[JORNALISMO] Feliz Ano Novo, passageiros de um voo qualquer
A atendente da linha aérea Azul estava com uma cara emburrada no balcão de check-in no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, interior de São Paulo. Também pudera, ela poderia estar em casa neste momento, comemorando o primeiro dia do ano com a família e amigos. É uma manhã, então poderia muito bem estar dormindo após um porre de Champagne nas areias da praia Joaquina, na Ilha da Magia. Ou, na pior das opções, lambuzando-se de chocolate, direto da panela, em frente à televisão, assistindo ao Show da Virada na Globo. Um especial do Roberto Carlos, então, não cairia nada mal.
Seja qual fosse a opção, a moça de cabelos negros, presos em um coque, não parecia estar muito feliz ao pedir a identificação aos viajantes e pesar a bagagem de cada um na balança. Por isso mesmo, fui compreensiva ao receber um “Feliz Ano Novo” sonolento e rabugento. Um 2012 não muito bom começou na vida daquela jovem. Peguei a documentação para embarque e fui aguardar o horário do voo em um dos bancos do aeroporto, próximo à uma lanchonete cujos sanduíches naturais custavam o preço de um almoço em um restaurante de elite.
Olhei para as portas automáticas se abrindo para os passageiros entrarem com suas malas de rodinhas. Lá fora fazia um dia bonito. O ar do interior paulista sempre me agradou. Não era como Joinville, cidade do Planalto Norte de Santa Catarina, meu destino. A umidade da cidade fazia os verões ficarem insuportáveis, a ponto da sombra de uma árvore ser tão agradável quanto correr uma hora com um sol de meio-dia pelando a cabeça a 35° C (na melhor das ocasiões). Suspirei e olhei ao redor...
Existem vários tipos de pessoas dentro de um aeroporto, vindas de lugares diversos, carregando, além das bagagens, sotaques distintos. Em cerca de cinco minutos, consegui mergulhar no universo baiano e gaúcho. Diga-se de passagem, muito mais baiano do que gaúcho. Mas o que mais surpreende é quantidade de orientais – não saberia distinguir um chinês de um japonês nem se eu estivesse usando meus óculos, guardados muito bem ao lado de “À Espera de um Milagre”, do Stephen King, dentro da minha bolsa. Eles surgiam como se usassem teletransporte: em todos os lados, chegavam sorrateiramente, sempre silenciosos e austeros. Na escada rolante, um “olho puxado” aparece e, com o ritmo lerdo da descida, surge, aos poucos, mais um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete! A família inteira, desde o avô com cabelos brancos até a criança por volta de seus dez anos, decidiu viajar (ou retornar ao lar) no primeiro dia do ano.
Nas telas das televisões instaladas no aeroporto, poucos voos tinham o status “cancelado”. Era um primeiro dia do ano nem tão turbulento para funcionários e passageiros. Enquanto os primeiros usavam seus uniformes de sempre, o vestuário de quem transita pelo piso cinza e mal encerado é variado. Desde uma calça jeans surrada com uma blusa básica até a roupa branca, típica do Réveillon, de gente que não dormiu e veio de chinelos Havaianas correndo para não perder o voo. Ah, a correria de começo de ano! Na sala de embarque, nomes são citados em um microfone procurando por um André, João ou Rosana da vida.
- Você não tem nenhum dinheiro para me emprestar? - indagou a mulher, ao telefone, falando tão alto, que a pergunta parecia ser direcionada para mim do que à pessoa do outro lado da linha.
A resposta não pareceu ser muito positiva. Chateada, ela franziu a testa, escutando. A moça, com seus trinta e tantos anos, não queria uma grande quantia, só o suficiente para, após pegar o voo, ter recurso financeiro para tomar um ônibus e chegar na sua cidade. Não voltaria para a casa da família, nem do ex-marido, que, aparentemente, deixou-a por outra.
- Não é muito. Posso pegar com você no aeroporto? Eu te pago aos poucos, mas te pago, eu prometo.
Foquei minha atenção em outra conversa telefônica. Não pelo assunto ser mais interessante, mas pela própria voz da pessoa que conversava. Uma voz masculina, mas afeminada, falava com seu amor - “amor”, aliás, foi uma palavra muito citada no diálogo. Um amor que aparentemente acabou em 2011. De novo, a traição falou mais alto nas conversas de celular: o “amor” foi literalmente trocado por outro.
Entre amores trocados, o próprio Woody Allen aparece quando o assunto é traição. Ou, pelo menos, a cópia de um Allen mais novo, dos tempos de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” ou “Desconstruindo Harry”. Com o cotovelo direito apoiado no braço da cadeira e a mão segurando o queixo, a cópia do cineasta ouvia atentamente o que dizia sua acompanhante, uma jovem loira e magra. Peguei o celular e, com o faro de uma jornalista (ou fã), já me preparava parar tirar uma foto com a figura, quando anunciaram a abertura da sala de embarque do voo para Joinville.
Dei de ombros, como se não tivesse perdido grande coisa mesmo, peguei a bolsa e fui passar um longo tempo na sala de embarque. Como anteriormente mencionado, Joinville no verão é insuportável, tanto quando faz sol ou quando chove. No momento, não parava de chover e a nebulosidade impossibilitava qualquer avião de partir ou pousar no Aeroporto Lauro Carneiro de Loyola. A situação mudava a cada cinco minutos, fazendo os passageiros, inclusive esta que vos narra, entrarem e saírem do ônibus que leva às aeronaves, como robôs em tilt.
Após o voo sair e ficar rondando o céu catarinense por mais de uma hora na espera de condições boas de pouso, finalmente desço as escadas do avião em clima de poucos amigos e com o sono inchando os olhos. O pouso, para variar, foi brusco como sempre: quando diabos iriam aumentar o tamanho da pista?
Depois de pegar a bagagem, passo pela porta automática, despedindo-me de aeroportos, onde vidas se encontram rapidamente, quase sempre com bagagens de mão e revistas de entretenimento debaixo dos braços, para se despedirem com hora e destinos marcados (ou atrasados). Além dos 630 empregados, cerca de duas mil pessoas passam por dia nas imediações do Lauro Carneiro de Loyola. Por mês, cerca de 42 mil pessoas circulam pelas 22 lojas do terminal de passageiros e pelos 12 balcões do check in. Mas hoje, são poucos os gatos pingados no local. Faltam até taxistas. Ao sair, olho para trás e avisto um senhor sentado no banco de espera, pronto para embarcar. Penso, quase acenando:
- Feliz ano novo, passageiro de um voo qualquer!
(Texto escrito para a aula de Redação Jornalística 6 - 2012. Segundo a professora Marília Moraes, um bom texto de jornalismo gonzo "comportado", ou seja, sem envolver drogas. Desculpa aí, Hunter Thompson!)