Por tanto tempo, cultivei o desejo de que o destino tivesse seguido o roteiro que desenhei em minha mente, aquele que você fazia parte. Eu até idealizei uma teoria bonita, mas na prática se revelou um terreno árido. Para abrir espaço ao que vivíamos, uma verdade ainda que em pedaços, empurrei meus maiores medos para o canto mais escuro do quarto, deixando-os de lado.
Eu me contive na espera de mudanças que nunca chegavam, aquelas que você “prometia”. Fui alvo de dedos apontados, mas aguardei em silêncio e, sem qualquer apreço pela dor, engoli seco cada gole de culpa para simplesmente continuar. Minha esperança era um amor durável, eu queria apenas que você fosse maleável, que a compreensão morasse em seus gestos, não apenas na sua carteira, e que, nem que fosse por um breve instante, você confiasse em mim.
Tentei tornar o óbvio ainda mais claro para você e perdi o controle tentando provar o contrário, numa ingenuidade quase trágica, acreditando que nossos erros poderiam ser deixados para trás, como pegadas apagadas pela maré, me enganei.
Você me cercou com seus traumas e inseguranças, construindo muros que chamou de motivos. Por um tempo, aceitei suas desculpas, embora meu peito soubesse que algo estava errado. Eu me perguntava se aquele "pouco" era o meu propósito.
Eu não via em você a pessoa que eu buscava, mas aceitava quem você era, uma possível consequência de faltas acumuladas que, de algum modo distorcido, preenchia os vazios.
Suas razões nunca foram nítidas, eu era o arqueólogo de um mistério que você escondia. Tentava ligar os pontos para confortar minha própria alma, buscando uma entrega real, mas o que encontrava era um reflexo superficial. Alguém que fingia concordar, aceitar, mas que, como uma sombra à espreita, apenas esperava o momento certo para repetir o movimento.
Diga-me, quem era aquele imitador que ocupava o seu lugar? O mais estranho disso tudo é perceber onde me perdi, acreditando em palavras certas vindas de uma boca errada. Porque eu apenas joguei todas as minhas cartas na mesa, entrei nessa desarmado, enquanto você guardava contragolpes. Para falar a verdade, acho que você não buscava o amor, você buscava a falha. Ansiava por um pequeno erro para encurralar.
Acreditei que abdicar de quem eu era seria minha maior prova de amor. Que deixar minhas versões antigas para trás era o sacrifício justo. Mas a luz finalmente incidiu sobre o caos, você não queria a minha companhia, você queria a minha custódia.
Seu "cuidado" era uma obsessão lapidada. Você queria meus trajetos, minhas senhas, meus amigos, o tempo exato de cada passo meu. Tentou romantizar o controle, mas o nome disso nunca foi proteção. Por muito tempo, menti para mim mesmo, tentando me segurar na única coisa que eu julgava real, o que eu sentia.
Mas o sentimento sozinho não sustenta o que é bruto. Você me provou, enfim, quem realmente habita essa pele. Sem meios-termos, sem aberturas. Alguém que manipula a própria ansiedade para tecer fios de controle. Você tentou se manter por perto, mesmo de longe, porque o domínio é o seu único idioma.
Mas agora é tarde. Aquela pessoa que você conheceu, que se moldava e se calava, eu a matei. Hoje, o silêncio em mim é absoluto. Não sinto mais nada. O que sobrou? Apenas essas malditas lembranças e a minha liberdade.
- Kaio

















