias é um pouco diferente das bandas europeias.” – Fabio Lione para a Roadie Crew.
Destaques: “Perfect Symmetry”, “Upper Levels”, “Black Hearted Soul”, “Final Light”, “Crushing Room”, “Newborn Me”.