Não consigo desacreditar na vida por mais de um dia. Não consigo desistir de uma pessoa. Nem de um caminho. Ou de uma pedra. Minha consciência é um bicho teimoso que me persegue se eu não seguir esse instinto. Não consigo ser racional. Não consigo fazer contas. É claro que já quebrei a cara. Uma vez foi por querer ir além ao lado de uma pessoa que não estendia a mão, que não queria se desfazer de seu quarto ou de seus livros. Já chorei por acreditar que uma pessoa com o coração congelado poderia (re)amar, e depois, ver que não é nada simples. Achei que poderia se entregar sem mentiras, sem rancor, aceitando os erros. Já tive rancor. Me despi. Já menti e fiz papel de tola. Já fiz papel de atriz. Já interpretei o papel da solitária. Já chorei por amar e acreditar no meu Brasil, e olhar em volta e ver que as pessoas estão destruindo as nossas preciosidades. Mesmo assim, não quero me mudar para o Canadá. Eu acredito na Mata Atlântica. Eu acredito nos oceanos. Só não acredito que vão me ajudar a cuidar dos nossos bens. Mas tudo bem, eu me viro sozinha. Eu tenho um amor pela vida que arde em mim. Meu coração é constantemente atacado, invadido. Dia após dia. Noite após noite. Pelo fogo, pelo sistema, pelo desamor. Eu não consigo desacreditar na força da música. Por mais que o samba às vezes desafine. Não quero, apesar disso, ir em outro baile. Deixa eu dançar do meu jeito. Não posso viver sem abraços, que eu já me sinto fraca. Não consigo ver sorrisos de artifício, eu fecho os olhos. Não vejo graça nos fogos de artifício. Ver o céu queimando. Pra quê? Você não nota as estrelas? Eu tenho medo de astros. Eu tenho medo do infinito que brota da vida. Eu tenho medo do vento. Eu sou uma mosca. Eu preciso, apesar disso, sentir o vento e o extremo. Quando meus pelos se arrepiam… sabe, gosto de me sentir tocada. Eu tenho medo do mundo e das palavras que eu engoli. Preciso conviver com meus medos. Dia após dia. Noite após noite. E já não são mais medos. São sensações diferentes. Que aos poucos se transformam em vibrações boas. A música que ouço agora diz: você não vê que eu sou só um menino desses tais que pensam demais? Logo mais, vou correr atrás de ti. Vai ver eu vou pra Minas comer pão de queijo. Vai ver viro astrônoma. Você sabe, eu prefiro a biologia. Vai ver eu esbarro com alguém de brilho no olhar forte o suficiente pra suportar esse coração cheio de urgências. O que mais posso dizer sobre mim, Colombina? Sou um palhaço de rosto pintado, e pés tortos.