o celular velho serve de apenas dois propósitos: trabalho e zara — o que no fim do dia acaba sendo tão laborioso quanto qualquer processo difícil, mas não que esteja reclamando! porque é fato que um é um tanto mais… prazeroso que o outro. a gravata é ajeitada totalmente a contragosto antes de encontrá-la, duas borrifadas do perfume que havia ganho dela no último dia dos namorados, provavelmente algo que não pode pagar, mas que certamente causa uma boa impressão e também disfarça o cheiro de gasolina que impregna seu carro velho e, por consequência, suas roupas. “ qual é a desse velho, hein? ” de fato sua pronúncia peca em transmitir a mesma elegância com a qual tenta se portar ao lado dela, mas ao menos esta é dita contígua à audição feminina apenas pela graça. sua mão primeiro repousa sobre a dela com certa posse, o titilar audível da banda dourada que também adorna seu dedo anelar colidindo contra o anel dela “ bonjour, bonjour… fletcher… sim, noivo da mademoiselle marie. ” tática de guerra, finge falar outro idioma — à sua maneira e regras próprias de gramática — quando é o velhote que tenha puxar conversa com ele, um pouco menos atento à elegância como ela, mas o panzini se convence de que tem o seu charme próprio.
toma a taça da mão dela para dar uma leve bebericada, a atenção especial para ter sua boca sobre a marca de batom sutil deixada por ela no cristal, “ ah, oui, oui… eu me lembro, tu es délicieuse aujourd'hui, ma chérie. ” não se desculpa pelo breve desvio de caráter ao elogiar o gosto dela e não do champanhe. porém perde ao menos um terço de sua marra ao perceber com o que as mãos leves dela se ocupavam, a mão pesada se choca contra o ombro do velho enquanto ostenta um sorriso brilhante em seu rosto, “ muito bom conhecer o senhor! ” o sotaque carregado poderia ser classificado como um jumbo de todos os países do oeste europeu, mas ao menos serviram para distrair o homem, ou assustá-lo, uma vez que poderiam ao menos desfrutar da ideia de solitude entre os ricaços! “ na minha frente, meu bem?! eu já disse ‘pra esperar eu pelo menos virar uns… oitenta graus! ‘pra eu não ser testemunha, porra. ” até porque se fosse para ocupar algum cargo, obviamente seria a defesa dela. “ onde você ‘tá escondendo essas coisas, hein? ‘tá faltando tecido aqui. ” oras, não é ciumento, mas repara e toca com sutileza a parte exposta da coxa ao se aproximar mais dela, o sorriso endiabrado em resposta a provocação dela, “ ‘tá sonhando com isso, né? hmmm. ” porém não trata como algo fora da realidade, afinal, é seu noivo ali, segue os parâmetros de elegância — e chatice! — dali, a beija como um verdadeiro lorde — sem graça e sem língua — para vender seu papel; e porque quis. “ vai pegar na minha bunda ou me roubar? ” questiona sacana quando segura o braço dela, logo dando de ombros porque não era como se tivesse muito o que ser furtado… de modo que decide, por fim, colocar a mão dela dentro do bolso traseiro de sua calça social com um sorriso satisfeito, “ cacete, que jeitinho doce de desmerecer o presente de natal que te dei ano passado. não vale tanto quanto essas bugigangas de… ouro, né? mas tem apelo emocional! ”