Escrito por Tais Tonobohn e revisado por Rafaela Spalding.
Kakariki é o nome Maori (que significa “pequeno papagaio”) dado a várias espécies do gênero Cyanoramphus nativas da Nova Zelândia. Neste post abordaremos especificamente o kakariki conhecido como periquito-de-coroa-vermelha, ou Cyanoramphus novaezelandiae, que é a única espécie tida no momento como pet no Brasil.
Tamanho: O periquito-de-coroa-vermelha é uma ave pequena, maior que um agapornis e menor que uma calopsita. Pesa entre 50-70g.
Foto de Lina e Darwin em @peridotthepear
Cores: Eles existe já em várias mutações, sendo as mais comercializadas no Brasil a cor selvagem verde, verde canela, azul, azul canela e amarelo. Nas mutações azuis, a coroa perde pigmentação e se torna branca.
Foto de Mizu em @mizubluekakariki
Dimorfismo: Machos são geralmente maiores, tem a cabeça maior, o bico largo e mais potente. Essas informações, contudo, não devem ser levadas como regra embora sejam verdadeiras na maioria dos casos. Existem contudo, machos pequenos e fêmeas grandes. Na dúvida, faça ou exija a sexagem da sua ave.
A esquerda Mizu, kakariki macho, e a direita Fennel, kakariki fêmea.
Bico: O bico de um kakariki sempre começa rosado e vai escurecendo conforme ele envelhece. No adulto, o bico é prateado com a ponta preta. Uma vantagem muito atribuída a pequenos psitacídeos é ter o bico pequeno e ser incapaz de machucar. Não se engane! O kakariki é plenamente capaz de separar pele.
Super patinhas: As patas do kakariki são notavelmente grandes para seu tamanho, e suas unhas são bastante longas. Eles tem pés muito fortes, utilizados para ciscar, e conseguem segurar coisas para comer.
Penugem: Esta é mais densa e próxima ao corpo do que a de outros periquitos do mesmo porte. É importante dizer que o kakariki é especialmente vulnerável ao calor brasileiro, sendo uma ave acostumada a invernos de 8° a 14° e verões de no máximo 26° nas ilhas neozelandesas.
Expectativa de vida: Média de 10 a 15 anos, embora existam casos que chegaram a 20 anos.
Alergias: Um dos maiores medos que eu tinha quando resolvi adquirir aves é que meu marido é muito alérgico, e eu não tinha certeza se o kakariki era “poeirento” como cacatuas e calopsitas. Para a alegria dos envolvidos, eles não são, e mesmo depois de muitas mudas de pena, a rinite do rapaz nunca reclamou de nada.
Antes de mais nada é importante dizer que nenhuma ave é igual a outra. Leia essas características abaixo com a consciência de que essa é a ideia geral da espécie, mas sempre existem exceções.
Ritmo acelerado: O kakariki é uma ave aventureira, brincalhona, hiperativa e curiosa. Eles são aves de alta energia e parecem ter uma bateria infindável para se enfiar em qualquer lugar que lhes pareça interessante, isso inclui sua mochila, seu tênis, a lata de lixo, caixas, embalagens, móveis, nichos, vãos entre objetos e parede, etc. Os donos de kakariki devem ter atenção redobrada ao animal solto, pois eles frequentemente ficam em silêncio enquanto exploram.
Periquito de chão: Uma vez que essa ave confie nos arredores, é comum vê-la passeando pelo chão em busca de algo interessante para comer ou brincar. Os kakarikis são forrageadores de chão. Esta é uma ave que se beneficia muito de caixas de escavação, pois suas unhas crescem rápido para acompanhar o comportamento, e se ele não as desgastar com frequência, precisará que o veterinário as corte periodicamente.
Metade pato: Os periquitos neozelandeses amam água. Eles tomam banho todos os dias, se dada a oportunidade. Acostume o seu kakariki desde bebê a tomar banho em um prato ou bandeja, e ofereça sempre. Se privados da oportunidade de banho, eles vão encontrar seus próprios métodos, seja se enfiando no pote de água, seja se jogando dentro de uma panela que estava de molho na pia (experiência própria).
Para a família toda: Você já deve ter ouvido que algumas espécies de psitacídeos escolhem apenas um humano para amar, e não gostam de todo o resto. O kakariki é uma ave muito sociável e destemida, que se acostumada, faz amizade com todos os membros da casa e ativamente busca interagir com eles. Minha experiência pessoal é de que se socializado com frequência, não é uma ave que se estressa com visitantes e estranhos.
Independente: A alta energia do kakariki faz com que ele esteja sempre em movimento. Se você está buscando uma ave que fica paradinha no colo recebendo carinho, essa definitivamente não é a ave para você. O kakariki não costuma gostar de carinho inclusive. Suas penas são bastantes frágeis ao desgaste, e eles evitam serem tocados. Porém, é uma ave que quer participar de tudo que está acontecendo na casa, ver tudo que você está fazendo, comer tudo que você come, mexer em tudo que você mexe. Eles são extremamente curiosos e adoram estar presentes.
A voz mais fofinha: O kakariki é uma das poucas aves de pequeno porte capaz de aprender a “falar” com considerável clareza (leia-se imitar fala humana). Como em toda espécie, é o macho que tem o maior vocabulário, mas as fêmeas também podem aprender. A voz do kakariki é aguda e um pouco nasal, falo que parece um patinho de borracha, mas tem quem compare com o Yoshi do Mario Bros. Aqui um vídeo de um mocinho falando.
Bons provadores: Embora não seja a verdade sobre todos os indivíduos (e nem sobre todas as comidas), kakarikis no geral não têm dificuldade para provar coisas novas e comer o que lhe é oferecido. Se acostumados desde pequenos com a ração, sementes e legumes, eles tendem a não ser inquisitivos.
Foto de Mizu em @mizubluekakariki
Ao mesmo tempo que é uma ave durona que não fica doente fácil, existem alguns problemas que mais comumente chamam atenção na comunidade internacional. Infelizmente tudo que temos são informações mencionadas em fóruns e grupos, com pouco estudo real em cima. São eles:
Convulsões: A Nova Zelândia, lar dos kakarikis, é um dos poucos lugares no mundo onde praticamente não existem mamíferos, apenas morcegos e mamíferos marinhos. Isso faz com que o kakariki tenha poucos predadores naturais, e tenha, por consequência, poucos mecanismos para lidar com stress. Alguns tutores reportam que seus kakarikis chegam a entrar em um transe acompanhado de convulsão logo após algum evento estressante simples como corte de unhas. Por isso é muito importante acostumar os filhotes ao toque e manuseio.
Problemas de coração: Há quem diga que esses foram causados por problemas genéticos no início da domesticação do kakariki. Donos reportam que a ave teve morte súbita, muito possivelmente causada por complicações cardíacas.
Problemas de pena: Causada por ácaros invisíveis ao olho nu, essa condição faz com que o kakariki comece a perder penas e ter pontos pelados no corpo, geralmente iniciando no rosto e ao redor dos olhos. É um estado extremamente incomodo que deve ser tratado com o veterinário o mais rápido possível.
Aspergilose: Criadores dessas aves relatam que elas parecem mais suscetíveis ao fungo causador da aspergilose do que outras espécies mantidas em cativeiro. O problema geralmente depende da existência de esporos na área onde vivem.
Kakariki com problema de ácaros, retirado de Kakariki Paradise.
O que não te contam na Internet
A informação sobre kakariki pet aqui no Brasil (e no mundo na verdade) é muito escassa. Muito do que aprendi foi com uma criadora inglesa que os teve por anos, e com amigas que me ensinaram sobre suas próprias experiências (créditos para @mizubluekakariki e @peridotthepear). Aqui quero deixar algumas informações que fui adquirindo apenas posteriormente, e que não vejo divulgadas com frequência:
O kakariki é sexualmente maduro com 5-6 meses. O que significa que a fase bebê passa extremamente rápido (minhas duas kakarikis desmamaram da papinha com menos de 50 dias), e o animal logo começa a exibir comportamentos sexuais. Os donos de kakariki precisam se adequar a essa velocidade, porque alguns afagos e algumas práticas não são adequadas com animais adultos. A espécie fica hormonal com facilidade, pois é uma excelente reprodutora e pode ter filhotes ao longo do ano todo se o clima for propício. Gatilhos hormonais precisam ser duplamente evitados.
Existe uma probabilidade do kakariki macho passar por um estágio de agressividade. Muito se fala sobre a bipolaridade do ringneck, especialmente quando passando pelo estágio hormonal, onde um dia o bicho te ama e no outro quer te agredir. Embora existam muitos casos de kakarikis machos que amadurecem sem grandes mudanças, alguns deles passam por um estágio similar ao ringneck entre 5 meses e 1 ano de idade. Nessa fase ele pode ficar territorial, proteger a gaiola ou locais que ele vê como ninho, proteger brinquedos, não permitir proximidade, dificultar a troca de potes e limpeza da gaiola, entre outras coisas. O kakariki dá vários sinais sonoros e visuais de que está irritado, mas uma vez que resolva te machucar, ele avança muito rápido, e é difícil de puxar a mão a tempo. O estrago não é grande, mas dói. Felizmente, depois de 1 ano de idade parece que os hormônios assentam, e ele vai aos poucos voltando ao normal. A fêmea não costuma passar por esse estágio.
Se te disseram que o kakariki é quieto, é uma meia-verdade. Ao contrário de periquitos australianos e calopsitas, o kakariki não vocaliza o tempo todo. No geral, se ele estiver entretido, ele estará quieto. Se ele estiver falando com você, os sons também não são altos. Mas ele é plenamente capaz de gritar, e se ele achar que deve, ele VAI. Na minha experiência, não é alto o suficiente para ser ouvido de fora de casa, o que faz com que seja um bom animal se você tem vizinhos “sensíveis”, mas dizer que é um animal quieto, para mim, é subestimar as cordas vocais desses carinhas. O som parece um carneirinho, são vários “eh” entrecortados, aqui um vídeo que mostra bem.
Eles fazem sujeira. Muita sujeira. Você vai dizer “Ah, Tais, mas todo psitacídeo faz sujeira”. Verdade! Mas raros são os psitacídeos com força suficiente nas pernas para chutar a comida num raio de metros ao redor da gaiola. Kakarikis ciscam, e eles ciscam em tudo, inclusive na água, na ração, nos legumes. Você vai ter que se acostumar a procurar projéteis de comida, e vai se juntar ao clube dos que choram a ração derramada (Megazoo tá cara, gente).
Alta energia e baixa atenção. Esse talvez não seja um tópico importante para muita gente, mas foi para mim, e eu não achei a resposta em nenhum site, eu descobri na experiência. Kakarikis são sim mais difíceis de treinar, porque a hiperatividade deles causa uma janela de atenção menor (eu falo que se transtorno de atenção e hiperatividade fosse um passarinho, seria um kakariki). Mas se isso te importa, fique tranquilo, é plenamente possível! Você só precisa tornar as sessões mais curtas e mais espaçadas, e realmente saber ler os níveis de motivação do serelepe. Eles adoram atividades que gastem energia, então o interesse muitas vezes compensa pela falta de atenção.
Uma das coisas que mais penei antes de adquirir meu kakariki foi o que deveria comprar, porque muito se encontra na internet sobre ideais para calopsita, mas eu não tinha certeza do que era ideal para um kakariki. Hoje, um pouco menos perdida, eu posso te dar uma ideia!
Ração: Eu sempre vou recomendar MegaZoo pelo tamanho genial dos grãos que (na minha opinião) torna muito mais fácil a aceitação por aves cuja dieta é majoritariamente sementes, mas no geral a ração pode ser qualquer uma que sirva para calopsita. Evitem rações com conservante, corante, e com frutas secas junto. Não que eles não possam comer frutas, mas deve haver moderação. Kakarikis já tem uma energia interestelar, imagine se açúcar fizer parte da dieta diária deles.
Sementes: A dieta de periquitos em geral deveria conter, ainda que com a devida parcimônia, sementes. Na natureza os kakarikis tem uma dieta muito variada, e comem bastante para compensar sua natureza irriquieta. Aqui em casa eu preparo um mix com iguais partes de: quinoa mista, linhaça marrom, chia, aveia, painço sem casca e cevadinha. Eu complemento periodicamente com flores comestíveis, semente de coentro, mostarda e pimenta seca. Tente manter as porções de semente a aproximadamente 10-15% da alimentação diária deles.
Legumes: Nesse quesito pode seguir listas de confiança do que psitacídeos podem consumir (temos uma aqui no blog). Meu único adendo com o kakariki em específico seria que as minhas parecem preferir coisas que elas consigam segurar com o pé, então eu indico picadinhos mistos (chop), ou pedaços tamanho ervilha.
Proteínas: Na natureza a alimentação dos kakariki consiste em aproximadamente 5% de invertebrados. Eles comem mais proteína animal que outros periquitos. Dessa forma, acho importante ofertar, se não insetos de biotério, pelo menos um pedacinho de ovo cozido por semana.
Brinquedos: Existem exceções mas na minha experiência eles se desmotivam rápido com esses brinquedos de bloco de madeira maciça, que são recomendados para aves grandes, de bicos potentes. Cascas, cortiça, palitos, papel, papelão, cork bark, solla, madeiras macias no geral, são mais interessantes.
Gaiola: Esse foi com certeza meu maior “Ops”. Eu tinha uma gaiola de tamanho decente para uma calopsita, e achei que seria ótimo para um kakariki que é menor. O que eu descobri é que a gaiola deve ser coerente com o tamanho da energia do bicho, não só do bicho em si. Hoje eu tenho uma gaiola que serviria para um ringneck, e eu posso afirmar com certeza, ela usa TUDO. Quem me segue no Insta vê que ela anda até nas parede e no teto. Você não precisa pegar uma igual a minha (é essa aqui), mas tente pensar em uma que valha para uma ave o dobro do tamanho do kakariki!
Enriquecimento: Aqui você pode seguir o que já sabe de aves do porte (poleiros, balanços, etc), porém quero reiterar, acho caixas de forrageamento essenciais para eles. “O que é isso, Tais?”, é basicamente uma bandejinha cheia de tralhas seguras, onde ele possa cavar e fuxicar. Algumas lojinhas vendem já prontas, mas você pode montar a sua com qualquer coisa que seja segura, de verdade. Se você adicionar pedras de rio (higienizadas por favor) ou até aquelas bolinhas de argila para jardinagem, você vai ter muito menos trabalho cortando unhas, porque as pedras ajudam a desgastar!
Bandeja de forrageamento. Retirado de Queenslander Aviaries
Custos e um Aviso Importante
Para finalizar, muita gente me pergunta onde adquiri meu kakariki e quanto paguei. O valor como toda ave depende da mutação. Esses são os valores atuais (2023) no criador onde adquiri as minhas, anilhadas e legalizadas, a Exotic Bird Store:
KAKARIKI VERDE CANELA - R$900
KAKARIKI VERDE ARLEQUIM - R$950
KAKARIKI AZUL CANELA - R$1.100
KAKARIKI AZUL ARLEQUIM - R$1.400
KAKARIKI AMARELO - R$2.000
Eles entregam gratuitamente na WildVet em São Paulo/SP, mas também enviam por transporte. Paguei cerca de R$120 para me trazerem em Jundiaí/SP.
Embora eu não possa recomendar a Exotic Bird o suficiente, existem hoje muitos criadores de kakariki no Brasil. Lembre-se sempre de procurar um criador legalizado pelo IBAMA, que te forneça Nota Fiscal.
Aves sem nota são ilegais, não importa o que digam (na dúvida, leiam a legislação na íntegra). Sem a nota você é incapaz de levar sua ave de avião ou ônibus para qualquer lugar, pois a companhia exige, e acima de tudo a nota é prova de que houve transferência de posse do criatório para você, pessoa física. Sem ela, tecnicamente, a ave continua a pertencer ao criatório que te “vendeu”, e pode ser recolhida caso te denunciem e o fiscal esteja num dia ruim. Não caiam nesse papo de “vem com certificado” ou “depois te mando a nota”, hein galera?
O kakariki é uma avezinha peculiar, que assusta quem já está acostumado com aves mais calmas como calopsitas e periquitos. Ele é elétrico, veloz, radiante, ele quer o que quer e quer agora. E apesar de tudo, ainda é uma criaturinha incrivelmente companheira, querida, que está disposta a te incluir em tudo (e se incluir em tudo também).
Se você se julgar uma pessoa certa para o seu kakariki, eu tenho certeza que o seu futuro te reserva alguns sustos, comida pra todo lado, mas principalmente, muitas risadas e um amorzinho serelepe como nenhum outro.
Obrigada por ler até aqui!