Melian sabia reconhecer o perigo quando ele batia à sua porta. Aqueles olhos não eram humanos — e ela se perguntava se chegavam a ser faéricos. Definitivamente, aquela nobre não se parecia com os que estava acostumada a enfrentar, ao menos não com aqueles que conhecera naquele e em outros reinos. Perguntava-se se seria possível que, em algum lugar, não existissem as mesmas segregações que sempre esperava encontrar.
Embora aquela revelação estivesse além do que antecipara, não havia tempo para permitir que seus pensamentos se espalhassem e escalassem até que perdesse o controle. "Talvez eu o tenha encontrado em Wülfhere." Respondeu, cruzando os braços diante do peito, o rosto ainda marcado por um despeito. Apesar das poucas lembranças sobre o incidente sabia por notícias a seria de coisas estranhas que haviam encontrado.
Não estava assustada com a forma como a situação se intensificara. Talvez estivesse, na verdade, um pouco mais interessada na outra do que deveria. "Nos destroços do incêndio que aconteceu anos atrás."
Melian lançou um olhar ao homem atrás do balcão. Ele deu de ombros, apanhou alguns objetos para polir e se retirou para o fundo da loja, como quem preferia não se envolver. "Não é possível, você diz?" Continuou, voltando os olhos para a nobre e buscando qualquer traço, qualquer fenótipo que denunciasse algo além do humano. "E ainda assim está aqui… Talvez um presente de um nobre para outro. Ou de um militar para outro."
A maneira como a outra se referira ao objeto fez a meio-faérica reconsiderar seu verdadeiro valor. Era algo realmente tão importante? Poderia ser indício de traição? A ponta solta de algum esquema oculto? Era de fato uma peculiaridade, uma pequena esfera valer tanta raiva. "Aparentemente, não é tão impossível assim."
Toda a seriedade que repentinamente tomara conta de Nídha desapareceu tão rápido quanto surgira. Era inquietante a maneira como mudava de humor em questão de segundos. De fato, estivera frustrada momentos antes, e a raiva era real, mas cumprir suas ameaças? Não, era encenação. Havia um fundo de verdade em sua irritação, claro, porém jamais colocaria fogo em nada, por mais que Dragna desejasse o contrário.
— Ai, credo! Odeio bancar a política. — resmungou, sem direcionar as palavras a ninguém em específico. Recebeu apenas um murmúrio entediado de Dragna ecoando em sua mente como resposta.
Ela soltou uma risada alta e animada enquanto se virava na direção do balcão, procurando o dono da loja, apenas para notar que ele não estava ali. As sobrancelhas se ergueram brevemente, mas não se deu ao trabalho de esperar. Seguiu até o móvel mesmo assim.
Enquanto caminhava, levou as mãos ao pescoço e retirou o colar que usava. Uma joia recebida de um nobre humano insuportável, um presente do qual estava mais do que disposta a se desfazer. A peça dourada reluziu sob a luz do ambiente quando ela a colocou cuidadosamente sobre a mesa de madeira. Deu alguns toques firmes na superfície, chamando atenção.
— Seu pagamento! — gritou em direção aos fundos da loja. — Se eu fosse você, pegava logo! — O tom era leve, mas carregava um aviso implícito. O colar valia uma quantidade considerável de moedas de ouro, o suficiente para garantir uma vida confortável a qualquer pessoa simples.
Em seguida, voltou-se para a outra mulher presente.
— Acredite, menina Melian! É impossível! E esse é o problema!
Sem cerimônia, aproximou-se novamente da cavaleira e, antes que pudesse haver qualquer reação, segurou-lhe a mão. Com cuidado quase excessivo, depositou a esfera em sua palma, ajustando os dedos da outra para envolvê-la.
— Aqui. Um presente! — declarou com um sorriso abertamente diabólico, os olhos brilhando de travessura. Inclinou-se levemente, como se compartilhasse um segredo. — Jogue se quiser ver um “cabum” bem grande!




















