Calor de longe
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Calor de longe
Red, black and sea
https://youtu.be/OPPP3BXurHk
CINERAMA
Dynamics
1964/2016 - CONTROL: Cadeira do Dragão.
1964/2016 - CONTROL: Palmatória
1964/2016 - CONTROLE:
1) Pimentinha
Ao Brasil.
Sci-Fi
Ele era o cara do Sci-Fi. Não era “cool”, “slick” ou “deep”. Nem tinha um penteado bacana, ou casaco de gringo. Não saía fumaça das calçadas por onde passava.
Mas pensava no passado. Tinha arrependimentos. Sentia rancor. E imaginava um outro futuro. Como muitos imaginavam: ou rolava uma sociopatia ou estavam certos. O futuro diria. E ele esperava sempre o milagre do presente: não adiantava, “eu sou barroco”. Esperava as pernas vindo em estrelas múltiplas pelas sombras. Em sua direção. Bem, como eu disse: esperava o milagre.
E ele sabia que o milagre tinha preço: eles não acreditavam em milagres. No futuro, ainda acreditavam que alguém viria salvar. Então cobravam o preço. E como em todo final de Sci_Fi, sempre valia a pena pagar.
Hoje a noite eu percebi uma coisa: é sempre bom ter um charuto em casa. Assim, quando o cigarro acaba no meio da madrugada, tem sempre aquela última solução pra apagar os incêndios da memória.
Cover de BORN ON A TRAIN - The Magnectic Fields
Cover de LONDON LONDON - Caetano Veloso
Furacão Maria
Providenciales, Turks and Caicos, 19/09/17.
Os dias têm passado devagar. Os objetivos não são muito claros. É uma grande espera. Uma espera para que bairros sejam reconectados à rede pública de energia, para que pessoas que conseguiram deixar o país antes da chegada do Irma retornem a ilha, para que serviços retomem o funcionamento, prejuízos sejam calculados e materiais de construção cheguem de navio. Mas se espera-se por um balanço final sobre a herança deixada pelo Irma, espera-se mais ainda por uma definição mais precisa das intenções do próximo furacão que aguarda na fila, o Maria. A grande maioria das últimas previsões são encorajadoras, mostrando o Maria cruzando a nordeste de Providenciales, a kilômetros de distância. Assim sendo, podemos esperar por ventos mais fracos. Quem sabe até ventos que não passem de uma tempestade tropical, na casa dos 90km/h. Claro, longe de ser qualquer bolinho. Mas comparados aos ventos de 200mph que experimentamos com o Irma, serão muito bem vindos. Muitas das construções aqui não suportariam um Irma II...
Esperar se espera, mas não sentado. desde a passagem do Irma o que se vê é reconstrução. Principalmente dos telhados e coberturas dos edifícios. Em maior ou menor grau, a verdade é que todos têm algum reparo a fazer. E a escassez de materiais é clara. Membranas elastoméricas e afins viraram artigo de luxo. Daí se improvisa com o que dá. Compensados, plásticos e lonas.
Hoje passei a tarde ajudando um colega do trabalho a consertar o telhado da casa da mãe, lá em Blue Hills. Peregrinamos de carro por ruas e pequenas aglomerações de gente consertando alguma coisa. Conversamos com um ou outro. O vizinho, a prima, o conhecido... E assim o colega foi descolando uma escada aqui, um rolo de plástico ali e etc. Foi me caindo a ficha e percebi que há de se ter muito respeito nessa hora. Eu só estou aqui de passagem. Essas pessoas nasceram, cresceram e conhecem a vida pelos olhos de quem, a cada 10 anos, precisa reconstruir a própria realidade, sem direito a fuga para o paraíso. Eu então me lembrei da conversa que tive com meu vizinho Trevor, aqui da casinha ao lado, horas depois da passagem do Irma (ainda não sabia dos últimos acontecimentos no México). O maluco do Trevor e seu filho, o Trevor Jr (sic), resolveram ficar por aqui mesmo durante o furacão. Ainda meio que na adrenalina da situação ele me perguntou qual era a parada no Brasil? Furacão, terremoto, nevasca, tsunami...’ Eu respondi que a gente não tinha parada nenhuma. Sob o olhar incrédulo e quase ofendido do Trevor, pensei melhor e fiz um resumão dos últimos dois anos no Brasil. O Trevor então ensaiou um sorriso e respirou aliviado. ‘Tá vendo? Todo mundo tem a sua parada’. É Trevor, todo mundo tem a sua parada...
PS: Hoje eu descobri que o meu telhado, feito de telhas de asfalto, não teve um desempenho tão surpreendente assim. Uma chuvinha que tivemos de 15 minutos foi o suficiente pra que eu chegasse em casa e encontrasse minha cama bem ensopadinha e o forro de gesso mostrando novas rachaduras. Amanhã vai ser dia de invocar os deuses da gambiarra brasileiros, subir no próprio telhado e dar aquele tapa geral.
Furacão Irma - 4
Providenciales, Turks and Caicos - 1/09/2017
O furacão já é passado, em vários sentidos. O que importa é o que fica. Noves fora, nenhuma vida perdida nas ilhas do país. Das destruições imagináveis, a real é a menor possível. Para boa parcela da população, isso significa danos reparáveis nas casas e construcões, rede pública de abastecimento de água com problemas pontuais (mas em funcionamento) e rede elétrica precaria. Essa última sim, foi bastante afetada. Em alguns lugares já há fornecimento de energia, em outros, vai demorar semanas, talvez meses. A fiação aérea não ajudou em nada pra minimizar o problema. Há bairros inteiros onde não sobrou nem um único poste. Há ruas intransitáveis, frente a verdadeira teia de aranha formada pelos fios de alta tensão. Por conta disso, as filas se formam nos poucos postos de gasolina que sobreviveram aos ventos. Oferta reduzida e demanda aumentada, por conta de todos os geradores portáteis em funcionamento ilha a fora.
Agora eu entendo a quase total falta de árvores de porte maior na ilha. De furacão em furacão, não há tempo para que cresçam. A vegetção passou de verde para marrom, apontando para a mesma direção, congelada no tempo. Como um registro fotográfico.
A comunicação também é bastante precária. Algumas torres de telefonia desabaram. Das duas operadoras de celulares, apenas uma segue em funcionamento: a que chegou primeiro. Explico: a primeira companhia que começou a operar na ilha, há anos atrás, detém toda a infra-estrutura. Algum tempo depois, o governo abriu licitação para uma segunda operadora, a fim de evitar o monopolio da primeira, e obrigou a que já existia a compartilhar sua infra-estrutura com a nova concorrente. O que se segue é que em situações como a atual, a primeira operadora se aproveita do fato de que a rede está comprometida pra sabotar comercialmente a segunda, criando todos os impedimentos “técnicos” possíveis para inviablizizar o compartilhamento da infra. E os usuários pagam o pato. Prova disso é que durante as primeiras 24 hoas pós furacão eu, que sou usuário da segunda operadora, pra minha surpresa continuei usando meu celular normalmente. Depois disso, nada (nesse exato instante, estou usando o Wi-fi do escritório).
Eu havia dito que para boa parcela da população a destruição é a menor possível. Mas para uma segunda e terceira parcelas a história foi outra. Five Cays, o bairro a sudoeste da ilha onde vive a comunidade de refugiados haitianos, levou a pior na história toda. Dei uma volta por la no dia seguinte ao furacão, logo que o acesso foi reestabelecido, e entendi finalmente o caos que ele pode causar. Five Cays nada mais é do que uma favela. Construída sem nenhum suporte do poder público, Five Cays era um emaranhado de casebres precários de madeira. Ainda tenho muito pouco conhecimento da história da ilha, mas imagino que o bairro tenha sido ocupado de forma vertiginosa, após o terremoto no Haiti em 2010. De dentro da minha torre de marfim 4x4, costumava ser fácil achar o bairro o lugar mais interessante da ilha. Visualmente, culturalmente... aquelas coisas. Agora, Five Cays é apenas um emaranhado. Um emaranhado de tudo: de escombros, de fios de alta tensão, de pedaços de postes, de roupas secando no arame farpado, de esgoto. E passeando catatonicamente por cima de tudo isso, os haitianos.
A outra área também devastada foi Blue Hills. Apesar do nome, Blue Hills é um bairro beira-mar, esparramado na costa noroeste. Junto a Downtown, é onde vive a maioria dos locais da ilha. Não tivemos a chuva e a elevação do nivel do mar esperados, mas o vento fez o serviço. De lá, só tenho notícias. Não consegui atravessar a inundação na única estrada de acesso pra checar o local no dia seguinte ao furacão. Mas as noticias não são nada boas. Diferentemente de Five Cays, Blue Hills é um bairro tradicional antigo, composto de casas de alvenaria bastante simples. O problema é que a grande maioria das casas ali foram construídas alheias ao código de obras local, sem as medidas anti-furacão necessárias. As paredes ficaram, mas os telhados não. De forma geral, a falta de fiscalização nas construções é apenas mais um detalhe da informalidade de como as coisas são geridas na ilha. É preciso entender que Turks and Caicos é um país absurdamente novo, que vem passando por um boom de desenvolvimento nos últimos 20 anos, se tanto. As instituições políticas ainda estão em formação e não conseguem acompanhar a sempre crescente demanda da sociedade. Sobre isso, acrescenta-se a atuação corriqueira de indivíduos e grupos econômicos corruptos, provavelmente em esfera mundial, que se aproveitam justamente da inexistência de regulação e da valorização instantânea do preço de metro quadrado de terra por aqui. Enfim, como me foi dito assim em que pisei do lado de fora do aeroporto, bem vindo ao velho-oeste.
Venho sondando as possibilidades que tenho pra contribuir de alguma forma em alguma ou qualquer coisa, mas a perspectiva não é lá essas coisas. Ainda é difícil ser exato, mas a pacífica convivência que existe na ilha entre caiçaras negros e visitantes brancos tem um limite, que aos poucos vai se mostrando um limite bem delineado. Se por um lado a vida aqui me possibilita enxergar claramente o racismo velado brasileiro e ter a sensação de que cor da pele e procedência pouco importa por aqui, por outro lado vou aos poucos aprendendo que a coisa não é bem assim. Talvez nem um pouco assim. Passado o deslumbramento inicial, e algumas portas na cara, vou entendendo que a ilha é um velho caldeirão em fogo baixo, e cheio de rachaduras. Para o bem e para o mal, a cultura do individualismo impera por aqui. Talvez por influência e proximidade dos yankes. Brancos e negros convivem normalmente, naturalmente, solo que no. Há também o racismo de negros com negros. Como sempre, os haitianos são a escória... Enfim, mais do mesmo. Mas fair enough, antes de sair por aí pagando de Gandhi e acariciando minhas pequenas culpas burguesas, talvez eu precise entender qual é o meu lugar aqui, por quanto tempo e porquê. Ou não.
PS: As fotos falam por si, com a exceção das duas últimas. Encontrei esses caras no terreno da minha casa, poucas horas depois da passagem. Ainda chovia, ventava e fazia frio. A competição era quem conseguia se enfiar o mais pra baixo da pedra possível, o mais protegido possível. Observando a cena meio de longe, o figura dentro do tijolo foi anos-luz mais esperto. Depois fui descobrir que eles eram os filhotes da Isabel, uma das cachorras da rua, que eu achava que havia sumido umas semanas antes. A Isabel tem outro nome na verdade, que nunca consegui entender. Daí pra mim é Isabel mesmo. Porque ela tem cara de Isabel. Ah sim, e está tudo bem com a Isabel e o Mário. O Mário é o marido. Da Isabel.
Finalmente, minha(s) Cuba(s) Libre(s) de aniversário! A primeira Cuba Libre a gente nunca esquece. :)
Furacão Irma - 3
Providenciales, Turks and Caicos - 08/09/2017
Acabamos de retornar pra casa onde estávamos. Pouca bateria no celular, sem água, sem energia. Mas estamos todos bem. Os acessos estão difíceis, mas vou tentar chegar até a minha casa pra verificar a situação por lá.