20 de março
Era noite do dia 20 de março, a lua estava cheia e a relva da praça salpicada com o sereno. Chovera muito, assim que deu-se uma pausa, as criaturas noturnas saíram para realizar seus a fazeres diários de bicho livre.
Eu estava observando a serenidade com que aquela lua aparecia entre as nuvens. Tudo estava tão calmo quanto um cemitério moribundo. Para mim, cemitérios são como álbuns de fotografia, repleto de pessoas, diferentes religiões, nacionalidades, medos, inseguranças, diferenças...
Não sabia de certo o que sentia naquela noite e naquele justo momento apenas tinha certeza de que era vinte de março, carregando com si uma brisa gélida, mortificante, mas que, ao mesmo tempo, era mais calorosa do que estar no meio de várias pessoas.
O vento zumbia, parecia até murmurar alguma barcarola francesa. Tudo era gratificante, mas nem as damas-da-noite, que desabrochavam exalando seu perfume lúgubre e madrigal, era suficiente para me tirar aquela melancolia que carregava em meu peito franzino.
Aquele caminho ornamentado com petúnias e pedras dificultavam meu caminhar. Conforme eu andava, o ar ia ficando rarefeito. Foi então que achei melhor sentar-me em uma das tumbas e ali fiquei, admirando as lápides úmidas feitas de cimento. As estátuas pareciam olhar-me com um certo desprezo. Num simples gesto de espanto, uma pequena mariposa em meu braço, dei-me com os olhos prendidos ao meu nome gravado na tumba em que eu me sentara para descansar.

















