o prefeito de khadel se sente honrado em ter NESLIHAN ŞAHVERDI GÖKÇE como moradora de sua excêntrica cidadezinha. aos seus VINTE E NOVE anos , ela é bastante conhecida pelos vizinhos como A MILITANTE . dizem que ela se parece com HANDE ERÇEL , mas é apenas uma ADVOGADA DE DIREITOS HUMANOS & CONSULTORA DE COMPLIANCE . a ausência do amor em sua vida , deixou NES um pouco AUTODESTRUTIVA e CONDESCENDENTE , mas não lhe atormentou o suficiente para deixar de ser AUDACIOSA e EMPÁTICA . esperamos que ela encontre a sua alma gêmea, quebre a maldição da cidade e consiga ser feliz !
𝐂𝐇𝐀𝐑𝐀𝐂𝐓𝐄𝐑 𝐏𝐀𝐑𝐀𝐋𝐄𝐋𝐒 : vivian lau & dante russo ( king of wrath ) , monica geller ( friends ) , francesca rossi ( the kiss thief ) , lidia pöet ( la legge di lidia poët ) , ceylin erguvan & ilgaz kaya ( yargi ) , marissa cooper ( the o.c ) & amal alamuddin clooney !
𝐎𝐕𝐄𝐑𝐕𝐈𝐄𝐖 :
apelidos : nesi , nes , hani ( para pouquíssimos muito próximos , ou que querem irritá-la , a sonoridade é bastante similar à de honey )
data de nascimento: 20 de novembro , 1995 !
orientação sexual : bisexual !
filiação : münevven şahverdi & kadir şahverdi !
altura : 1,75 cm !
cabelos : longos fios acastanhados que pendem em ondas naturais !
olhos : castanhos levemente avermelhados !
tatuagens : uma libélula logo abaixo da nuca , realizada em homenagem à münevven !
piercings : cinco perfurações adornam cada um dos lóbulos , sempre carregando delicadas joias prateadas !
animais de estimação: mark ruffalo ( cane corso resgatado de maus tratos ) , chaz bono & virginia woolf ( greyhounds resgatados de corridas ilegais ) , francis minor , henry blackwell & angela davis ( gatos srd resgatados de maus tratos ) , carmine , kırmızı & vermillion ( puros-sangues ingleses resgatados de corridas ) & gül ( um hanoveriano com o qual competia desde os quatorze anos ) !
educação: bacharelado em direito ( università degli studi di siena ) , mestrado em direitos humanos e direito internacional público ( oxford university ) & doutorado em ética e estudos legais ( wharton - distance learning , em andamento ) !
❝ ela é uma tempestade em meio à calmaria da tradicional família rica em que cresceu. com uma postura firme e uma voz poderosa , ela defende suas crenças em um mundo que parece ignorá-las. vegetariana e feminista , não hesita em expor sua indignação contra o machismo e o preconceito que a cercam. sua coragem e determinação a tornam uma líder nata , embora isso a distancie dos familiares egoístas que só se importam com o dinheiro. com um coração generoso e uma mente crítica , ela é uma força da natureza , pronta para lutar por um mundo melhor , mesmo que isso signifique arrumar umas brigas por aí ! ❞
𝐁𝐈𝐎𝐆𝐑𝐀𝐅𝐈𝐀 :
𝐓𝐖 - menção de distúrbios psicológicos e transtornos alimentares, menção de abuso e manipulação mental e emocional & negligência parental !
a poderosa família turca , uma fortuna proveniente da indústria têxtil de luxo datada de séculos e com fortes conexões italianas , um império de exportação de tecidos finos para finalidades da alta costura no mercado internacional . com alcance global às custas de práticas de exploração , evasão de impostos , corrupção , manipulação e crime organizado , há gerações os şahverdi utilizam khadel como esconderijo idílico . pilares da alta sociedade atemporal que apenas o dinheiro secular , e casamentos arranjados , são capazes de prover .
a par dos bastidores sórdidos do legado familiar , ainda na jovem infância foi despertado um senso de indignação , que só cresceria com o tempo . destacando-se pela inteligência brilhante , chegando a ser considerada um prodígio , o intelecto era visto como uma ameaça ao ideal da dama perfeita , constantemente pressionada a se moldar às expectativas centenárias de recatamento , etiqueta, submissão e requinte . a futura , e impecável , esposa quintessencial de algum herdeiro de família influente .
a pressão constante , aliada às manipulações e abusos mentais , não poderia deixar de gerar um profundo sentimento de inadequação. o desejo de ser a própria pessoa , conflitando com o peso das tradições , logo culminou em episódios severos de ansiedade e auto destruição , seguidos na adolescência por um diagnóstico preocupante de bulimia , e o que mais tarde , já quase em fase adulta , seria identificado como transtorno de personalidade limítrofe . tentativas falhas de retomar o controle de uma vida que a si nunca pertenceu .
a ruptura deu-se no ápice de insubordinação , quando — apresentada a um destino de perpetuação do vicioso ciclo de subserviência e menosprezo , sua mão prometida ao maior lance — ousou indagar sobre questões éticas ligadas aos negócios da família e recusar um destino de docilidade corrompida . a vergonha pública tamanha se tornou imperdoável , e as ruas de khadel foram apresentadas como única solução ao seu deserdamento . a figura materna , devastada, nada decisiva nas tentativas de reverter a situação .
a distância da presença vil e esmagadora provocou dependência de antigos laços de amizade, que se provaram verdadeiros . a ânsia por ser o que sempre sonhou maior do que a própria capacidade de lidar com as consequências . um intenso resvalo com a própria morte e a quase fatalidade de outrem em suas palmas , borderline como combustível e força motriz , levaram-na a um caminho , antes , completamente utópico . khadel já não era mais um refúgio , e no semblante afável e acolhedor de uma assistente social , encontrou passagem para um eu do futuro .
a mudança para siena não veio sem reveses , o sentimento de perseguição , e profunda angústia quase retomando os hábitos nocivos e a retornando aos braços de khadel . a familiaridade , ainda que tóxica , parecia reconfortante . lidia poët , no entanto não permitiria . a conexão com a figura histórica , fez do investimento de habilidades , valores e senso crítico , uma carreira estelar no direito , a ênfase em direitos humanos um complemento óbvio, e essencial .
a cidade natal não foi uma escolha imensamente desejada , ainda que o magnetismo fosse quase sufocante , mas necessária com a partida de münevven şahverdi . o legado materno maculado pelo segundo casamento paterno meros meses após as rosas serem dispostas sob o mogno selando o rosto , ainda jovem , marcado pela tortura psicológica decenal . o que restou de münevven — além de memórias oscilando entre afeto e mágoa — , uma herança exorbitante , os gökçe tão afluentes quanto os şahverdi , então repassada à herdeira de ambos . a fúria patriarcal era esperada , o senso de traição latente em uma face desalmada e cruel que teria reivindicado os últimos resquícios da falecida esposa , não fosse pelo retratado testamento .
a certeza de que vínculo romântico algum justificaria fim desonroso como o de münevven , antiga no consciente , se intensificou , enrijecendo ideias que se tornavam então um credo . reinvenção como chave , o sobrenome patriarcal já não era um que se identificava , adotou o gökçe materno como parte da sua nova identidade , e na posse de uma fortuna livre de amarras , o uso fez-se na construção do legado , e mudança , que gostaria de ver no mundo . ou ao menos em seu mundo .
a advocacia caiu como uma luva , encabeçando novas pesquisas e políticas , os dígitos imersos no pulso da transformação , tornando o epíteto “a militante” , para alguns derrogatório e para outros admirável , uma conotação pessoal para além da denotação . sinônimo de coragem , altruísmo e justiça , não apaga as cicatrizes , e sequelas , de um passado ainda presente . inflexível , reativa e condescendente , o exterior forte ainda apresenta fissuras sob o peso de tudo que perdeu , ou melhor , nunca teve . o pânico e impulsividade são batalhas diárias , exaustivas , incapazes de desfazer as amarras em uma psique incrivelmente vulnerável à rejeição , suscetível a dolorosa instabilidade , que luta por um mundo mais justo com o mesmo fervor que se destrói .
📲 [aaron]: primeiro de tudo, sem exagero. eu não estava sorrindo abertamente.
📲 [aaron]: eu só não posso fazer nada se quase nunca tem gente nova nessa cidade.
📲 [aaron]: até pq, não sei se você se lembra, mas eu trabalho em um bar. é minha obrigação saber as coisas.
📲 [aaron]: segundo, se você me viu, por que diabos não falou nada?
📲 [aaron]: e "incrível em roupas sociais"? agora eu tô ofendido. você não acha que eu consigo escolher uma boa roupa sozinho?
📲 [aaron]: nes, nes, nes...
📲 [aaron]: eu percebi aqui o q você está fazendo. não tente mudar de assunto. Ricci ganhou uma aposta? que tipo de aposta? e por que você aceitou isso?
📲 [aaron]: sério, nes. não acredito que você caiu em uma do Milo...infelizmente, vou ter que aplaudir ele por isso
✉️ : se você diz... mas meus olhos sabem exatamente o que viram
✉️ : bom , podia fazer como eu faço e sair dessa cidade vez ou outra
✉️ : iria te fazer um bem absurdo , garanto
✉️ : uhm , talvez porque você estava em um encontro e parecia estar aproveitando ?
✉️ : e eu também estava meio que ocupada tentando lidar com camilo
✉️ : roupas sociais ? absolutamente não . mas se não foi você que escolheu...
✉️ : e não fui eu que te ajudei...
✉️ : quem foi ?
✉️ : como assim que tipo de aposta ? apostas são apostas , ele tinha direito a escolher o que quisesse
✉️ : e felizmente escolheu apenas um jantar
✉️ : aplaudi-lo por qual motivo exatamente ?
✉️ : francamente , eu esperava mais da sua confiança em mim , aaron
✉️ : mas claro que você ficaria impressionado com ele , homens sempre apoiam homens afinal , não é mesmo ?
sob a penumbra das luzes fluorescentes , o coração de neslihan pulsava com uma intensidade incomum , como se buscasse , em seu próprio ritmo , uma fuga para o labirinto em que ela o aprisionara , amordaçado e vendado . seu olhar vagueava pelas feições que surgiam e desapareciam , tão volúveis quanto o bruxulear das velas , dançando ao sabor de um vento suave que acariciava o ambiente como um toque de afeição . a gökçe proferia as palavras por obrigação , a mente ainda presa nas sombras do que enfrentara por dias para conseguir o broche nas mãos de pasqualina . a entonação era tênue , como a convicção de que algo ali fosse verdadeiro , mesmo que o porta-retratos , com a fotografia de uma infância há muito vivida , parecesse irradiar calor para a palma única , ainda em cicatrização , que o mantinha em um firme aperto .
e então , a mesma sensação que a envolvera ao tocar o objeto guardado pelo gelo e pela neve ressurgiu em seu corpo , um peso ancestral sobre seus ombros e a atmosfera quase tangível que arrepiava sua pele , como se ela estivesse de volta às temperaturas glaciais . vozes , estranhas e desconexas , ecoavam em seus ouvidos , os timbres e falas imprecisos demais para fazer qualquer sentido — reverberando dolorosamente nos ossos femininos , simultaneamente misteriosamente familiares e estranhamente distantes . as íris que pouco antes haviam revirado diante da teatralidade de zafira , agora tremulavam por um motivo completamente diferente . a angústia por algo inexplicável substituía o oxigênio nos pulmões da turca , restringindo suas respirações com uma apreensão sufocante e desespero . os sentimentos não lhe eram estranhos , mas ali não havia razão aparente para existirem , bem como a sensação lancinante que se espalhava por seus nervos , fazendo as cicatrizes em sua palma vibrarem junto ao ombro deslocado em aflição aguda .
por uma eternidade que se estendeu pelo que pareceu ser um século , seu corpo se tensionava sob o vigor das emoções à deriva , até o cintilar muto de nove das velas se extinguir e cessar qualquer noção . para a única chama ainda acesa , alívio fisgou neslihan . com uma respiração profunda — a primeira talvez desde que tomara a posse de serena — , assentiu para si mesma , irritação retornando ao resvalar o olhar com o de camilo . mesmo que não acreditasse na encenação que se desenrolava , não era de seu feitio exalar ao universo o que não esperava que se concretizasse . ter os dois unidos , mesmo que por objetos pertencentes a um casal trágico do passado , era uma ideia desastrosa — especialmente considerando as reações que a simples presença dele vinha suscitando nela desde o jantar . não importava que um aperto se formara instantaneamente na base de sua espinha ao ver o brilho alaranjado da chama oscilando sobre a parafina de uma única vela . o que à turca realmente importava era que , mais uma vez , seu ceticismo havia sido validado , embora , dessa vez , às custas de olhares melancólicos e expressões abaladas de alguns .
um estudo sobre construção e desenvolvimento ! man’s world , marina , capturam a rebeldia contra as expectativas sufocantes de seu pai , enquanto savages , marina , ecoa sua visão crítica sobre a , alta , sociedade a qual integra . em ancient dreams in a modern land e venus fly trap , marina , é reforçado o senso de não se contentar com os moldes esperados , de ser verdadeira a si mesma , de conquistar seu lugar por direito e jamais curvar-se ante a pressão externa . a vontade de ser livre , ser independente e a própria pessoa , libertando-se das amarras de um passado , e da necessidade de ser alguém que jamais foi , é refletida em edge of midnight , miley cyrus & stevie nicks e yellow flicker beat , lorde . a melancolia de sleeping sickness , city and colour , e the emptiness machine , linkin park , lembram o peso emocional que ela carrega , resultado das feridas invisíveis e antigas concessões , responsáveis pelo ceticismo e desconfiança . mas há também uma neslihan que luta , que não se curva em mad world , within temptation , e angry too , lola blanc . traduzem a fúria contida , a resistência diante das injustiças . entre os conflitos internos e o desejo por independência , invisible chains , lauren jauregui , tem o encaixe perfeito — ela ainda é capaz de sentir as correntes do passado , mas procura quebrá-las e sente que algo maior está reservado a ela . what’s wrong , pvris , traz uma reflexão de como ela se enxerga , apesar de tudo que tenta para mudar o seu redor , com parte do passado ainda a assombrando em borderline , tame impala . se o amor sempre lhe pareceu uma impossibilidade , la teoria del caos , nek , representa a dúvida que vem se instalando , seu medo de se permitir sentir , mesmo que por uma pessoa que a ela foi destinada . em seu cerne , ela é um paralelo entre controle , control , janet jackson e necessidade de liberdade , birdie , avril lavigne .
as demais músicas se encaixam nas perspectivas descritas , mais do mesmo que foi dito , ou futuros desenvolvimentos .
Curiosidade e criatividade é inteligência se divertindo, Catarina havia lido uma vez e as palavras haviam ficado com ela. Não apenas por sua memória eidética, mas porque ela sempre foi uma criança curiosa, criativa e inteligente, e isso não apenas virou um trunfo e uma profissão no seu futuro, como foi responsável por muitas das suas confusões. Por isso, independente do conto da carrochinha que a cidade alimentava sobre os reencarnados, Cat estava legitimamente curiosa sobre quem eram aquelas pessoas que alguns realmente acreditavam que podiam ser e tinha quase certeza que isso a levaria a muitas confusões. Como uma boa investigadora, ela estava disposta a ir fundo no assunto, independente do caos que causaria.
Havia começado um arquivo com cada um daqueles desconhecidos que agora pareciam fazer parte da sua vida de alguma forma, mas precisava também de um sobre o passado, sobre a história, sobre aquelas pessoas que um dia existiram. Não sabia o quanto os outros sabiam, mas ela não gostava de se sentir como a única que não estava por dentro de uma piada interna. Ela sempre precisava saber. Não havia um mistério que Catarina não pudesse resolver (talvez apenas o da sua própria família).
Na pensione, Cat havia tirado tudo sobre da parede e começado a pregar algumas informações. Fotos achadas online, informaçõe passadas por terceiros. Tudo — tudo — deveria estar interconectado de alguma forma. Não era simplesmente estranho que alguém havia lhe contratado para Khadel e, do nada, ela estava na cachoeira com um grupo de estranhos? Que seu cordão parecia fazer referência a Khadel? La città senza amore. Bateu um marcador nos lábios, olhando os post-its presos na parede, antes de decidir que ela precisava de mais informações. Nem tudo estava na internet, então ela iria old school.
Cat entrou na prefeitura, procurando onde eles mantinha os arquivos. Acreditava que podia convencer na lábia alguma senhorinha que trabalha lá, mas não iria dispensar completamente a ideia de furtar os documentos se necessário. Deixaria o plano aberto a adaptações.
"Ops, scusa," disse dando um passo para trás ao quase dar de cara com outra pessoa enquanto virava uma curva. Lembrava da morena da cachoeira, mas também lembrava dela por alguns olhares atravessados quando ela estava com Aaron. Não sabia se era algum sentimento de possessão que a outra tinha com o homem, ou se a posessão na verdade era uma obsessão, e talvez ela fosse apaixonada pelo outro. Neslihan. Havia achado o nome na legenda da foto de um jornal, com um homem que ela imaginou ser o pai da outra. Catarina não era boba. Era o momento perfeito para fazer a forrasteira perdida, a donzela indefesa, e ganhar o favor da morena. "Você sabe onde ficam os arquivos? Acho que me perdi." Catarina sabia exatamente para onde estava indo. Havia memorizado o mapa que ficava no saguão, mas podia utilizar do tempo juntas para entender quem era a mulher.
os corredores da prefeitura não eram estranhos à presença de neslihan , ainda menos desde que aceitara a proposta do prefeito . no entanto , raramente se demorava ali , a mente sempre em ebulição , projetada a centenas de quilômetros na solução de problemas , enquanto seu tempo era meticulosamente cronometrado . pouco lhe importava que até mesmo seus clientes externos parecessem ter recebido o memorando sobre sua suposta identidade como uma das encarnações históricas de khadel , ou que seu cotidiano estivesse , cada vez mais , entrelaçado ao absurdo daquela maldição .
havia finalizado uma rodada de reuniões com antecedência e acelerado a entrega dos relatórios iniciais sobre as medidas a serem implementadas pelo município , tudo para liberar os dias seguintes para a viagem que aaron a arrastava , sob a demanda insana de zafira . retornava agora com um imenso copo de americano em uma das mãos , enquanto a bolsa e a pasta repousavam firmemente na outra . foi ao acessar a entrada lateral , exclusiva aos funcionários , que avistou a silhueta vagamente familiar de catarina no saguão , debruçada sobre o mapa exposto . naquele instante , não estava particularmente inclinada a interagir com mais um dos nove envolvidos no incessante drama que a atordoava e , por isso , optou pelo caminho mais longo até o salão de conferências .
seus saltos ecoavam pelo mármore no compasso da inquietação enquanto levava um gole profundo do café , concentrando-se no amargor revigorante da bebida , quando , ao dobrar um dos corredores , foi subitamente surpreendida por ninguém menos que a própria catarina , surgindo como uma aparição . não fosse pelos reflexos aguçados por anos de tênis e hipismo , o café teria banhado ambas dos pés à cabeça .
refletindo o passo que a outra dera para trás , neslihan curvou levemente os lábios em um sorriso polido , ainda que ligeiramente insincero . ❝ sei scusata . ❞ aquiesceu . sua natureza sempre fora inclinada à desconfiança , e algo na presença da marino despertava uma cautela instintiva . rápido demais a morena havia se infiltrado sob as defesas do seu melhor amigo — algo que , além dela própria e olivia , ninguém jamais conseguira — e , embora tivesse testemunhado o brilho singular no olhar de aaron ao lado da outra no giardino , neslihan precisava tirar suas próprias conclusões antes de aceitá-la como alguém importante , ou influente , ao lado de , e decente o suficiente para , o blackwell .
o arqueamento discreto das sobrancelhas denunciava a breve diversão diante da justificativa de catarina . minutos antes , vira-a analisando a disposição do edifício , e embora soubesse que nem todos tinham sua capacidade de memorizar um mapa com um único olhar , uma faísca nos olhos castanhos alheios indicava o contrário . de todo modo , não era exatamente estratégico iniciar um jogo de hostilidade logo na primeira interação — principalmente quando se desejava conhecer alguém antes de definir uma postura definitiva . e bem , talvez aquela fosse uma oportunidade para desvendar o enigma , ou ameaça , que a outra representava .
❝ catarina , certo ? prazer , neslihan . ❞ desta vez , o sorriso ganhava um tom calculadamente mais amplo , ainda carregado de um divertimento . ❝ claro , posso acompanhá-la até lá . e se me disser o que procura , posso indicar por qual sessão começar . ❞ fez um gesto sutil na direção do corredor de onde viera , quando na mente surgiu uma provocação . interrompendo o próprio passo , virou-se ligeiramente e , apontando com o copo fumegante para a direção oposta à que daria acesso aos arquivos . ❝ por aqui . ❞ declarou , sem alterar o tom .
Não podia deixar de notar como ela havia ficado mais bonita. Mesmo na adolescência, Neslihan já atraia olhares — ao menos o seu olhar. Era um garoto magrelo e estranho com a única garota que era legal com ele, obviamente ele não era exatamente imune. E ela era bonita. Nada daquilo exatamente ajudava nas sessãos de estudo que tinha com ela. Os cabelos escuros estavam repuxados para trás num familiar rabo de cavalo, e ele se lembrava de como ela também puxava os cabelos para fora do rosto enquanto estava pensando. Quando era adolescente, ele era bem familiar com o perfil da mulher, espiando entre um exercício ou outro que não conseguia entender. Agora, não fazia questão de esconder que estava olhando diretamente para ela, afinal só haviam os dois naquela quadra.
"Nes," cumprimentou despojadamente. Apesar da distância entre eles, tanto física, quanto emocional, o apelido rolava dos seus lábios com facilidade e uma familiaridade estranhamente reconfortante. Não era exatamente como se soubesse o motivo deles terem se afastado. Não havia sentimento ruim da sua parte. Era apenas como se tivessem descobrido o quão diferente eles eram. Neslihan era muito boa para ele, no sentido que ela havia sido uma das poucas pessoas a ser gentil e amigável, de ter diversas vezes se colocado entre os tiros dados para ele. Ao mesmo tempo, ela era muito melhor que ele em tudo. Havia mais financeiramente, materialmente, emocionalmente, em seu raciocínio. Ele constantemente se sentia um completo desajustado ao redor dela. Era como se ela refletisse todas as coisas em que ele falhava miseravelmente. Ao mesmo tempo, ela não o fazia se sentir mal consigo mesmo. Não, Matteo fazia tudo aquilo dentro da sua própria mente, enquanto Nes não era nada além de agradável. Quando Matteo finalmente começou a não se sentir tanto o patinho feio... Ela já estava distante. Seu ego talvez tivesse ficado um pouco ferido de nunca poder ter mostrado seu outro lado, mas não havia ressentimentos da sua parte. Só não sabia se havia algum da parte dela, do motivo que poderia ter levado ao seu afastamento. "Não venho há algum tempo," falou, notando que não era exatamente a verdade e, junto dela, se sentia compelido a falar a verdade, mesmo que não viesse com naturalidade, "na verdade, não venho faz alguns anos." Sentiu o rosto aquecer levemente com o fato que as palavras rolavam com mais facilidade do que gostaria. O sentimento de familiaridade ao redor dela, como se tivessem estacionado no tempo. Talvez Matteo precisasse de passar algum tempo fora da academia e com um outro ser humano porque aquela carência para alguém que não lhe dava atenção num período de quase treze anos deveria ser deprimente.
"Aceito a companhia," ele disse, deixando a própria sacola cair próxima dela com a raquete também repousada no chão enquanto se curvava sobre as pernas num aquecimento rápido, "mesmo que já sabemos que vai ganhar, não é?" Suas habilidade com a raquete poderia ter melhorado, mas nada se comparava com todo o treino que ela havia tido durante anos. Para Matteo, aquele esporte era um passatempo na sua rotina que ainda o mantinha ativo, mas ele achava que era mais que aquilo para ela. "Como—como você está?" Perguntou de forma hesitante, mas inocente. Não queria pular para o assunto da maldição, da cachoeira, nem que havia visto ela com Camilo no restaurante. Ele queria ver se o senso de familiaridade que sentia era apenas coisa da sua imaginação ou se ainda existia alguma camaradagem entre eles.
ainda que o tempo os tivesse transformado em completos desconhecidos emocionais — não que a proximidade outrora compartilhada tivesse sido imensamente profunda, e tampouco por falta de vontade de sua parte — em khadel , era virtualmente impossível não ser alcançada por sussurros e boatos sobre qualquer um . de longe , acompanhara a ascensão de matteo , do antigo companheiro de estudos ao influencer e modelo reconhecido , desejando poder oferecer sua alegria que sentia ao vê-lo conquistar e alcançar , ainda que de uma maneira contra ela mesma lutava , aquilo que sempre almejara . então, neslihan jamais acreditara que ele precisasse se transformar para ser aceito , não quando sempre fora extraordinário sem qualquer esforço . sentia o olhar dele pousado sobre si , aquela sensação estranha e , ao mesmo tempo , agridocemente familiar , reacendendo a habilidade que desenvolvera na adolescência de perceber a presença dele sem que uma única palavra fosse dita . evitava pensar na forma como havia desfeito aquele laço , como simplesmente o ignorara sem explicações , sem justificativas , e , mais ainda , na maneira silenciosa com que ele aceitara sua ausência . vê-lo com olivia não a surpreendera — faziam sentido juntos . e , sendo ambos absurdamente especiais , se encontrassem felicidade um no outro , ela comemoraria . mas então , como era da curiosa norma da cidade , distanciaram-se , e a gökçe jamais ousou mencionar matteo à boscarino .
volvendo a atenção para a raquete que parecia quase anciã no aperto masculino , custava a crer que ele a mantivera todos aqueles anos . notava os vestígios de poeira ainda presos entre as cordas , assim como as figuras que colara pouco antes de matteo tomá-la emprestada e jamais devolvê-la . não que houvesse se importado na época , nem mesmo quando fora punida por kadir pela suposta irresponsabilidade de tê-la perdido . sua mente adolescente , fascinada , via no gesto uma tentativa inconsciente de manter consigo algo dela . assentiu quando ele confirmou que já não praticava tanto e riu baixo ao perceber a forma como se corrigia , como se as palavras lhe escapassem quase em confissão , e ante o leve rubor que tingia a pele bronzeada. ❝ bem , imagino que não sobre muito tempo , entre a academia e o seu trabalho . ❞ deu de ombros , encontrando os olhos dele , um sorriso genuíno curvando os lábios . ❝ falando nisso , acho que não cheguei a te dizer como fiquei feliz pelo seu sucesso . ❞ achar era um eufemismo indulgente — não o dissera , arrependida da turbulência que a engolira e fizera com que o deixasse para trás . e não era apenas felicidade o que sentira na época — mas orgulho .
por um instante , observou-o alongar . os movimentos agora eram fluidos , tão distintos da postura inibida de quando eram mais jovens , e ainda assim havia nele um resquício do garoto que , de alguma forma , conquistara partes da criança e da adolescente que ela fora . ❝ posso moderar meu ritmo para ser mais justa , embora duvide que seja necessário . você está muito mais... em forma do que me lembro . ❞ piscou para ele , tentando disfarçar a hesitação sobre o adjetivo a ser usado , sem revelar os verdadeiros pensamentos . meneou a cabeça para si mesma antes de girar nos próprios calcanhares em direção à lançadora , empurrando a máquina para a linha lateral e recolhendo as bolas sobressalentes . lançou uma para as imediações da rede , para ser utilizada , quando a hesitação na voz alheia a fez pausar por alguns instantes , de costas para ele . por cima do ombro , encontrou o olhar que a acompanhara . ❝ levando em consideração tudo o que aconteceu e vem acontecendo... surpreendentemente ainda sã , e você ? ❞ aproximando-se , abaixou-se para apanhar a esfera amarelada e felpuda que havia arremessado . ao se erguer , apoiou um dos quadris contra o poste , aguardando-o finalizar . ❝ e como está signorina giulia ? sabe que ainda sonho com os cannolis que ela fazia ? ❞ recordava-se da figura materna do bianchi , por vezes , com mais afeto do que da própria , e o termo respeitoso escapava dos lábios com a mesma naturalidade que parecia ter voltado a ela sem que percebesse .
missing object : o broche de kimberly
by : @aaronblackwell & @neslihvns
📍 monte cielo - polizzi generosa , região metropolitana de palermo . sicília !
Aaron estava sentado diante do laptop, a tela iluminando seu rosto cansado. O Monte Cielo era um desafio real, muito além de uma simples escalada. Ele analisava mapas topográficos, cruzava informações meteorológicas e lia relatórios de expedições anteriores – as poucas que tinham voltado para contar a história. O tempo ali era instável, as tempestades podiam se formar em questão de horas, e o gelo acumulado tornava tudo mais traiçoeiro. O que mais chamava sua atenção, no entanto, era a falta de registros sobre o Vale dos Desaparecidos. Nenhuma informação concreta, nenhuma explicação plausível. Apenas teorias e lendas.
Ele já teria descartado isso antes. Mas agora? Agora ele estava aceitando que talvez existisse algo além do que a lógica poderia explicar. Não era só o mistério do monte, ou o fato de todos que tentaram voltar de lá saírem confusos, era tudo que estava acontecendo com eles. A maldição, as coincidências que não pareciam coincidências, e principalmente... Nes. A presença constante dela em sua vida, a parceria entre eles, a sintonia e as similaridades. Blackwell passou muito tempo pensando na história das almas gêmeas e em como talvez Nes ocupasse um lugar outro, ainda mais especial para ele, de irmã, de quem ele podia contar.
Por mais que Neslihan ainda nutrisse profunda resistência em aceitar que aquilo tudo poderia envolvê-la de qualquer forma que fosse, Aaron parecia querer desvendar e ponderar sobre o mistério, Olivia parecia querer encontrar verdadeiro amor em sua vida — e desconfiava dos motivos para tal —, e não havia medo de condenar alguém a passar o resto da vida consigo no mundo que a faria rejeitar duas das mais importantes presenças em sua vida. Obra do acaso, ou não, porque ela tinha um quê de dúvida acerca da imparcialidade de Aaron com aquela divisão, a Gökçe o tinha ao seu lado, e fora o único motivo por ceder mais facilmente às demandas de Zafira. As passagens, reservas e credenciais eram todas adquiridas com relutância, bem como o guia, que, por segurança ante as informações que recebera de Ace, vira-se obrigada a contratar.
Palermo. A cidade conversava com Neslihan pela confluência de culturas que a compunha, assim como fazia com a mulher, pela arte e pela gastronomia. O azul do Tirreno a acalmava, talvez pela possibilidade de perder-se na imensidão que comportava. A Sicília como o afago de uma avó, que ela nunca conhecera, mas na ilha sentia o calor do afeto. Chegar até o local era relativamente fácil, a viagem de carro até Florença era carregada de uma tensão sutil, embora as palavras entre eles fluíssem com a familiaridade de mais de duas décadas. Já o voo de pouco mais de uma hora era passado em completo silêncio, os pensamentos perambulando de um canto a outro do mundo ante as possibilidades e a monumentalidade do que o futuro reservava. Com o desembarque, outro carro elétrico os esperava, e a distância entre o aeroporto e o Grand Hotel et des Palmes era percorrida em um piscar de olhos ressecados e pálpebras em espasmo, inquietação e apreensão consumindo cada terminação nervosa do próprio corpo. Com os nomes deles dados na recepção, era como um anúncio apocalíptico do que os esperava. A noite que deveria ser um interlúdio de descanso, logo tornou-se um turbilhão de inquietude, e a mulher viu-se tentada a procurar alento no imprevisível, somente a noção de que Aaron estava a alguns metros longe de si, fez com que se contentasse com inúmeras voltas na piscina, o gélido da água cortando a apreensão que se alastrava por seus membros.
As mochilas abastecidas de provisões os esperavam na manhã seguinte, ambas fixas ao aperto de Alessandro, quem os orientaria e guiaria o caminho pelo Monte e Vale. A expressão adornando o rosto alheio só poderia ser descrita como contrária e reticente, e um toque apreensivo se esgueirou pela consciência de Neslihan, mas a urgência em suas veias logo fez com que o raciocínio se dissipasse. O navegador dava as direções enquanto tensão pesava nos ombros femininos, o volante agindo como amortecedor para o aperto de suas palmas, Aaron ao seu lado, tão taciturno quanto a introspecção que ela adotava. Sandro parecia inquieto, os olhos perambulando pelo interior do carro, pela vista panorâmica da ilha, encarando as próprias mãos e com respostas de apenas uma palavra por todo o trajeto de quase duas horas até o Monte Cielo.
O pico glacial reluzia sob o céu límpido, o gelo refletindo como um diamante. Mesmo ao pé da cordilheira o ar já era lancinante, fisgando os pulmões e cortando as bochechas. Com um longo olhar trocado entre eles, ergueram a bolsa contendo os equipamentos que ele havia alugado, retirando as roupas apropriadas e as vestindo por cima das camadas térmicas que Alessandro havia os instruído a portar. A previsão era inconstante, como parecia ser a norma nos arredores da cadeia de montanhas que tinha o Cielo como o maior pico, e não sabendo o que exatamente os esperaria, equipavam-se com piolets, arneses, celulares analógicos, crampons, GPSs com bússola, capacetes, luvas, bastões, cordas, botas e barracas térmicas. Garrafas com água e comidas eram mantidas separadas, em compartimentos impermeabilizados e próprios, de fácil acesso. Por sorte, ambos possuíam um bom condicionamento físico e apenas uma aclimatação de algumas horas, nas partes mais planas e baixas do Monte, fora necessária.
A centenas de metros do nível do Tirreno, Aaron e Neslihan então começavam a ascensão de milhares de metros até o topo, para então se aventurarem no desconhecido do Vale, onde o suposto avião havia desaparecido há quase um século. O terreno íngreme era a menor das preocupações, quando glaciares repletos de crevasses tornavam cada passo incerto. Nevascas os faziam se agarrar à encosta da montanha traiçoeira, por horas incapazes de sequer enxergarem um ao outro, apenas o instinto comunicando que não haviam perdido a conexão que os mantinha próximos. Em meio às tempestades, a neve parecia se intensificar a cada centímetro que se aproximavam do pico, a barraca se tornando inútil, impossível de ser utilizada com o entardecer. Com a junção de vento e rocha os punindo, conseguiam apenas aterem-se aos bastões cravados no aclive de gelo. Neslihan era incapaz de pensamentos além de súplicas ao universo, o coração apertando a cada movimento que os aproximava do desconhecido. Não era bem aquele tipo de adrenalina que ela gostava de se alimentar.
No caminho, o cansaço pesava. O frio, a altitude, o tempo. Cada passo parecia um esforço monumental, e o pior era saber que isso ainda não era nem metade da batalha. Ele segurava firme os equipamentos, tentava manter a clareza para que pudessem continuar. Mas ele estava esgotado. Mental e fisicamente.
A subida, que deveria ter sido finalizada em um dia, já tomava quase dois, e cada segundo era um fôlego roubado de seu futuro. Um peso de centenas de anos parecia afixado ao seu peito, os braços tremulando e pernas cedendo ao terreno irregular e enganoso. A garganta se fechava e a respiração ofegante não era somente pelo esforço físico, mas por puro medo de perder Ace, de jamais chegarem ao outro lado quando tinham tomado para si aquela responsabilidade. O sentimento pujante tomava conta de cada terminação nervosa da Gökçe. Ao mesmo tempo em que perdia o equilíbrio em uma das passagens estreitas, somente o aperto de Aaron a mantendo como membro do reino dos vivos, praguejava Zafira, Khadel, Rose e quem quer que estivesse envolvido naquela sandice que a colocava à beira de um colapso.
À medida que as horas passavam na montanha carregada de neve e os perigos iam aumentando, Aaron se sentia quase sufocado pelo medo de algo acontecer com sua parceira, sua dupla, a pessoa que esteve ao seu lado nos melhores e nos piores momentos. Era um medo absurdo e irracional de perdê-la. Ele sempre cuidou dela, de um jeito ou de outro. Mas a viagem estava deixando tudo mais claro. O medo que sentiu ao vê-la quase perder o equilíbrio em uma das trilhas íngremes, a maneira como seu coração apertava toda vez que o tempo fechava de repente e ela desaparecia de vista por um segundo. Ele sempre viu Nes como sua melhor amiga, sua parceira de caos. Mas e se fosse mais do que isso? As coisas estavam confusas demais naquele momento e Aaron decidiu que talvez não fosse a hora de descartar hipóteses de maneira tão enfática.
Então, como o raiar de um novo dia, o topo estava diante deles. Deserto, desprovido de nuvens, a visão era vasta, e de onde estavam, o ar rarefeito e o cansaço físico faziam do pico uma miragem, um oásis de calmaria. Resfolegando, Neslihan, pela primeira vez desde que encontrara os olhos de Aaron na comuna de Polizzi Generosa, deixava que seu olhar se firmasse ao dele novamente. As íris se embaçavam com lágrimas, rapidamente contidas, mas permitia que as palmas enluvadas fizessem o caminho até as dele, sentindo a segurança que ele exalava, mesmo que exaurido, como ela.
Deveriam ter esperado, passado a noite descansando os músculos esgotados e recuperando a sanidade, permitindo que as mentes se acalmassem, mas já haviam perdido tempo demais na subida, e tempo era a essência. O Vale os aguardava, clamando por eles, uma força maior que os puxava para o epicentro do desconhecido. O vão entre o Monte Cielo e o Monte Vespero era o lar do Valle degli Sconosciuti, completamente inexplorado e isolado. Quase mítico, nem a mais extensa das pesquisas tinha fornecido detalhes concretos a Neslihan e Aaron. Sabiam apenas que o gelo que cobria o local era quase impenetrável, soterrando qualquer vestígio da queda secular. Com apenas algumas horas ociosas, eles discutiam possibilidades e planos, enquanto Sandro permanecia alheio, e quando se levantaram, vestindo, calçando e prendendo os equipamentos, o motivo por tal logo se revelou.
Alessandro anunciou que os levaria apenas até aquele determinado ponto. E ele não parecia do tipo que recuava fácil. Aquilo acendeu um certo alerta de perigo na mente cautelosa de Aaron, a preocupação parecia aumentar cada vez mais e ele se perguntava se talvez não fosse melhor pegar na mão de Nes, dizer que tudo ia ficar bem e abortar a missão. Será que valia tanto a pena assim descobrir quem era sua alma gêmea? De que valeria saber de qualquer coisa se havia um grande risco de morrerem? ❛ Daqui em diante, vocês estão sozinhos ❜, foi o que disse, quase como um aviso. Aaron deveria ter escutado. Deveria ter reconsiderado. Mas Nes já tinha conseguido as autorizações, e não era como se ele fosse deixá-la seguir sozinha. E se havia uma coisa que sabia sobre a amiga, é que ela conseguia ser cabeça dura quando queria. Ainda mais do que ele.
Os olhos de Neslihan faiscavam em fúria, e não fosse pela necessidade do piolet para o retorno, teria arremessado o objeto pontiagudo na figura do homem de meia idade. Se ela pudesse, teria o enterrado no declive, para nunca mais ser encontrado. Fosse ela um pouco mais cuidadosa em seu raciocínio, anuviado pela impetuosidade dos sentimentos de indignação e raiva, um sinal teria ascendido aos pensamentos, um aviso de cautela em seu consciente. Com profanidades na ponta da língua, somente a urgência de seguir em frente e acabar com aquele mistério que parecia intrigar o Blackwell e algum dos outros, fez com que ela lançasse apenas o mais vil dos olhares a Alessandro, antes de seguir a passadas firmes as imediações do pico até o outro lado.
De acordo com o mapeamento feito por Aaron, deveriam permanecer na encosta no sentido Sul por alguns quilômetros e então Leste. A apenas alguns passos na direção necessária, uma cortina de neve parecia cair sobre eles, como se eles houvessem pisado em um sensor ativando o temporal gélido. Com a baixa visibilidade, e sem o auxílio do guia, eles não tinham opção alguma se não manterem-se presos um ao outro pela corda de poliamida. Algumas horas seguindo o que achavam ser a porção austral da descida, por sorte não eram surpreendidos por profundos crevasses, mas seracs pareciam se esgueirar pelas laterais, formando uma trilha quase transcendente. Quando se depararam com uma formação impossível de escalar, restou a eles a única opção de contorná-la, e com o primeiro movimento fora do esperado consultaram os GPSs. Para o completo desespero, a agulha que supostamente deveria estar magnetizada aos polos da Terra, se movia em todas as coordenadas possíveis, hora indicando um passo deles para o Norte, o seguinte para o Oeste, outro para o Sul, e cada um dado na mesma direção que o anterior.
Pressionando as palmas contra as pálpebras cerradas, Neslihan virou-se para Aaron, repousando a testa sobre o ombro masculino. Tomando profundas respirações, pânico parecia querer tomar conta de seus pulmões, apenas o peso da mão dele contra o próprio braço fazia com que parte do senso retornasse aos nervos. Lembrava-se então do telefone com sinal de satélite, e com esperança, retirava o aparelho do bolso, somente para perceber que ele também parecia estar com mal funcionamento. Eles estavam perdidos. Completamente perdidos. Recostando contra a formação de gelo, as têmporas latejavam. Eles tinham apenas uma garrafa de água entre eles e dois pacotes de frutas desidratadas até conseguirem a saída daquele inferno gélido.
Com o olhar voltado para o horizonte que parecia infinito, um cintilar fisgou a atenção das íris marejadas. Um brilho tão sútil em meio à tormenta alva da nevasca, que precisou de um tempo isolando as palavras de Aaron, para que o prateado fosco se registrasse na retina. Exclamando, desprendendo-se dele com a abertura do mosquetão, disparou em direção ao lampejo, sem dar-se conta do ranger do gelo que seguia em seu encalço. Sabia que o homem a acompanhava, ele iria até nos confins do Universo com ela, e faria o mesmo por ele. A corrida até o que parecia poucos metros de distância mais se aproximava de uma hora, os olhos castanhos fixos ao ponto enquanto batalhava com a fadiga na respiração, o peso da mochila, e o vento que machucava a ponta do nariz, bochechas e lábios descobertos. Aquela adrenalina de um risco dando resultado era a que a energizava.
Um último pulo sobre um crevasse pequeno os colocava de cara com o que somente poderia ser a fuselagem do avião perdido. Os joelhos se afundavam na vastidão branca ao mesmo tempo em que eles arrancavam o primeiro par de luvas, cavando nos arredores da protuberância metálica exposta. O segundo par de luvas logo se tornava encharcado e Neslihan então percebia o possível motivo pela visibilidade repentina do metal retorcido. Degelo. Um riso amargo escapava a garganta ressecada. Aquecimento global, justo o que tanto a preocupava e uma de suas maiores causas, naquele momento era o maior aliado que eles poderiam pedir. Compreendia então a razão por aquele acidente parecer tão quimérico, sem visuais, sem vestígios. Somente diante do aumento das temperaturas, o derretimento do gelo e neve que se formara ao longo de quase cem anos, era possível. Balançando a cabeça em incredulidade, permaneciam tateando toda a superfície esbranquiçada, encontrando ouro, prata, bronze, madeira, louças, cerâmicas. E então, como se um ímã os atraísse, alcançaram ao mesmo tempo uma caixa não muito maior que a palma feminina.
O porta joia parecia feito de genuíno casco de tartaruga, o material pulsando entre as mãos deles, que o seguravam firmemente, receosos de que fosse uma miragem delirante de ambos. Firmando a ponta de um dos dedos da luva entre os dentes, Neslihan puxou-a delicadamente, descobrindo os dígitos, que imediatamente protestaram a temperatura negativa. Tremulando, apalpou o calor que parecia emanar, até encontrar um pequeno botão, que fez a tampa se abrir lentamente, o mecanismo certamente enrijecido pelo tempo e frio. Aninhado no veludo tão escuro como a noite, o broche descansava. Assim que tocaram o marfim que formava a delicada rosa, o mundo cessava. Os flocos de neve suspensos por meros segundos, as orbes deles presas umas às outras, castanhas às azuis. Um peso antigo que a eles não pertencia se espalhava pelo corpo de cada um, os paralisando por milésimos, antes de todas as sensações retornarem em um ímpeto, os sufocando momentaneamente. Haviam encontrado a relíquia. Imediatamente a mulher dispensava a experiência que beirava o sobrenatural como puro alívio percorrendo o sangue.
O que poderia ser descrito como euforia tomava as reações de Neslihan, que se atirava ao abraço de Aaron no mesmo instante. O sorriso era contagiante, e eles comemoravam, não importava que logo precisariam enfrentar o processo todo novamente, agora com a adição dos compassos digitais e telefones defeituosos. Os lábios entreabriam para comemorar, quando tudo ruiu.
O estalo foi a única coisa que deu tempo de ouvir antes de tudo se partir. O gelo cedia rápido demais, e num instinto, Aaron se colocava na frente de Nes. O chão sumiu sob seus pés e ele sentiu a queda. O impacto foi violento. Um som seco, um choque cortante no corpo inteiro. Algo cortou seu rosto, a dor latejante na perna indicava que algo estava quebrado. E a cabeça... Ele piscou, tonto, tentando se manter acordado. O frio mordia sua pele, a névoa ao redor parecia engolir tudo.
Com o grito que escapava dela ainda ecoando, o baque era amortecido pelo corpo de Aaron. Por longos instantes, tudo parecia girar. A destra descoberta ardendo como se a tivesse colocado no fogo, o ombro esquerdo pulsando como se o coração dentro do peito tivesse se deslocado para o local. E então algo úmido e pegajoso alcançava a palma ainda queimando.
A única coisa que importava era ela. ❝ Nessie... ❞ Ele tentou falar, a voz rouca, quase inaudível.
O som falho, rasgado e doído, era acompanhado da percepção de que o líquido que se esgueirava pelos dígitos femininos era o carmesim espesso do sangue de Aaron. ❝ Ace! ❞ Sacudindo a neblina que se formava entre os ouvidos, Neslihan era acometida por apatia incomum. O talho na tez masculina desprovida de cor era gráfico, bem como a projeção inatural do fêmur e tíbia esquerdos. Algo também não estava certo com a respiração masculina, e a maneira como a pele dele espasmava, adotando uma tonalidade azul, infundia a mulher com a mais pura e corrosiva culpa. Se não tivesse seguido adiante, se tivesse insistido em não fazerem parte daquele show de fantoches que Zafira armara, se não tivesse se atirado na direção de algo claramente perigoso, apenas para sentir a adrenalina da vitória, se tivesse se atentado que o mesmo fenômeno que os permitia visibilidade poderia condená-los, se, se, se. Era tarde demais para pensar neles.
Ela estava ali, viva. E, por um instante, isso foi suficiente para ele suportar a dor. Aaron nunca teve problema em se jogar em situações de risco. Mas agora, tudo o que ele queria era sair dali. Com ela. Porque, maldição ou não, Nes era uma das únicas coisas naquele mundo que ele não podia perder.
Um soluço quase gutural deixava os lábios, os dentes batendo um contra o outro, e somente então percebia que água gélida escorria pelas paredes ocas do glaciar que os engolira e fazia um atalho até as roupas deles. Aaron parecia ter perdido a luta com a lucidez, o corpo retesado agora sem reação alguma que não a respiração laboriosa. Deslizando pelo gelo como navalha, não mais frágil, sob eles, sentiu o tecido cobrindo os joelhos tensionar e ceder. Com a mão direita escoriada profundamente, tateou pela superfície glacial, desnorteada. Se parasse um segundo sequer, sabia que pânico tomaria o controle e não cederia seu lugar à razão. ❝ Pense, Neslihan. Pense pelo menos uma vez na sua vida! ❞ Vociferando para si mesma, podia sentir a visão turvando com a ansiedade aguda, mas cravando as unhas irregulares, umas quebradas, outras ainda intactas, no joelho exposto, mantinha-se ancorada à realidade.
O peso da mochila pressionava contra o ombro que perdia a sensibilidade, e a espalhava para o restante do braço. A constrição a fazia recordar do kit de primeiros socorros. Quase estourando o zíper na pressa de encontrar algo que pudesse ocupar a mão ainda funcional para que o raciocínio pudesse ser liberado, nem mesmo dava-se conta de que não havia nada no conjunto de suprimentos que poderia ajudar na situação de Aaron, não quando tinha a certeza de fraturas, o corte comprido e espesso demais para qualquer uma das ataduras e um possível traumatismo craniano. A destra lacerada gritava contra a aspereza de tudo que entrava em contato, quando encostou no plástico frio do GPS e celular. Fechando o punho ao redor deles, preparava-se para atirá-los contra a parede de gelo, quando viu a leitura do sinal. Impossível.
❝ Impossível! ❞ A palavra reverberava. Como ela poderia acreditar ser possível, quando há algumas horas, o mesmo aparelho parecera inútil. Poderia ser uma alucinação, ainda que não recordasse de dor alguma na cabeça? Depositando-os sobre o nylon da bolsa, levou os dígitos manchados de vermelho até a raiz dos fios, tateando o local por algum ponto sensível, sem sucesso. Retornando o olhar para Aaron, sentiu algumas lágrimas transbordarem, trilhando um caminho pelas bochechas feridas pelo frio. Com movimentos titubeantes, em descrença e desesperança, teclou 118 nos botões rígidos. Com o primeiro toque, toda a vivacidade ainda presente em seu corpo parecia se esvair em alívio. A voz mecânica não demorou mais do que cinco segundos para responder, mas que mais se assemelhavam a cinco horas. ❝ Aiuto! Ho bisogno di aiuto. Per favore. Siamo caduti e il mio migliore amico è gravemente ferito. Si è rotto una gamba... I-I-penso che abbia un trauma cranico e penso che abbia anche l'ipotermia. Anch'io sono ferita, ma ho solo bisogno che tu lo salvi. Siamo da qualche parte tra Monte Cielo e Monte Vespero. Penso… penso di poterti dare le nostre coordinate esatte, ho un GPS con me. Per favore, sbrigati e salvalo. ❞ ¹ O pedido saía quase em único fôlego, as gotas salobras caindo livremente das pálpebras. Equilibrando o telefone entre a orelha e o ombro saudável, alcançou o Garmin, e ditou exatamente o que prometera.
Assim que as coordenadas deixavam os lábios, e a linha desconectava com a promessa de que tudo ficaria bem, Neslihan retirava sua jaqueta, a colocando sobre Aaron, forçando-se mais próxima dele, na tentativa de passar o próprio calor, ainda que já pudesse ver as próprias unhas tornando-se arroxeadas ao transferir suas luvas para as mãos dele, e temesse machucá-lo ainda mais. ❝ Ace, por favor, não me deixe sozinha. Eu prometo ser uma pessoa melhor, me redimir por ter te causado isso. ❞ As lágrimas passavam a ser copiosas, comprometendo sua visão, fluindo pelo material impermeável e térmico que o cobria. Passeando os dedos pelos fios alheios, repousou a testa sobre a dele. ❝ Por favor, não me deixe sozinha. ❞ A súplica era repetida por centenas de vezes, até apenas um sussurro restar ao ouvir a rotação de hélices em meio à cacofonia dos próprios pensamentos. Com o último resquício de força em si, agarrou o porta joia e o guardou em um dos bolsos da própria calça. A Gökçe vibrava em ódio. Se ela perdesse Aaron por conta daquele maldito broche, daquela cidade infeliz, por conta daquela história de maldição infernal, ela garantiria um destino muito pior do que um século de desamor a todos.
Aaron deixou escapar um som curto, algo entre um riso baixo e um suspiro. "Ah, claro. O tão conhecido destino das almas gêmeas platônicas." Sua voz carregava a ironia de sempre, mas não um deboche real. Ele entendia o que ela queria dizer, e talvez, em uma outra vida, acreditaria nessa possibilidade. Mas a verdade era que era difícil acreditar em qualquer tipo de amor. Ainda assim, amenizou a dureza na expressão e o próprio tom de voz. "Mas se fôssemos mesmo alma gêmea, eu não iria reclamar". Ele lançou um olhar lateral para Nes, absorvendo a tensão quase imperceptível que ela tentava esconder. Aaron sabia que aquele tipo de exposição a incomodava mais do que queria admitir. Sabia porque, apesar de toda a racionalidade que exalava, ela também evitava certos riscos como ele. Por isso, acrescentou em brincadeira, tentando arrancar um sorriso dela. "Sabe, consigo imaginar alguns sacrifícios piores". E ele riu, porque ambos sabiam que não seria sacrifício algum para Blackwell. Se pudesse passar o dia inteiro na companhia de Nessie, ele passaria. "Mas, escuta, se a gente for mesmo uma ironia cósmica, espero que a gente pelo menos consiga dançar decentemente. Seria um pouco humilhante descobrir que o universo quer que a gente fique juntos e a gente não acerta nenhum passo. Cadê nossa sintonia, dona Neslihan Gökçe?" A provocação foi acompanhada de um sorriso enviesado antes dele continuar, agora de forma mais despreocupada: "E sobre ser assustador... eu diria que é mais um incômodo do que um pavor real. Você sabe, a última coisa que eu quero é que a cidade inteira se sinta no direito de dar opinião sobre minha vida amorosa." Ele fez uma pausa, então completou com um tom mais baixo, quase como se estivesse concedendo algo: "Mas falando sério agora, se for para passar por isso com alguém, não me incomodo nem um pouco que seja com você." Ele colocou a mão nas costas dela, e lenta e gentilmente a empurrou mais para o centro da sala. "Agora vamos ver se o destino também acredita no nosso talento para a salsa." Acrescentou, decidindo passar um dos braços sobre os ombros dela para dar mais segurança e proteção à amiga.
o sarcasmo na voz grave era um alento ansiado , uma familiaridade que a fazia esboçar um sorriso . aaron acreditava no amor tanto quanto ela mesma — céticos do sentimento inexistente . em outra realidade , uma em que não fossem moldados por passados que os impediam de se permitirem liberdades emocionais , poderiam talvez formar um par perfeito , alcançando juntos o mais próximo do que aquela emoção inventada prometia . ao notar o olhar que ele lhe lançava de soslaio , permitiu-se um ínfimo tremor no canto dos lábios . mas ali a verdade era imutável , neslihan jamais consentiria em ser destino final dele . o melhor amigo de sua vida merecia felicidade plena , e ela era o exato oposto . em sua percepção , ninguém ali era digno dele , cujo coração trancafiado guardava uma bondade infinita . ele não era como ela , não precisava lutar para melhorar o mundo para compensar as máculas que fervilham dentro de si .
o fluxo dos pensamentos era interrompido pelo riso dele — e , mesmo sem ter se atentado às palavras que precederam o som , deixou que a própria risada o acompanhasse . a provocação era um bálsamo apreciado , e a descontração logo se refletia em sua expressão . ❝ nós dois sabemos que eu danço muito bem , só espero que você tenha praticado desde a última vez em que te arrastei para aquela festa que mudou o meu destino . ❞ a mulher possuía desenvoltura suficiente para se adaptar ao ritmo latino , e , mais do que isso , a sintonia entre os dois era natural . ação e reação . o desafio era instigante , mesmo que ela duvidasse que sairia dali uma exímia dançarina de salsa . ❝ por favor , se fosse real , todos sabem que seríamos o casal com maior sintonia entre todas as possibilidades . ❞ voltando-se para ele , ainda com o braço entrelaçado ao seu , apontou a manicure carmesim em uma concordância veemente . ❝ é exatamente isso . você sabe que me recuso a me envolver com qualquer um dessa cidade justamente por essa necessidade que todos têm de comentar e julgar cada passo . agora , com os nossos nomes na ponta da língua de cada um , ficou impossível encontrar um instante de sanidade . ❞ não ousaria mencionar olivia naquele momento — não enquanto a irritação ainda latejava em sua mente . a amiga transformara sua rotina em um caos absoluto com aquelas palavras proclamadas em público , e neslihan não queria imaginar a reação de aaron se trouxesse o detalhe à tona .
com o tom diminuindo , se inclinou levemente em direção a ele , na tentativa de captando a confidência que parecia prestes a ser dita . ❝ estou começando a achar que , na verdade , você realmente acredita nessa história de maldição e quer que eu seja o seu felizes para sempre. ❞ arquejando , revirou os olhos , ainda que algo se enraizasse em sua consciência . era um pensamento descartável , e , ainda assim , ali estava , persistente no fundo de sua mente . ao retornarem à repartição envidraçada , assentiu , as íris se conectando às dos professores , enquanto o calor da mão dele a reconfortava . aproximando-se , ofereceu um sorriso gracioso , levemente ensaiado , ao casal que os guiaria . ❝ espero que não sejamos os piores alunos que já tiveram a infelicidade de ensinar . ❞ o humor autodepreciativo era uma estratégia eficaz para desarmar expectativas . ❝ mas prometo que seremos os mais dedicados . nosso gênio aqui aprende tudo em uma velocidade surpreendente . ❞ afagando a palma de aaron que repousava em seu ombro , piscou para a professora , que sorriu em resposta e rapidamente os posicionou onde deveriam começar . desfazendo o meio abraço , buscou a canhota alheia , entrelaçando os dedos aos dele , enquanto deslizava a própria até o deltoide desenvolvido . ❝ preparado ? ❞
O apelido escorregou dos lábios de Neslihan com tanta naturalidade que Olivia quase não percebeu o impacto imediato que teve sobre si. Raggio di sole. Era irônico que ela tentasse se manter tão firme e controladora de sua própria narrativa, mas estava contendo seus instintos para não demonstrar o quanto aquele gatinho já a amolecia. Seria mesmo um raio de sol em sua vida, e na vida da felina já tão mimada e introvertida adotada há uns anos pela Boscarino. Aconchegou o filhote contra si, ignorando o modo traiçoeiro como seu coração reagia ao ronronar constante. Tinha plena consciência de que estava cedendo, como sempre acontecia quando Nes decidia testá-la, mas escolheu fingir que ainda lutava contra a corrente. — Olha só, Gucci, você já descolou a melhor advogada da cidade para te defender? — Já anunciou o novo nome do gatinho. O tom leve de uma brincadeira boba, mas que continha um elogio sincero. Olivia admirava a amiga de forma genuína, um dos poucos sentimentos positivos que ainda restavam em si. O olhar deslizou para a amiga exatamente no instante em que o pequeno cachorro praticamente se atirou contra seus pés descalços. Olivia sorriu, conhecendo a outra o suficiente para saber que ela já se sentia conectada ao inocente cãozinho. Já teria um lar, ela pensou. Primeiro ela notou a cena de Neslihan abraçando a bola de pelos desalinhada, depois para a expressão hesitante que se instalou no rosto dela. Talvez eu tenha deixado passar outro motivo pelo qual insisti tanto para que nos encontrássemos hoje em específico. A musa estreitou os olhos. O tom da amiga era carregado de uma delicadeza incomum, um peso sutil escondido entre as palavras. Era um daqueles momentos em que Nes tentava ser cuidadosa, como se pisasse em cacos de vidro para não assustar Olivia com algum assunto que ela, possivelmente, fugiria. Eram tantos, que ela mal conseguia pensar em qual opção seria.
Sentou no lugar indicado, de frente para a advogada, o filhote em seu colo se ajeitou, soltando um pequeno bocejo que interrompeu seus pensamentos brevemente. Olivia olhou para o animal, depois para o brilho dos olhos de Neslihan e para a expressão mal disfarçada de expectativa. — Ah, então essa era a verdadeira armadilha... — murmurou, escapando um riso arfado de quase nervosismo. As pessoas andavam falando muito sobre a maldição, e Olivia adorava a atenção, como todos bem sabem, mas não queria tratar desse assunto com alguém que a conhecia tão bem a ponto de notar todas as mentiras que vinha contando e perceber a sua vulnerabilidade sobre o tema. Cruzou as pernas com a elegância natural de sempre, e observou a amiga por um momento antes de inclinar a cabeça levemente para o lado. — Direto ao ponto, Nesi. — Pediu, com a intimidade que tinham, não precisava fazer rodeios nem conter a impaciência, mas ainda mantendo um tom suave.
gucci . o nome era tão olivia . ao observá-la com o felino aninhado nos braços — bronzeados como os seus — , neslihan era invadida por uma sensação de serenidade . era curioso como , apesar da imagem que a boscarino projetava ao mundo , estar na presença dela lhe trazia um conforto que remontava ao primeiro instante em que foram colocadas lado a lado , tão pequenas , para se entreterem uma com a outra . o elogio velado arrancava um sorriso discreto , reforçando o sentimento de complitude . havia algo na cena diante de si — o pequeno corpo do gato já completamente entregue ao colo de olivia... a gökçe sempre confiara mais nos instintos dos animais do que nos julgamentos humanos e não era à toa que mark , virginia e chaz , assim como francis , henry e angela , adoravam a mais nova , mesmo que ela ainda insistisse em manter a postura meticulosamente calculada com eles .
com os dedos entrelaçados na pelagem irregular do filhote canino aconchegado no próprio aperto , quase pode sentir a inquietação vibrando no espaço entre elas . ❝ não… a armadilha era gucci mesmo . ❞ um riso breve e genuíno escapou de seus lábios avermelhados . ❝ talvez ele pudesse esperar mais um ou dois dias para te conhecer , mas julguei apropriado antecipar o destino inegável . ❞ com um gesto fluído , inclinou-se na direção da amiga , afagando as diminutas orelhas felinas marcadas pelo peculiar padrão de corações . ❝ o que vem a seguir é apenas um bônus… e , por favor , promete me ouvir antes de reagir ? ❞ esperou a confirmação , mesmo sabendo que , com olivia , as direções poderiam facilmente seguir caminhos opostos ao esperado . ❝ ontem soube sobre a… discussão entre você e aaron no the loft . não importa exatamente o que foi dito , nem quem provocou quem primeiro . ❞ os castanhos percorreram a expressão da boscarino antes de tomar uma longa inspiração .
❝ mas eu sei como você fica depois das conversas com ele . e , bom… posso ou não ter advogado a ideia de que , numa próxima oportunidade , ele permita que o passado permaneça apenas nas memórias distantes , sem trazê-lo à tona e apenas... tente . ❞ fixando o olhar ao dela , pendeu levemente a cabeça . ❝ e é exatamente isso que eu gostaria de pedir a você também . sei o que vai dizer — que ele é inflexível , teimoso , que nunca te deu uma chance de se explicar e que ainda insiste em te colocar como a pessoa mais vil a existir . mas acho que você é capaz de entender de onde esses sentimentos nascem . sei a falta que ele te faz , nós fomos partes essenciais um do outro por tanto tempo que perder qualquer um de nós criou um buraco impossível de preencher . você sentiu , eu senti . e ele também . ❞ não havia como negar o que foram — e , talvez , ainda pudessem ser . sem eles , neslihan talvez não estaria ali . e era essa certeza que a fazia persistir em consertar o abismo que os separava . com as reviravoltas e rumores impossíveis que vinham tomando conta da cidade , aquela missão já não parecia tão inalcançável assim . fazia uma anotação mental para sondar olivia sobre aquilo tudo , se alguém soubesse o que estava por detrás dos sussurros de khadel , era a musa . ❝ agora , o que me diz ? meus ouvidos são todos seus . ❞ ofereceu um sorriso suave ao arquear as sobrancelhas .
✉️ : giorno !
✉️ : talvez se você tivesse tido olhos para além da nova habitante de khadel , teria ficado sabendo de primeira mão
✉️ : eu literalmente estava do outro lado da janela de vocês dois
✉️ : mas respondendo à sua primeira pergunta , ele ganhou uma aposta e pediu como pagamento um jantar
✉️ : sendo sincera , não sei se como estou sentindo é exatamente bem
✉️ : e continuo odiando , não se preocupe
✉️ : hm , curioso que eu também não tenha ficado sabendo com quem iria no giardino até chegar lá
✉️ : imagina minha surpresa em não só te ver incrível em roupas sociais , inclusive devo ficar ofendida que não me pediu opinião alguma sobre ?
✉️ : mas na companhia da famosa garota problema e sorrindo abertamente ainda por cima !!!!
o problema de pessoas como neslihan era que através de suas lentes duramente arbitrárias, por vezes colocavam-se em um lugar de condescendência que as cegavam para qualquer não obviedade. camilo podia não ser o maior filantropo (ou sequer ser considerado um de qualquer modo), mas antes de qualquer coisa, o ricci não saía de seu caminho para prejudicar ninguém. não era um homem bom, mas será que era justo considerá-lo um homem mau? egocêntrico, sim. superficial, com toda certeza. mas no final das contas, não havia verdadeira maldade nele. o trabalho com os animais poderia ser um bom indicador de que ele não era fisicamente incapaz de fazer o bem, e por mais que muitos pensassem que aquilo não passava de uma fachada, neslihan o observara na fazenda vezes o suficiente para reconhecer a autenticidade de suas intenções. assim ele presumia, pelo menos. ‘se mudar a vida de uma única pessoa, já terá feito mais do que espero de você.’ o sorriso quase vacilou, a postura alheia e os dizeres descrentes o atingiram um pouco mais do que estava disposto a demonstrar. camilo podia se considerar o centro do próprio mundo e priorizar a si mesmo com frequência, mas estava absolutamente distante do exemplo de amor próprio. alguém tão indulgente em pecados do mundo, tão irresponsável e auto destrutivo não poderia ter qualquer carinho sincero por si mesmo. o olhar da turca o recordou, por alguns segundos, que aquela era simplesmente a sua sina: sempre esperariam o pior dele. sua família, seus colegas, desconhecidos, todos. palavras que ouvira por anos de seu pai reverberaram no fundo da mente, mas balançou a cabeça em uma tentativa de afastá-las. não era momento de auto piedade. chegou a pensar em valentina, em como se dedicara nos últimos dez anos para garantir que a garota tivesse as melhores oportunidades. poderia ele considerar que havia ajudado a melhorar uma vida, quando também fora responsável por destruí-la antes? “por que não faz uma lista, hani? assim não deixamos nada disso escapar.” afirmou, beirando a provocação, embora ainda fosse sincero. “eu só prefiro ter alguém para plantar as árvores. não fico bem de jardineiro”
a resposta a respeito de suas vontades fora intrigante. “são palavras demais pra dizer que você tem medo de perder o controle” devolveu, arqueando uma sobrancelha. se camilo era excessivamente indulgente, neslihan parecia o oposto. como se transformar a vida em uma sucessão de represálias fosse nobre. “existe muito valor na liberdade de admitir que a vida vale a pena pelos prazeres que proporciona. em reconhecer que você não é melhor que ninguém por abrir mão disso, só… menos feliz” deu de ombros, finalizando o conteúdo da taça. não evitou uma risada sincera com o comentário seguinte, assentindo em concordância. “o que posso dizer? meu sorriso é muito bonito” dessa vez havia leveza no tom, demonstrando que pelo menos naquele ponto ela havia vencido o embate de provocações certeiras e ininterruptas. “nah. prefiro algo mais…” gesticulou para ambos, indicando que falava sobre o encontro. “…estimulante.” a conversa entre eles era sempre interessante, afinal. “duvido que você acredite em qualquer gentileza da minha parte, neslihan” e somente poderia torcer para sua inclinação dramática lhe conferir a mesma qualidade de um ator ao tentar disfarçar o resquício de ressentimento em sua frase. “até porque, convenhamos, é o que estou fazendo a noite toda e você continua convencida do contrário” o carro, os elogios, o menu, a água, a mesa na parte externa… não havia sido menos do que gentil até então. vulgar, quem sabe, mas certamente longe da grosseria. “mas tudo bem. faz parte do seu charme” complementou, piscando um dos olhos.
esperou uma resposta evasiva, ou uma história de pouca importância. o ocorrido descrito pela gökçe apenas provava que muito embora ele soubesse interpretar pequenos sinais muito bem, estava longe de considerar que a conhecia o suficiente. pego de surpresa diante da franqueza, ouviu com atenção. a informação da morte de sua mãe não era inédita (todos sabiam naquela cidadezinha), mas não pôde evitar se abalar com o assunto. era seu calcanhar de aquiles, mesmo. “sinto muito” e de tudo o que havia falado a noite inteira, aquelas duas palavras provavelmente carregavam a maior carga de honestidade até então. nem havia notado que mal se dedicara à comida exposta a sua frente, dada tamanha atenção que a mulher detinha. ainda que o assunto da morte da figura materna fosse o que mais lhe havia chamado atenção, não deixou de perceber a coincidência escondida na menção de um acidente. assim que a pergunta foi devolvida, ele soube exatamente o que contar. estendeu a própria mão, pedindo a dela. riu quando notou a confusão e receio nos olhos alheios. “não vou morder. nem te pedir em casamento. prometo” e esperou que a jovem colocasse a mão sobre a dele. assim que o fizera, camilo a levou até a parte de trás da própria cabeça, pouco acima da nuca, entre os fios escuros. tateou o local com a mão feminina, até o indicador da mais nova encostar em uma pequena protuberância que facilmente passaria despercebida. “sentiu?” aguardou alguma confirmação. “é um fragmento bem pequeno de vidro, de um acidente de carro há uns bons anos. era mais perigoso uma cirurgia para retirar do que não fazer nada. então decidiram deixá-lo” era um lembrete dolorido do passado; do enorme erro cometido. não comentou sobre como o acidente havia ocorrido e nem o fato de não estar sozinho na ocasião. aquilo, por hora, ainda preferia manter em segredo. “para ser justo, a equipe médica que me atendeu também sabe disso. mas eu nunca contei, eles só estavam lá” brincou, soltando sua mão e finalmente provando a comida disposta à sua frente.
“uma ótima pergunta” reconheceu, reclinando-se para pensar melhor. já havia vivido tanto, feito tanta coisa… o que, de fato, o havia surpreendido? não sabia quanto tempo havia ficado em silêncio, perdido em pensamentos, mas quando se deu conta a resposta desencadeou a deixar os lábios sem qualquer auto controle. “sabe que a fazenda começou por uma ideia do meu pai? por um motivo... menos do que nobre. quer dizer, eu sempre gostei de animais, mas demorou um pouco até eu me envolver de verdade. no começo era só uma tarefa que eu tinha que executar." explicou de início, a fim de contextualizar a história que estava por vir. "então teve um dia que eu estava caminhando bem no meio das árvores, ali no final da propriedade, perto do lago. uma cachorrinha apareceu. veio até mim, direto, sem medo. estava tão magra que dava pra ver cada osso, tão suja que eu tive dificuldade de saber qual cor era o pelo. tinha um machucado na perna que não parecia recente, mas estava longe de cicatrizar. eu pensei em levá-la comigo, dar comida, cuidar, como fazíamos com todos os animais ali. mas quando tentava pegar no colo, ela não deixava. e não era que ela não me deixava encostar nela! só não me deixava tirar ela do lugar, mesmo. se eu tentava, ela colocava todo o peso pra baixo. nem sei de onde ela tirava força pra isso. então eu entendi que ela não queria me acompanhar, queria que eu a acompanhasse. quando eu finalmente deixei ela me guiar, correu até um buraco cavado atrás de um tronco de árvore caída, uns metros adiante. no buraco tinha um filhotinho pequeno e quase tão magro quanto ela. quando eu peguei ele no colo, ela desmaiou, como se finalmente a força dela tivesse acabado." lembrava-se de achar que o animal havia falecido, na ocasião.
"levei os dois correndo até o veterinário da fazenda e ele disse que, pela situação que a cadelinha estava, toda a força e energia que ela teve pra salvar o filhote foi praticamente um milagre.” pausou, como se pudesse ver na sua frente a imagem da cachorrinha sarnenta e magricela. ergueu a mão como que em rendição. “culpe a maldição, se quiser, mas foi a primeira vez que eu…" pensou em como explicar, a testa franzindo enquanto ele achava as palavras. "bom, foi a primeira vez que eu realmente vi amor” ele podia nunca ter sentido nada parecido, mas era inegável o que havia presenciado. “ foi depois desse dia que eu passei a levar a fazenda a sério” acrescentou, um último comentário antes de perceber o peso da história que lhe escapara. “além disso, já viu como as mulheres me olham quando eu estou com um filhotinho na mão? é um afrodisíaco natural” certo, aquilo deveria equilibrar um pouco a situação, possivelmente. serviu a ambos um pouco mais do vinho. “mas então, há quanto tempo é vegetariana?” parecia uma pergunta segura e suficientemente impessoal, para variar.
desde a mais tenra infância , neslihan fora moldada sob a rigidez do dever , envolta em ouro , mas contida por correntes invisíveis . sua existência sempre se definira por uma dolorosa dualidade , a necessidade de sentir em contraste com a imposição do autocontrole , o embate incessante entre o querer e o dever . esse conflito , enraizado em sua mente , tornara-se a fratura primordial que assombrava a parte mais sombria de seu passado . culpava , sim , a figura paterna por parte das feridas que lhe foram infligidas , algumas delas irreparáveis . no entanto , via na fragmentação de seu próprio ser uma obra cuja autoria também lhe pertencia . daquela tragédia , restara-lhe um âmago parcialmente enrijecido — sua visão de mundo tornara-se austera , seu julgamento sobre as pessoas , inflexível , e sua postura perante a própria existência , uma fortaleza intransponível . e camilo era o oposto exato de cada uma dessas certezas . para ele , tudo parecia fluido demais , como se suas convicções mudassem com a mesma facilidade com que trocava de roupas ao amanhecer , como se suas verdades fossem tão voláteis quanto os humores de um único dia .
ela não se iludia ao pensar que compreendia todas as nuances que o compunham, mas o conhecia o suficiente — anos de observação cuidadosa e encontros forçados ao lado de vincenzo ricci e aquele sobrinho haviam lhe dado a convicção de que alguém criado sob a tutela do patriarca dos ricci não poderia desviar-se tanto assim do molde original . não importava que ela própria fora forjada sob a sombra de um homem igualmente desprezível e , ainda assim , renunciara a cada valor que lhe fora incutido . não via nele a mesma ânsia de se libertar , a mesma necessidade de transcender a redoma em que cresceram . curioso como ela era capaz de vislumbrar potencial até nas circunstâncias mais desoladoras , mas quando se tratava das pessoas ao seu redor , seu olhar se tornava opaco . talvez fosse uma falha evidente para qualquer observador externo , mas naquele momento de sua vida , preferia envolver-se no véu confortável da negação . havia algo de insistente nessa postura , um reflexo interno que , por vezes , ameaçava ceder — mas então camilo lhe recordava exatamente por que isso jamais aconteceria .
bastava um gesto , um olhar carregado daquela insolência que a irritava profundamente , um simples pronunciar do apelido em seus lábios para inflamá-la de fúria… ou , se fosse brutalmente honesta , algo mais . ❝ vou providenciar . amanhã de manhã a lista completa estará na sua caixa de entrada . ❞ e assim o faria , nem que precisasse atravessar a madrugada compilando meticulosamente cada detalhe sobre o valor de cada gole do bourgogne . ❝ entendo . nem todos os homens conseguem portar-se com a sensualidade inerente de um jardineiro . ❞ a voz adquiria um timbre aveludado . ❝ todos aqueles músculos à mostra , o suor misturando-se ao aroma da terra molhada… uma essência irresistível . ❞ pareava a provocação dele , acrescentando um piscar de olho deliberado .
a observação alheia foi recebida com um sutil estreitar das íris castanhas , enquanto a sobrancelha dele se arqueava . ela seria a última a negar o que ele insinuava , por ser a mais pura verdade . o medo corria demasiado forte em suas veias para que pudesse ceder o controle e , mais uma vez , encontrar-se à deriva — presa em uma circunstância desconhecida , sozinha , dissociada de tudo que a compunha , sem sequer lembrar o que fizera para ferir quem quer que fosse . manter o domínio sobre qualquer situação que a envolvesse era a única forma de garantir que , se houvesse dor , ela fosse restrita a si mesma . ❝ não há nada demais em querer manter o controle . pelo contrário , é uma forma de satisfação como nenhuma outra . ❞ camilo não era o primeiro , e certamente não seria o último , a insinuar que sua existência dentro de uma bolha de restrições autoimpostas a condenava à infelicidade . mas vindo dele — com aquela despreocupação boêmia , aquela facilidade irritantemente leviana — , a fala ressoava como brasa queimando em seus pulmões . ❝ apreciar os prazeres da vida é uma coisa . ser completamente inconsequente ao fazê-lo é outra . saber dosar quando , como e onde os aproveito apenas prolonga a sensação de contentamento . não abro mão do que me satisfaz , apenas não me entrego aos impulsos como se o mundo fosse se desfazer em um piscar de olhos se não o fizer . ❞
levantou a taça quase vazia , deixando que o vinho deslizasse pelo paladar , apreciando a textura aveludada que o carmesim lhe proporcionava . ignorou o impulso de revirar os olhos , assim como a tentação de comentar sobre o sorriso alheio — embora , caso se permitisse um instante de análise , talvez concordasse . as palavras dele , ainda que envoltas naquele flair característico , traziam o peso de algo que lhe apertou a respiração por um breve instante , dissipando-se logo em seguida com um menear dos fios e a litania posterior . um riso seco escapou dos lábios ainda tingidos de rubro . ❝ tenho dificuldade em acreditar porque não sei se suas ações são genuínas , camilo . ❞ não se tratava de charme , como ele sugeria . a verdade era mais crua , neslihan simplesmente não sabia como reagir a ele de outra maneira que não fosse com ferocidade . não sabia se os gestos dele eram sinceros ou se carregavam as segundas intenções que pareciam reger cada um dos seus encontros , fosse naquele momento ou em qualquer outro .
com apenas duas palavras , o ricci dissipava o pulso inquieto que as provocações dele instigavam . havia algo na sinceridade que interrompia qualquer pensamento alheio naquele instante , deixando apenas um eco silencioso que se espalhava até as pontas dos dedos — uma sensação estrangeira . com um aceno hesitante , aceitou o pesar que ele oferecia . talvez aquele fosse um dos raros momentos em que poderiam ser genuínos um com o outro , sem a necessidade de pretextos . ela sequer era nascida quando a mãe de camilo fora internada e jovem demais para recordar-se do momento em que a doença lhe roubara a vida , mas a história era de conhecimento geral , e a morena sentia a perda dele como apenas quem já houvesse experimentado dor semelhante poderia compreender . imaginava que , para uma criança , a ausência materna fosse ainda mais avassaladora do que para um adulto — como fora em seu caso . mas mesmo tendo quase duas décadas a mais ao lado da própria mãe , por vezes parecia que münevver muito antes deixara de pertencer ao mundo dos vivos . a fisgada que a lembrança causava era lancinante , embora logo se dissolvesse diante da confusão provocada pelo gesto dele ao erguer a mão em sua direção .
o riso masculino percorrendo a extensão da pele exposta era o motivo por finalmente conceder , embora as palavras ditas em divertimento recobrassem a consciência de algo que não saberia nominar . com a palma aninhada no aperto alheio , neslihan inclinou-se , os dígitos formigando antes mesmo de entrarem em contato com os fios acetinados . seguiu o movimento conforme ele guiava , podia sentir o calor que ele irradiava subir pelos braços , até que o toque feminino encontrou o pequeno relevo , uma resistência sob a superfície . assentiu ao questionamento antes de pender a cabeça , enredando os dedos pela pele alheia enquanto ele explicava . a menção de um acidente — automobilístico , como aquele que ela mesma protagonizara — provocou um breve sobressalto com semelhança inesperada .
assim que sentiu o fragmento incrustado , poderia ter retirado a mão , encerrando ali a conexão , mas não o fez . não até que ele finalizasse , até que aumentasse a distância entre eles e desfizesse a leve pressão que os mantinha ligados . só então neslihan recolheu o braço , cerrando o punho de maneira quase imperceptível antes de repousá-lo no colo , onde o linho do guardanapo descansava sobre as pernas . desanuviando a garganta , que de súbito pareceu ressequida , indagou . ❝ e não te incomoda em nada ? não é perigoso que permaneça por todo esse tempo ? ❞ as perguntas saíam com mais curiosidade do que desejava , com uma preocupação que transparecia em excesso clareando a voz . embora ela própria não apresentasse sequelas físicas do acidente de tantos anos , as invisíveis a atormentavam mais do que qualquer cicatriz que pudesse ser vista .
esboçou um sorriso diante da colocação dele , embora os ombros permanecessem retesados sob o formigamento que ainda reverberava da palma para o restante do corpo . enquanto ele ponderava sobre o que compartilhar , por um longo momento , manteve as íris fixas na expressão distante que se instalava nas feições do mais velho . percebia , então , que já fazia algum tempo que seus olhos não sentiam a necessidade de se desviar da intensidade que camilo personificava . a constatação a fez quebrar o contato visual de imediato . refugiou-se no cristal vazio sobre a mesa , nos talheres de prata quase intocados , na comida negligenciada , no tecido carmesim que deslizava sobre suas pernas conforme as descruzava e cruzava no lado oposto . na tentativa de não ser consumida — seja lá pelo que estivesse tentando enraizar-se dentro dela naquele momento — precisou piscar algumas vezes quando a voz grave rompeu o silêncio , trazendo-a de volta à realidade antes que se perdesse nos próprios devaneios .
com a simples menção da fazenda , soube que a história recontada puxaria as cordas de seu coração . era inevitável . sabia bem o que ele fazia por aquele lugar e , se camilo tivesse consciência , entenderia que essa era a única fraqueza que poderia usar contra ela . o repuxar dos lábios se expandiu de forma quase natural , mas logo tomou um arco agridoce . amor . antes que ele enunciasse a palavra , ela já a havia formado em sua mente . a história que ele tecia era uma representação genuína do que o amor poderia ser , e pela primeira vez , talvez neslihan compreendesse um módico do que aquele sentimento mítico significava . com os olhos mais úmidos do que o tempo permitia , engoliu em seco antes de menear os fios levemente . ❝ que bom que ela escolheu a pessoa certa para cruzar o caminho . ❞ a sinceridade na entonação era mais palpável do que gostaria , mas já não se esforçava tanto para controlar cada flexão de sua voz , calcular cada gesto . ❝ e… ela está bem hoje ? foi adotada ou continua por lá ? ❞ não ousaria pedir que ele a mostrasse , fosse o caso , mas tinha a amizade de esperanza há tempo suficiente para saber que a mulher a guiaria mesmo sem um nome .
e então, mais uma vez , ele insistia em se esconder sob aquela fachada . já não restavam dúvidas de que era um disfarce — não para ela . ali , a forma como o ricci a vestia como uma segunda pele era escancarada , mais espessa do que a verdadeira , uma armadura que rivalizava com a que ela própria carregava , feita de controle e distância . ❝ não , ainda não tive o imenso privilégio de presenciar cena tão deplorável quanto ver mulheres se atirando em sua direção por conta de um sorriso bonito e um animal adorável nos seus braços . ❞ mesmo com a sobrancelha arqueada em ironia , as palavras não carregavam a mesma mordida usual .
com uma mordiscada na mozzarella , permitiu que o sabor suave , amanteigado e fresco se espalhasse pelo palato . tomando o cristal entre os dedos , levou-o aos lábios , sorvendo o líquido por completo antes de ceder-se a mais uma dosagem do grand cru . permaneceu em silêncio por alguns instantes , recuperando a memória exata do momento em que uma decisão infantil selara algo que a acompanharia até a morte . ❝ bem , tinha exatos seis anos . era o dia do meu aniversário e , como sempre , um banquete era esperado . não importava que , entre os convidados , houvesse mais parceiros de negócios do meu pai do que amigos meus — liv estava lá , e era a única . ❞ concedeu brevemente , antes que a lembrança a puxasse de volta . ❝ estávamos brincando , a contragosto de muitos , porque onde já se viu uma criança querer brincar na própria festa ? e , sem querer , acabei entrando na cozinha . era um território proibido nos dias de comemoração . ❞
hesitou por um instante antes de continuar . ❝ e diante dos meus olhos , estava o cozinheiro abatendo alguns coelhos , enquanto partes de cordeiros , em diferentes estados , espalhavam-se pelas panelas e ilhas . lembro de sentir um pedaço de mim se esvaindo junto deles , e ali prometi que jamais compactuaria com aquilo . ❞ a voz , ainda que suave , conotava a mesma firmeza de quando tinha a pouca idade . ❝ palavras fortes para uma criança que dependia dos outros para se alimentar . no início foi... complicado , mas uma vez que meu pai percebeu que aquela era uma batalha perdida , tive gioconda ao meu lado . ❞ omitia a parte em que o homem a deixara dias sem comer como punição , ou quantas vezes precisou desmaiar de fome diante dos conhecidos dele até que sua vitória fosse concedida . aqueles detalhes camilo não precisava saber . tampouco que , ironicamente , a recordação estava entre as mais felizes que guardava sob o teto dos şahverdi — puramente ligada à presença da cozinheira que lhe ensinara tudo o que ainda recordava no presente .
tomando mais um gole do vinho , levou a manicure até o queixo , como se pensasse profundamente a questão seguinte . ❝ se você pudesse mudar apenas uma coisa na sua vida , o que seria ? ❞ já que a proposta inicial dele , ainda que dúbia , era se conhecerem , neslihan não se manteria na superfície rasa onde ele parecia querer conduzi-la . ainda que , até ali , nenhuma resposta dela — ou dele — tivesse sido menos do que carregada .
Sua rotina de exercícios focava em musculação e atividades que ainda poderiam ser feitas na Casa Comune, como kickboxing, Muay Thai ou boxe. Porém, vez ou outra, Matteo gostava de se aventurar em outros esportes. Fosse para causar um pequeno desconforto no seu corpo ao experimentar algo novo, fosse para quebrar um pouco a monotonia do conhecido, ele achava que colocar coisas diferentes na sua rotina lhe traria algum benefício. Era por isso que, naquela manhã, ele optou pelo tênis. Pegou uma raquete esquecida dentro da garagem abarrotada de quinquilharias e logo a onda de memórias associadas ao objeto veio em sua mente.
Ele tinha treze anos e pegou uma raquete no quarto de Neslihan. Ela estava tentando ensiná-lo algo de matemática, mas a mente inquieta de Matteo não conseguia focar nas equações. Ele não entendia porque as coisas lhe eram tão mais difíceis quanto para os seus colegas, mas os números, letras e formas pareciam dançar na folha, causando sua própria inquietação. Ele perguntou para ela o que era aquilo e, mesmo entre um olhar autoritário que dizia que ele devia estar prestando atenção em outra coisa, ela explicou para ele o jogo.
Aos dezesseis anos foi provavelmente quando jogaram o último jogo juntos. Cada dia mais suas lições ficavam espaçadas. Algumas vezes interrompidas por causa da nova rotina física de Matteo, outros dias por algum compromisso que Neslihan possuia. Parecia que suas agendas nunca alinhavam, tão raro quanto um completo alinhamento planetário e Matteo só sabia responder com a única expressão externa que conseguia oferecer aos outros: indiferença. Não podia ir atrás dela. Ele nem sabia o que havia acontecido para o afastamento. Depois daquele dia nunca mais se encontraram intencionalmente dentro ou fora da quadra.
Tinha vinte anos e havia jogado algumas vezes aleatórias, ainda com a raquete emprestada que nunca devolveu. Algumas objetos ficavam perdidos pelo contato entre aqueles que os manipulavam e esse era um dos casos. Talvez nunca voltaria ao verdadeiro dono. Parou de jogar por muito tempo.
Agora, segurando a raquete, ele percebia o quanto ela parecia pequena na sua mão e muito mais velha que lembrava. Talvez fosse a camada de poeira que lhe cobria, depois de longos anos em desuso. Ele girou na mão e decidiu levá-la, mais pelo valor sentimental do que pela praticidade. Provavelmente teria que alugar uma nova para poder jogar. Mas algo de tudo que estava acontecendo, a ligação do grupo mais improvável que poderia ser colocado junto em Khadel, fazia com que ele pensasse mais sobre as suas conexões, ou a falta delas. No fundo Matteo sabia que a indiferença com que levava a vida seria sua ruína. Sozinho, desconfiado e provavelmente rabugento. Era assim que terminaria. Não poderia culpar nenhuma maldição pelo desamor, ele mesmo afastava qualquer um que se atrevesse a tentar estar na sua vida.
Como se evocasse o fantasma de Neslihan com aquela raquete, ele avistou a mulher numa das quadras assim que chegou no lugar. Era cedo, talvez cedo demais, para agir indiferente e fingir que não havia lhe visto. Eram as únicas almas ali naquele horário, tirando o jovem na entrada que havia o recebido. Matteo respirou fundo e foi em direção à mulher, tentando pensar em algo para dizer, mas tudo parecia ficar àquem do desejável. "Ei," cumprimentou, soando patético na sua cabeça, mesmo que nada realmente escorrece ao exterior.
antes mesmo que os primeiros raios solares rasgassem o véu da madrugada , neslihan já percorria o caminho até o pequeno complexo esportivo , a raquete equilibrada entre os dedos . o aroma fresco da grama recém aparada , meticulosamente ajustada aos padrões internacionais , impregnava seus sentidos , oferecendo um instante fugaz de alívio . mas nem mesmo aquele perfume familiar conseguia dissipar por completo a sensação de exaustão latente , o peso dos dias recentes transformando-a em um animal ferido , perdido na escuridão de uma floresta desconhecida . retirou o cardigã , sentindo o arrepio escalar-lhe os braços sob a brisa cortante da alvorada , após depositar a bolsa junto à rede — um ritual já automático — , com as raquetes extras . por vezes , dependendo do humor , estourava as cordas de poliamida com a força desmedida de seus golpes , como se o próprio equipamento carregasse consigo a frustração acumulada , então sempre trazia as excedentes . com os cabelos firmemente presos no alto da cabeça e os nervos tensionados , não desperdiçou tempo com aquecimentos triviais . a corrida ao redor da villa , antes de ceder à tentação de pegar o carro e dirigir até ali , fora mais do que suficiente para preparar os músculos . seu único objetivo era derrotar a máquina lançadora — um adversário silencioso , preciso e incansável . e assim , a mulher se perdia nos movimentos meticulosamente calculados , os golpes ressoando contra as cordas tensionadas da raquete , canalizando a exasperação que lhe queimava por dentro . o tempo se tornava irrelevante , a única certeza era o alívio sutil que se insinuava em seus ombros , a rigidez gradualmente cedendo enquanto sua mente se libertava das inquietações que , dia após dia , pareciam se entranhar mais fundo em seu consciente .
um sorriso despontou quando sua memória a transportou para o instante em que segurou uma raquete pela primeira vez — uma das muitas exigências paternas . dentre todas , talvez aquela fosse uma das poucas que ainda preservava com apreço , mesmo que , na época , as cordas fossem de tripa natural , um material que agora se recusava a sequer ponderar . o cenho se franziu ao recordar os treinos extenuantes , excessivos para uma criança sem qualquer ambição profissional no esporte , mas menos que a perfeição jamais fora aceito sob o teto dos şahverdi , então se tornou a norma . a respiração adquiriu uma cadência melancólica ao lembrar dos dias em que tinha companhia – uma companhia que ia além da miríade de treinadores cuja simples presença a fazia desejar nunca mais encará-los . matteo surgiu em sua mente como um relâmpago — um vestígio confuso em sua mente com a forma como tudo havia se desfeito , em meio ao caos infernal no qual ela era a personagem principal .
com o suor escorrendo por cada poro de sua pele , sacudiu as memórias com um último golpe certeiro na bola final lançada pela máquina . levando as mãos à cintura , puxou o ar límpido da manhã para dentro dos pulmões exaustos , contando mentalmente até dez . na última expiração , foi arrancada de seu momento de trégua por uma voz masculina . por um breve instante , sentiu a alma sair do corpo , como se sua própria lembrança tivesse evocado matteo em carne e osso à sua frente . com a destra pousada sobre o coração acelerado , inclinou levemente o quadril e esboçou um sorriso contido — um reflexo de algo reprimido há muito tempo , ou talvez apenas até o momento em que todos foram tragados pelo mistério que pairava sobre khadel como um véu espectral . quando sua rotina meticulosamente planejada começou a ruir . ❝ ei , teo . ❞ o apelido escapava com naturalidade , como se treze anos não tivessem se esgueirado entre eles sem quase nenhuma palavra trocada . enquanto caminhava até a bolsa descartada , procurando pela garrafa , seus olhos captaram um detalhe que fez o pequeno sorriso persistir , a raquete que pendia das mãos dele , os adesivos no cabo denunciando sua familiaridade . ❝ nunca te vi por aqui antes… mas suponho que nossos horários se diferem na maior parte dos dias . ❞ ergueu uma sobrancelha , indicando com o olhar o objeto desgastado entre os dedos masculinos . ❝ veio jogar sozinho ou aceita companhia ? ❞ a pergunta carregava o mesmo tom melancólico das lembranças que há pouco enevoaram seus pensamentos . ❝ eu poderia usar um adversário mais desafiador . ❞
A luz natural que atravessava o amplo espaço conferia à cena um ar quase etéreo, e Olivia permitiu-se um momento de silêncio, absorvendo tudo ao seu redor. Não era como se nunca tivesse pisado em um lugar como aquele – ela já estivera em eventos beneficentes, participara de campanhas e, claro, posara para fotos estratégicas com animais resgatados. Mas Neslihan era diferente. Com ela, não havia câmeras ou expectativas externas, apenas um amor genuíno que se manifestava em cada gesto, em cada olhar devotado às pequenas criaturas. E Olivia, com toda sua precisão calculada, sabia reconhecer autenticidade quando via uma. Seguiu os movimentos fluidos da amiga com o olhar, observando-a se desfazer dos saltos com a mesma naturalidade de quem se livra de uma formalidade inútil. O contraste entre as duas era gritante – Neslihan se jogava de corpo e alma na experiência, enquanto Olivia hesitava à beira do envolvimento, como se temesse que ceder um milímetro significasse se perder completamente. Mas então o filhote em seus braços abriu os olhos, e Olivia sentiu o impacto imediato. Verde e azul. Como se a própria natureza tivesse decidido brincar de artista em uma tela minúscula e viva. A pequena criatura não apenas a olhava – ela a estudava, com uma intensidade absurda para algo tão pequeno. O que era para ser apenas um olhar passageiro durou mais do que Olivia pretendia, e quando percebeu que estava genuinamente encantada, tentou recuperar a compostura com um suspiro resignado. “ Ótimo. Agora até um gato está me analisando. ” Mesmo enquanto falava, sua mão já se movia sem que precisasse ordenar, os dedos deslizando suavemente pelo pelo macio, experimentando a textura, sentindo o calor. Chanel nunca fora do tipo carente, mas Olivia sabia que talvez fosse isso que a mantivesse confortável – um reflexo de sua própria independência forçada. E agora Neslihan a empurrava para outro abismo, um que a musa ainda não sabia como sobreviver. Ergueu os olhos para a amiga, a expressão cuidadosamente impassível, mas o brilho sutil de diversão traía sua tentativa de indiferença. “ Você se diverte demais me desafiando, não é? ” O tom era quase acusatório, mas carregava a familiaridade de quem já sabia exatamente onde aquela conversa terminaria. Nes, sempre disposta a testar seus limites, e Liv, sempre fingindo que não cedia – até ceder completamente. “ Chanel já era adulta quando veio para mim. Esse aí... é um bebê. Deve fazer a maior bagunça. ” Resmungou uma última vez, até ouvir o gatinho ronronar debaixo de seus dedos, como se já tivesse decidido o próprio destino. Olivia suspirou. “ Se ele arranhar meus móveis, eu te mando a conta. ”
observar os dedos de olivia deslizarem com reverência pelo pequeno corpo peludo fez com que um sorriso tenro se desenhasse nos lábios de neslihan . ela conhecia a essência da boscarino melhor do que ninguém , independentemente da imagem que olivia escolhesse projetar , e convencer , ao mundo . diante do questionamento sobre sua inclinação para testar os outros , um riso melífluo escapou entre elas . ❝ mais do que você é capaz de imaginar ! ❞ os lábios hesitaram em manter-se firmes , como se antecipassem a inevitável ruína daquele sorriso . o ronronar aquecendo sua palma , aliado à falsa indignação da amiga , fez com que a gökçe arqueasse uma das sobrancelhas , diversão cintilando em meio ao castanho avermelhado de suas íris . ❝ pode enviar todas as contas que quiser para o meu escritório . serei a advogada dele pelo tempo que precisar , não é mesmo , raggio di sole ? ❞ depositando o felino nos braços de liv , preparava-se para se acomodar em um dos pouf a sacco quando um pequeno latido desviou sua atenção . uma criatura diminuta , de corpo alongado e pelo arrepiado como se tivesse acabado de levar um choque , corria em sua direção . o cão , tão pequeno quanto o gato aninhado no abraço da mais nova , enroscou-se nos pés descalços de neslihan , e , como se aqueles grandes olhos tivessem uma conexão direta com sua alma , ela se abaixou para acolhê-lo junto a si . mais um . afagando o pelo áspero com a ponta dos dígitos , indicou o outro pufe colorido para a mais nova antes de murmurar , com uma cadência que misturava hesitação e expectativa . ❝ bom… talvez eu tenha deixado passar outro motivo pelo qual insisti tanto para que nos encontrássemos hoje em específico . ❞ dois dias consecutivos revisitando um passado que a ferira talvez não fosse o ideal , mas , ao contrário do que acontecia com aaron , olivia parecia ter um pouco mais tato na situação , ainda que irracionalidade não fosse difícil de ser percebida nos olhos alheios .
camilo era mais observador do que poderia transparecer. ou talvez apenas era bom em ler as pessoas, estivesse ele se esforçando ou não. de certo era uma resposta natural à certos traumas, embora ele próprio nunca tivesse feito tal conexão. crescer em um lar disfuncional, com um pai completamente desequilibrado e frequentemente violento o fizera aprender a interpretar os pequenos sinais, a estar alerta aos padrões e as mudanças destes. o que havia começado como um mecanismo de defesa passou a ser útil para conquistar o que quisesse, de quem quisesse. dinheiro era um facilitador inegável, mas o carisma e a compreensão da natureza humana o levava além. entender as pessoas fazia com que ele soubesse exatamente o que dizer ou fazer para que as coisas pendessem para o seu lado da balança. por isso se divertia tanto nos momentos em que interagia com neslihan. tudo na postura dura e poderosa da mulher era sincero, e ainda sim, em pequenos - quase imperceptíveis - momentos daquela dinâmica dos dois, ele podia ver fragmentos que deixavam claro que ele a atingia de alguma forma (além da irritação). sabia que entre uma provocação ou outra sua, incitava nela interesse o suficiente para que aquele jogo continuasse. com aposta ou não, neslihan provavelmente não se submeteria a algo que ela fosse completamente contra. era por isso que para camilo, a vitória não era apenas o fato da mulher estar diante de si naquele encontro, mas de ter permitido que tudo aquilo se desenrolasse até aquele ponto.
e agora lá estava ela, aqueles pequenos padrões que ricci já havia notado antes parecendo um tanto quanto... conturbados. e não apenas pela gentileza forçada que a gökçe precisava lhe conceder. estava acostumado a vê-la lutar contra a atração sexual que existia entre eles, mas o nervosismo que demonstrava parecia motivado por outra coisa. não se atreveria a dizer que sabia o motivo, mas se precisasse tentar adivinhar, talvez pudesse ter algo a ver com a história recente das almas gêmeas. não importava, no final das contas. camilo não achava que aquela história era real, e mesmo se fosse, não imaginaria que se aplicaria a eles. certamente neshilan partilhava da mesma opinião.
e então, ela estava de volta. ele sorriu. continuava divertido vê-la lutar para manter a gentileza, mas o fato era que ele gostava mesmo era da rispidez comum que ela demonstrava. o que podia dizer? adorava quando ela o maltratava. "sabe que na aposta, eu pedi que fosse gentil, e não passiva." havia uma diferença destacável. "ou você acha que eu considero que uma mulher educada é uma mulher que concorde com tudo o que eu digo?" ele riu, inclinando-se ligeiramente para frente, o sorriso em seu rosto deixando mais do que claro que ele estava entretido. sabia que haviam outros casais naquela noite, mas não se deu ao trabalho de prestar atenção em quem havia chegado. os olhos estavam fixos na mulher diante de si. "quantas?" perguntou então, voltando a recostar-se na cadeira. "diga um número, e eu faço. mudar vidas, isto é" não exatamente por benfeitoria, mas simplesmente porque ele podia. e se ela quisesse... bem, sinceramente? o faria justamente por aquele motivo.
a frase contendo a doçura insípida não falhou em lhe satisfazer, porque sabia que era verdade, por baixo do tom forçado - ele parecia estar causando algum efeito diferente nela. já a outra frase quase o fizera revirar os olhos, especialmente pelo sorrisinho alheio. "eu vi." assentiu diante da constatação da outra, a respeito do nível dos encontros de khadel. "sinceramente, me surpreende que uma mulher como você se contente com pouco." o idiota do karaokê lhe vinha na mente, mas a situação o fazia presumir que ela talvez abaixasse os padrões vez ou outra como naquela noite. um absurdo, considerando de quem se tratava. o garçom se aproximou com o vinho e camilo prontamente o degustou, aprovando e aguardando que ambas as taças fossem preenchidas. ele observou o líquido de cor forte antes de voltar a atenção a ela. "pelo contrário. estou bastante acostumado a ter mulheres gostando de tudo o que eu faço com a minha boca." ele sorriu, descarado. "por isso gosto de você. da sua honestidade, no caso. é claro que você está tendo alguma dificuldade de separar grosseria de franqueza, porque claramente está pensando que eu queria que agisse como uma boneca sem opiniões na noite de hoje, mas acredito que até o final do jantar você vai entender o que eu realmente quero." tão logo a entrada foi oferecida, mas camilo não deu muita atenção ao trabalhador, apenas agradecendo brevemente após ter os pratos dispostos na mesa sem virar o rosto em sua direção. "bem, isso é um encontro, certo? e já que você está tão disposta a se submeter aos meus caprichos, por que não fazemos isso direito? devemos nos conhecer, já que é para isso que servem essas ocasiões" não era como se ele tivesse um interesse verdadeiramente romântico (ou ele próprio estivesse disposto a falar muito sobre si mesmo), mas ficaria muito mais fácil levá-la para a cama se a conhecesse melhor. para além disso, ela simplesmente despertava nele muita curiosidade mesmo. "diga algo sobre você que ninguém mais sabe." pediu, sabendo que a frase havia sido vaga o suficiente para que ela compartilhasse o detalhe mais irrelevante, se assim o quisesse.
por mais que pudesse parecer injusto — e não acreditava que fosse — , ela sempre colocara camilo na mesma redoma habitada por vincenzo ricci , kadir şahverdi e lorenzo d’amato rizzo , assim como fazia com christopher . homens de poder , cuja riqueza era proporcional à disposição e à tendência para o mal , irresponsáveis com as vidas daqueles que orbitavam sua influência . não era uma convicção da qual estivesse ansiosa por se desfazer — ou pior , admitir que estivesse equivocada . não apenas por orgulho , talvez seu maior pecado , mas por princípios . aceitar que poderia estar errada significaria encarar um abismo dentro de si . ainda assim , as palavras dele a atingiram como um golpe no plexo solar , sugando-lhe o fôlego por tempo suficiente para que faíscas brancas se entrelaçassem às feições contrastantes do ricci . o riso dele apenas intensificava a sensação de fraqueza que se alastrava por seus nervos . como ele poderia proferir algo tão essencialmente oposto a tudo o que nela fora instilado desde o nascimento e seguir como se não houvesse invocado décadas de ressentimentos em seu âmago ?
a capacidade que ele possuía de simplesmente persistir , independentemente da curva dos projéteis que a vida lhe lançava , era excepcional . uma habilidade que , secretamente , neslihan invejava . em sua existência , tudo sempre parecia maior , desproporcional , carregando as distorções de uma psique ainda marcada pelas fissuras do abuso . cada frase dele até aquele momento soava meticulosamente arquitetada por uma parte dela à qual apenas ele tivera acesso — a versão de si que mais desprezava , aquela que ainda se deleitava com afirmações positivas dirigidas a ela , um resquício da infância e adolescência , um fragmento do passado , a única faceta que ousava acreditar que finais felizes eram possíveis , mesmo que exigissem enfrentar todas as adversidades do universo . a gökçe arrancaria o próprio coração antes de permitir que os devaneios da sua antiga persona emergissem . subestimá-lo fora um erro , tanto quanto pensar que poderia manter a personagem que moldaram para ser parte da família ricci — ainda que não nos braços daquele ricci à sua frente . pela primeira vez em muito tempo , viu-se encurralada dentro da própria mente , sem direção definida . camilo era o único capaz de desestabilizá-la daquela maneira , e por vezes ele parecia consciente do fato , regozijando-se com um prazer quase insolente .
seus olhos , antes errantes , evitando-o a todo custo , agora pareciam magnetizados , presos ao polo sobre o qual ele detinha total controle . engoliu em seco , deixando que o questionamento passasse por seu ombro como se não tivesse o poder de fazê-la reconsiderar quinze anos de convicções . já a segunda provocação fez com que uma de suas sobrancelhas se arqueasse em curiosidade contida . ❝ poderia fornecer cerca de quarenta mil refeições solidárias , ao menos quinhentas consultas médicas com os devidos medicamentos , plantar uma média de oito mil árvores e salvar centenas de animais . mas essa em específico , ao menos , você já sabe . ❞ a estimativa vinha do que ela mesma realizara além , administrando parte da fortuna deixada em nome de sua mãe , e intrigava-se com a resposta que ele daria . ❝ mas se mudar a vida de uma única pessoa já terá feito mais do que eu espero de você . ❞ não duvidava da capacidade financeira de camilo , mas questionava sua disposição moral para tal feito . talvez soubesse que duvidar dele fosse o caminho mais certeiro para provocá-lo a provar o contrário , mas guardava a percepção para si , um sorriso discreto curvando os lábios .
❝ jamais me satisfiz com pouco , camilo . apenas escolho quando me deleitar com o que realmente desejo . se me entregasse ao que verdadeiramente me sustenta todos os dias , tudo se tornaria fácil demais… e eu gosto de desafios . ❞ as íris acompanhavam os movimentos alheios , observando-o sorver o líquido carmesim , e , no fundo do próprio paladar , quase podia sentir o aroma intenso do vinho . seu sorriso espelhou o dele , os olhos brilhando com um humor depreciativo diante do tom masculino . ❝ agora , elas , sim, se contentam com tão pouco . são todas tão facilmente impressionadas que um sorriso e palavras vazias bastam para conquistá-las ? ❞ neslihan compreendia perfeitamente a insinuação do ricci , mas não daria a ele o gosto de reconhecê-la , seria um caminho sem volta em mais de um sentido . já preparada anteriormente para o efeito que a comparação entre subserviência e polidez — que ele supostamente não compartilhava — , tomou apenas meia respiração , solevando uma das sobrancelhas . ❝ hm . achei que você preferisse suas companhias maleáveis exatamente para fazer o que quiser com elas . devo ter perdido esse memorando em específico . ❞ àquela altura , qualquer pretensão de submissão havia evaporado no ar carregado entre eles . ❝ o que você realmente quer ? ❞ um pequeno riso escapou . ❝ por que não dizer com todas as palavras ? quem sabe , sendo você o gentil , não consiga o que deseja de maneira mais fácil ? afinal , falam que se pega mais abelhas com mel do que com vinagre . ❞ o ditado não era um o qual acreditava , mas talvez fosse o motivo da distância ácida que insistia em colocar entre eles . não desejava estar presa à doce armadilha de camilo ricci .
o aroma de manjericão mesclado ao vinagre balsâmico, ao pecorino e ao pistache invadiu-lhe o olfato , interrompendo seus pensamentos . aceitou as entradas com um sorriso em agradecimento ao cameriere , antes de elevar a taça aos lábios e saborear o grand cru . um suspiro prazeroso sutil escapou , enquanto seus olhos voltavam ao homem à sua frente . uma pequena risada rompeu sua hesitação . se já estava na chuva , por que não se molhar ? talvez fosse a frase que ainda perambulava entre os tímpanos que recobrava memórias da adolescência , ou a atmosfera envolvente de velas , flores e pratos elaborados que a embriagava , mas sua resposta vinha quase automaticamente , surpreendendo-a pela franqueza . ela percebia o jogo dele . camilo sempre a colocava como adversária apenas para , no final , reivindicar sua vitória e cobrar um prêmio . e , embora o permitisse isso na maioria das vezes , ali a cautela lhe serviria melhor . ❝ passei por uma fase… delicada na adolescência . estive envolvida em um acidente que me fez repensar a vida por inteiro e , naquele dia , ao acordar em um hospital sem saber o que havia causado , escrevi uma carta para minha mãe . nela , supliquei para que fôssemos embora de khadel e deixássemos tudo para trás , mas nunca tive coragem de entregá-la , e… depois , já era tarde demais . ❞
a confissão era um lapso de sua fachada meticulosamente construída , e teria certeza de não cometer outro deslize . levando uma fatia de mozzarella envolta em pesto aos lábios , pausou antes de devolver a pergunta com naturalidade , como se suas palavras não carregassem o peso de uma cicatriz . ❝ há algo que ainda não tenha exposto para toda a cidade e que apenas eu teria o privilégio de saber ? ❞ não esperava que ele se tornasse vulnerável a ponto de revelar algo significativo , mas manter a conversa fluindo era o mínimo . ❝ e já que insiste em transformar isso em um encontro… diga-me , qual foi a última vez que alguém — ou algo — realmente te surpreendeu ? ❞
Olhar para os dois em sua cama, lhe dava uma sensação inexplicável de paz, como se tudo estivesse certo somente com ambos ali. Os braços cruzaram debaixo do peito como se estivesse avaliando suas opções. Não queria passar o dia longe do filho, mas não podia negar que um dia no spa seria ótimo com os últimos estresses que andava tendo. Com o salto da bota, se aproximou da cama, puxando Romeo pelas pernas até a borda do colchão e se agachou na frente dele, sentindo as mãoszinhas tocarem seu rosto enquanto as dela abraçavam a cintura pequena. "Eu vou até o studio com a tia Nes e você espera a gente aqui, tudo bem?" Viu ele assentir empolgado, fazendo um carinho pequeno em seu rosto. " 'Vo fazer um desenho pra você, mamma." A vozinha de criança respondeu, fazendo Graziella se inclinar para deixar um beijo demorado no meio da testa alheia, sentindo toda aquela mistura de sentimentos negativos e positivos quando se tratava do filho. Ficou de pé rapidamente, levando ele até a Ginevra e explicando sua agenda do dia e então virou para a melhor amiga. "Agora sou toda sua."
. . .
Já no spa, não hesitou em entrelaçar os braços com a amiga a fim de entrarem no espaço. A pequena menção a Olivia fez com que a italiana revirasse os olhos mas resolveu não comentar, afinal, era seu dia e não queria perder tempo com assuntos - e pessoas - irrelevantes em sua vida. A risada chegou até seus lábios com as palavras de Neslihan, mas segurou ao olhar para seu encontro, por um tempo antes de responder. "Quero um profissional, por favor." Por mais que fosse divertido fazer massagem na amiga, Graziella tinha certeza não saberia fazer igual a quem realmente trabalha com aquilo. "Homens, se possível. Não quero mulheres tocando no corpo dela." Disse olhando para Nes, deixando que todo o ciúme teatral transparecesse nos olhos verdes. Se era para brincar, que fosse fazendo direito.
o riso veio fácil , dançando nas íris que tremeluziam com humor diante da ênfase teatral e da encenação exagerada da amiga . ❝ ah , não há necessidade de tanta possessividade , vita mia . sabe bem que , neste mundo inteiro , meus olhos pertencem apenas a você . ❞ se afastando sutilmente da mulher , manteve a conexão dos braços , antes de retornar a atenção à recepcionista com um tom conspiratório . ❝ ela anda um tanto territorialista com esses rumores recentes de que somos duas das reencarnadas e precisamos encontrar nossas almas gêmeas… quando , na verdade , já temos uma à outra . ❞ com uma piscadela divertida , voltou a se acomodar ao lado da giordano . ❝ seu desejo hoje é uma ordem . dois dos seus melhores massagiatores , um para mim e outro para a mulher mais deslumbrante da minha vida . ❞ os roupões felpudos , tão macios quanto nuvens , surgiram quase como por encanto, os tomando em mãos , ofereceu um à mais velha antes de se dirigirem aos biombos . assim que envolta na suavidade do roupão , neslihan já podia sentir os nódulos em seus músculos começarem a se desfazer apenas pela confluência dos óleos essenciais que pairava no ar . ao deixar a repartição com uma longa e relaxante respiração , seus olhos captaram de imediato as duas figuras masculinas que as aguardavam . buscando pelo olhar de graziella , encontrou nele a mesma expressão de apreciação estampada em seu próprio rosto. ❝ você não poderia ter escolhido melhor . ❞ com uma risada baixa e satisfeita , seguiu até a maca , deslizando o roupão até a cintura ao se cobrir com o lençol . ❝ os sacrifícios que não faço por você , dolcezza . ❞
Aaron apertou a mandíbula, sentindo o peso das palavras de Nes. Ele odiava quando ela fazia isso—quando expunha as rachaduras da sua lógica como se estivesse apenas apontando o óbvio. Mas ao mesmo tempo, era por isso que ele a amava tanto. Gostava que sua melhor amiga não abaixava a cabeça para ele, mesmo quando estava no pior dos humores. Como aquele, naquela manhã. "Considerar um recomeço?" Ele riu, mas sem humor. "Eu considerei", disse entredentes, sem conseguir conter a frustração. Blackwell precisou fechar os olhos e respirar fundo, antes de continuar a falar, com mais calma. Comedidamente controlado. "Quando ela foi embora, considerei. Durante meses, anos, considerei. Mas tudo tem limite, porque em todas às vezes em que tentei...era como se estivesse tentando agarrar fumaça." Ele desviou o olhar, passando a mão no cabelo e bagunçando todos os fios, um hábito involuntário quando tentava conter a frustração. "Se tinha algo maior impedindo, ótimo. Mas nunca foi algo grande o suficiente pra ela sequer me dizer." Ele odiava falar sobre isso, odiava pensar que sua amizade não tinha sido suficiente para Olivia, enquanto a amizade de Nes sim. Porque cada vez que dizia em voz alta, ficava claro o quanto ainda importava para ele. Quando Nes perguntou por que ele escolheu lidar com Olivia, ele parou por um segundo. Sabia a resposta. Mas não queria admiti-la. "Sei lá", mentiu, dando de ombros. "Eu preferia que ela me evitasse, mas seria péssimo pra minha imagem ficar parecendo que estou recusando clientes. Sou profissional, não posso fazer isso." Ele ergueu uma sobrancelha, como se a resposta fosse evidente. "Ossos do ofício", tentou argumentar, ainda que essa não fosse a verdade inteira. Ainda que soubesse que Nes conseguia perceber a mentira. Ele poderia ter ignorado. Poderia ter mandado outra pessoa atendê-la. Mas não fez. Porque uma parte dele, por menor que fosse, apreciava as raras e pontuais interações que eles tinham.
a respiração que tomava era profunda e carregada de frustração . por vezes , questionava-se sobre o motivo de ainda se empenhar em mediar as tensões entre aquela amizade que , outrora preciosa , agora parecia trazer apenas desgosto . as boas lembranças vacilavam sempre que o assunto vinha à tona com aaron , e, embora ainda resplandecessem em sua mente , a cada dia a vontade de se apegar a elas se dissipava um pouco mais . era uma batalha incessante entre as convicções dele — que , a bem da verdade , eram justificadas — e a perspectiva de olivia , igualmente legítima , até mais dolorosa do que aquilo que ela e aaron haviam vivido . não que neslihan pudesse jamais confessar tal pensamento . não apenas porque sabia que ele interpretaria suas palavras de forma equivocada , mas porque prometera a liv manter silêncio . e , depois de tudo o que haviam enfrentado juntas , pedaço por pedaço dos anos cruéis que as moldaram , quebrar essa promessa estava fora de questão . ❝ sim , você considerou . no passado , e não é essa a questão . estou falando do presente . ❞ era irônico que ela insistisse para que ele deixasse o passado onde deveria permanecer — apenas como memórias — quando , no fundo , ela própria era incapaz de se desvencilhar dele . ❝ ace… pelo contrário , foi muito maior do que ela foi capaz de te dizer naquele momento . ❞ com um longo suspiro , permitiu que os ombros cedessem antes de pousar uma das palmas sobre a dele . a tensão vibrava do amigo como um fio prestes a se romper , e a gökçe detestava vê-lo assim , com os músculos retesados , consumido por emoções que lutava para conter . era como se observasse um reflexo de si mesma — alguém que , mais vezes do que gostaria de admitir , tentava desesperadamente manter a sanidade e os próprios impulsos sob controle .
❝ tenho certeza de que você pensa que a perdoei rápido demais e que , no fim das contas , ela apenas me considerou . mas foram anos . anos até que eu encontrasse uma brecha grande o suficiente para reconstruir parte do que nós duas perdemos . você realmente acha que , quando ela voltou , tudo se desenrolou como se nada houvesse acontecido ? claro que não . e , sinceramente , eu não estaria a defendendo se tudo tivesse sido tão superficial . da mesma forma que insisto em defender você para ela . ❞ apertou suavemente a mão masculina antes de retomar a postura impecável . observou-o por um instante , franzindo levemente o nariz diante do tom e dos gestos que não refletiam verdades , mas apenas uma resistência silenciosa . ainda assim , ofereceu um pequeno sorriso — desprovido de calor , mas de um humor resignado diante do leve absurdo da situação . ❝ aaron… ❞ meneando a cabeça em incredulidade , tomou fôlego mais uma vez , seu corpo inteiro se movendo com a profundidade da respiração . ❝ se você prefere acr— na verdade , esquece . posso te fazer um pedido ? e , como sua melhor amiga de todas as eras , espero que me conceda isso com sinceridade . ❞ após a última mordida no biscotti levou o guardanapo ao canto dos lábios , que relutavam em expressar algo além de descontamento, e hesitou por um instante antes de prosseguir . ❝ da próxima vez que encontrar olivia , pelo tempo que estiverem juntos , tente deixar os ressentimentos do passado no passado . é tudo o que te peço . ❞ alguém teria que ceder . e , naquele momento , apenas ele possuía essa capacidade .
❝ como você disse , tudo tem limite , e há muito venho sendo puxada para os dois lados . não posso me dividir infinitamente , e jamais escolheria um em detrimento do outro — ambos me conhecem o suficiente para deduzirem isso . no fundo , vocês também sabem que ainda há algo que merece ser rememorado , ou não fariam tanto esforço para se colocarem constantemente no caminho um do outro . ❞ não era um ultimato , tampouco uma nova confissão — àquela altura , era uma súplica , e ela ansiava , com todas as forças , que ele fosse capaz de enxergar o significado nas entrelinhas . após sorver o final do ristretto , esboçou um discreto sorriso antes de acenar para a atendente , solicitando o fechamento de sua conta e a de aaron . ele ainda estava no meio da refeição , mas neslihan julgava ter dito tudo o que lhe era possível e não via sentido em prolongar ainda mais as fisgadas que aquele assunto provocava nele . ❝ offro io . ❞ a afirmação veio suave , enquanto seus olhos permaneciam fixos aos dele , carregando um brilho sutil — que esperava ser um equilíbrio delicado entre desculpa e compreensão . ❝ preciso ir , ou o que deveria ser apenas uma hora extra no fim do dia logo se tornará três . buon appetito ! ❞ ao se levantar , passou por ele com naturalidade , pousando levemente a mão sobre seu ombro antes de seguir adiante .