"estava chovendo." narrou, e enquanto falava, a cena poderia ser assistida por drácula, visualizada em perfeição na ilustração dos pensamentos daquele espírito. transmitida pelo toque, simplório, do ato de dividir o mesmo colchão. "trovejava, e acordei pensando ter ouvido alguém me chamar, num grito. me lembrei de uma tarde numa praia, quando eu costumava ser alguém diferente. outro rosto. eu não vi o rosto. mas eu sei que era você." as palavras saíam devagar, aos poucos, conforme ia desenhando as cenas. se lembrava de fragmentos de imagem, o barulho de sinos dos ventos, o cheiro de maresia. "foi uma sensação boa." completou, os olhos contemplando a figura em sua frente. drácula parecia o quadro de uma pintura barroca que andava e falava. um daqueles, de sua coleção de coisas da terra que caíram no país das maravilhas. levadas pelos oceanos de lágrimas, depois de despencarem pelos buracos deixados pelo coelho. e aquele noface em particular amava a arte de restaurar algo um dia belo. enxergava, como via por detrás dos olhos de uma pintura de vermer, tristeza e ódio enovelados no castanho das íris. e ainda via a beleza. "então você admite que vigia meu sono, afinal. espero um dia saber a que devo a honra." a risada baixa, divertida, deu lugar para um abrir de olhos mais desperto. odiava aquela parte, de esquecer. e arriscara, antes de seu dedo se aventurar por zonas mais traiçoeiras, uma carícia na pele que estava curioso para tocar. fazer certeza que não era um fantasma lhe assombrando. a pele, frágil, foi pressionada devagarinho até ser facilmente aberta pela presa alheia. sem uma reclamação do espírito, que assistia curioso, compelido. porque sentira um arrepio, que lhe eriçara todos os pelos, quando fora invadido pela sensação que mesmo uma pequena mordida provocava. se lembrava daquilo.