devil eyes, empty soul {maja and neptune}
O calor não era o que realmente acabava com o humor de Maja, mas, principalmente, o mormaço que tomava conta de sua pele, quando tudo que ela buscava era ficar longe de mais um ambiente calorento ou todo afobado. As roupas que usava não colaboravam muito com sua vontade de dissipar toda aquela sensação incômoda e quente; o espartilho que há tempos não era apertado, o pseudo-sobretudo que usava e a saia rodada, com camadas e camadas de pano, juntamente com as botas até um pouco acima de suas canelas. Usando do chapéu de um dos marujos que, envolto por toda a sobriedade e sensualidade da mulher que chegara-lhe pedindo a peça, sequer havia reparado o mal que havia de lhe fazer ficar com a cabeça exposta e desprotegida. Mas fosse lá como fosse, aquele sentimento agoniante não era o que lhe preocupava mesmo.
Em sua cintura, havia uma belíssima Knife Czar. Entretanto, desde a última vez que a cigana acabara por usá-la, Khiare sentia que havia algo de errado com seu precioso punhal. Algo como o cabo solto ou frouxo, ou a lâmina sem afiar já fazia algum tempo. Tomando aquilo como uma de suas principais preocupações, a mulher nem se importara com a outra arma de corte, presa entre seu saiote e seus quadris. Uma espada de corte fino, de cabo não tão curto e de entalhes que fariam qualquer nobre desavisado, exclamar de forma horrorizada; perguntariam-se, os mais ignorantes, que dizeres eram aqueles. Seriam do diabo? Muito pelo contrário. Cheia de suas crenças, Maja entalhara o enoquiano que ouvira um sujeito pregar, durante suas andanças, naquela prata. Uma proteção mais mental, do que física, mas que andava-lhe adiantando muito, se parasse para pensar melhor.
Dirigindo-se então ao compartimento de armas, a morena não hesitara em adentrar o ambiente, sem muito mais cerimônias. Afastando o portal que dividia o convés daquele lugar tão inóspito, mas tão interessante ao mesmo tempo, Maja logo estava ali, nos confins, preste a envolver-se, mesmo que de forma completamente passional e desinteressada, com um dos Rumancek. Dupla dinâmica, perversa, soturna, reconhecia ela. E era justamente aquilo que acabava por instigá-la. Nunca fora atraída pelo correto, pelo cândido. O sujo, o baixo, o bizarro e o desagradável, sempre soaram-lhe mais interessantes. O incomum era o que conseguia agradá-la, afinal.
Com passos que ela não fazia muita questão de tornar mudos, a mulher aproximou-se da mesa onde o louro parecia, como sempre, trabalhar, findando o que quer que fosse. Sem muito mais dizer, apoiou-se na superfície, ciente de que seu decote, generoso e realmente vistoso, estaria no ângulo da visão do outro. Bastava que ele quisesse. E virasse-se melhor, num ângulo mais propício, para observar melhor.
— Ocupado demais para mim? — Perguntou, em um falso tom imerso em volúpia. Correndo seus olhos muito bem marcados, por toda extensão daquilo que mais parecia-lhe uma saleta, decidira que nem se a resposta fosse positiva, ela moveria um dos pés dali. Precisava dar um jeito em sua Knife e não mediria esforços para torná-la tão mortal de novo, quanto já fora um dia. — Eu tenho uma coisa para você.
Remexendo em suas vestes, com certa lentidão, Maja chegou a subir um pouco do projeto de espartilho. Removeu dali, sem muito cuidado, a lâmina que roçara em sua pele, trazendo consigo, em sua essência, parte do sangue da navegadora. Por um momento, Khiare perguntou-se que diabo havia sido aquilo. Todavia, no instante seguinte, lembrou-se de breves comentários - talvez exagerados - sobre os interesses incomuns do chefe das armas, em carne humana, em sangue. Não se surpreenderia se aquilo fosse mesmo verdade, afinal, ele era irmão de Ocean. Se o cirurgião era sádico, então havia de combinar possuir um irmão sem muita prudência, juízo considerável, também! Uma família de loucos era facilmente reconhecida por seu histórico.
Não que Maja temesse, caso fosse o caso.
Muito pelo contrário; aquilo, mesmo que não quisesse, só fazia instigá-la.
Então, estendeu a arma sobre a superfície em que estivera apoiada, instantes atrás. O sangue não era visível em um filete muito grande, mas ainda assim, reluzia contra o brilho da prata, de fino corte. Como se nada houvesse acontecido, passou os dedos pelo cabo liso, só com alguns arranhões:
— Acho que há algo de errado. Poderias dizer-me o quê? Sinto o cabo frouxo, escorregando de minhas mãos. Não pelo suor, nem pelo que mais quer que seja. Sinto que alguma coisa foi rompida. Ela está assim desde… A última queda que sofreu.
As mãos calejadas carregavam algumas marcas de cortes recentes e cicatrizes de outrora, os dígitos de Neptune também estavam cobertos por uma camada escura de sujeira, provavelmente pó e ferrugem das armas. Quando ele deixou-se coçar o queixo, um pequeno borrão negro instaurou-se em sua pele translúcida, porém quase impercebível. Não era nada incomum o cigano carregar algumas marcas negras sobre o rosto devido a sujeira que se apegava ao navio; a maioria dos marujos as tinha (as marcas), afinal. Então, ao virar-se para encarar melhor Maja, pôde notar o decote que à ele certamente era exibido. Deixou apenas que o correr dos olhos passasse por ali, sem muito abster-se a imagem provocativa. Sabia controlar seus instintos, afinal. Porém, apesar disso, em sua mente pensamentos um tanto sórdidos correram, e ele não reprimiu o sorriso singelo que assolou seus lábios por alguns instantes curtos. - Mostre-me. - Respondeu a segunda provocação, ignorando certamente a primeira. Nunca fora homem de muitos cortejos, afinal, e era difícil para si lidar com algumas situações.
Observou enquanto a mulher sacava da barra do espartilho sua arma. Era uma adaga extra longa, com arabescos negros que formavam frases em uma língua que à Neptune era desconhecida, arabescos que cobriam não apenas a bainha da arma, como também a lâmina. Bela, pensou o cigano sem muito entusiasmo. Conhecia dezenas de armas bonitas que não passavam de um lixo na hora da luta. Mais vale uma espada enferrujada do que um canivete de maricas. Era assim, pelo menos, que pensava o cigano. Ou talvez estivesse sendo um pouco rude demais em seus pensamentos. A verdade era que apreciava o trabalho de artesãos nos armamentos, mas também achava tal frescura deveras imbecil e inutil. Mas que gostava, gostava.
Os olhos cruzaram pelo corte que a adaga deixou próximo ao ventre de Maja, e Neptune umedeceu suavemente os lábios com a visão do sangue que lambeu a pele límpida e macia da mulher. O cigano, então, deixou-se caminhar até um pequeno armário e tirar um pote com a letra R em metal trabalhado com arabescos. Rumancek, pensou ele, lembrando-se do dia em que ele e Ocean haviam roubado o maldito pote de um nobre cuja o nome também começava com R. Sorriu e abriu-o, vendo o creme arroxeado que ali jazia sem muita diversão nos olhos. Caminhou até Maja, então, e estendeu-lhe o pote. - Passe. Vai ajudar a tapar o sangramento e não deixará qualquer cicatriz. - Deu de ombros. Ele esquecia-se de passar o maldito unguento que o irmão lhe preparava semanalmente, para que não ficasse com cicatrizes nas mãos devido aos cortes de armas. Ocean poderia ser caridoso com o irmão mais novo vez ou outra, e tal gesto trazia à Neptune um nó na garganta. Não gostava, afinal, de ser mimado.
Os olhos escuros agora voltaram-se para o armamento novamente. Ele agarrou das mãos de Maja a adaga e deixou-se examiná-la, os olhos brilhando com tamanha excitação. Era, de fato, uma arma bela e bem trabalhada. O cabo estava um pouco frouxo, a lâmina movia-se sutilmente e estava um pouco torta, mas nada que uma hora de trabalho não resolvesse facilmente. Levantou os olhos para Maja Khiare, sem deixar demonstrar seu deslumbramento pela arma posta em suas mãos. - Fácil, amanhã pela manhã estará pronta. O cabo está um pouco frouxo, uma das soldas provavelmente se soltou. - Deu de ombros com descaso. - Posso deixá-la em sua cabine durante a madrugada, se preferir. Pretendo trabalhar a noite hoje. - Os lábios tornaram a umedecer-se pelo calor que ali fazia, e Neptune podia sentir o suor escorrer-lhe pelos ombros. Suas intenções não eram maliciosas nos aposentos de Khiare, mas, bastava que ela desse o sinal verde, e Neptune sem sombra de dúvidas avançaria como um cão voraz. Era o que fazia, afinal.

















