24 de dezembro de 1977 e, como em todos os anos antes desse, Mike deixou suas compras de Natal para a última hora. Muito mais por falta de tempo e dinheiro do que por falta de responsabilidade. Seu salário só caíra na conta há menos de uma semana e desde então seus dias foram atribulados demais para que pensasse em fazer qualquer coisa a não ser se jogar na cama e dormir após o expediente. Ainda estava exausto, mas não tinha mais como adiar. Não podia deixar a filha sem presente. Seriam dois presentes, afinal – um para o Natal e o outro para seu aniversário. Era difícil acreditar que sua filha já ia fazer um ano. Que fazia um ano que era pai de outro ser humano. Bem, as coisas costumam funcionar assim, mas nem por isso era menos surpreendente. Jamais poderia esperar que fosse ser pai tão cedo. Jamais poderia esperar que se acostumaria tão rápido à ideia.
– Ela vai fazer um ano – informou ao vendedor enquanto passava os olhos pelas prateleiras repletas de quinquilharias. – O que posso dar pra uma criança de um ano? O que crianças de um ano fazem além de dormir, comer e cagar?
Era uma pergunta retórica, mas o homem de barba branca estendeu-lhe uma vassoura em miniatura em prontidão:
– Você quer que a mãe me mate? – Mike devolveu a vassoura sem pestanejar, já imaginando a reprovação no rosto de Echo. Voar não era uma opção, pelo menos não enquanto ela nem soubesse andar. – Não, algo que a deixe entretida, mas que nos deixe tranquilos…
– Sleeping Draught? – sugeriu o bruxo mais velho, com um quê de zombaria. Mike riu.
– Não vale. Seria mais um presente pra mim do que pra ela.
– Pai de primeira viagem – presumiu o vendedor –, certo?
– Tá assim tão óbvio? – perguntou, com um suspiro.
– Um pouco. – O homem respondeu, mas Mike notou que ele estava apenas querendo ser educado.
Mais uma vez explorando as prateleiras, seus olhos pararam em uma boneca de cabelos loiros e vestido medieval, na caixa em letras douradas e estilizadas lia-se “Amata”.
– Talvez uma boneca… – balbuciou, mas então seus olhos se arregalaram ao ver o valor indicado na embalagem. – …voodoo do meu chefe, né. Pra forçar ele a me dar um aumento pra eu ter dinheiro pra comprar algo legal.
Mike gastou muito mais tempo do que pretendia na lojinha. E muito mais galeões também. Acabou pechinchando com o vendedor pela boneca, conseguindo um abatimento no preço que julgava absurdo até poder considera-lo apenas excessivo. Antes de deixar o Beco Diagonal fez um inventário mental, para ver se não tinha esquecido de ninguém: uma boneca e um livro para colorir para a filha; um livro para o irmão; um novo tabuleiro de xadrez para a irmã; uma garrafa de firewhisky para o chefe e outra pra melhor amiga; abotoaduras para o pai e uma caixa de Liquorice Wands para a ex. O resto de seu círculo social podia esperar iguarias de abóbora ou filhotes de coruja do negócio da família, pois não tinha mais nenhum centavo para gastar naquele mês. Com um suspiro de alívio e sensação de dever cumprido, Mike ergueu suas muitas sacolas do chão e atravessou a passagem para o Caldeirão Furado, cumprimentando alguns conhecidos antes de seguir viagem pela Charing Cross Road. Ficara de encontrar Jules em frente a uma loja de discos não muito longe dali para fazer só deus sabe o que – anos de convivência o ensinaram a não questioná-la. Esperava pela amiga – atrasada, como de costume – quando uma estranha movimentação chamou sua atenção.
Um rapaz correndo como se sua vida dependesse disso pra fora de um beco, e uma rajada de luz conhecida acertando-o antes que tivesse a chance de ir muito longe. What the fuck? Era véspera de Natal, goddammit. Ficou momentaneamente dividido: deveria tomar alguma iniciativa ou ignorar a ocorrência? A segunda opção era extremamente tentadora, mas sabia que poderia ter problemas com o chefe caso ficasse sabendo que ele estava por perto e não fez nada. Seu departamento lidava com aquele tipo de controle de danos de uso indevido da magia e, principalmente, com as testemunhas trouxas. Com um suspiro de cansaço e frustração, Mike levantou as compras do chão mais uma vez e apertou o passo na direção do rapaz inconsciente, que agora era arrastado para dentro do beco pelos calcanhares. Mike hesitou. Poderia ser mais um ataque terrorista dos quais tinha ouvido falar. Aparentemente trouxas e nascidos-trouxas vinham sendo atacados, mas eram casos isolados, em cidades pequenas… Será mesmo que poderia estar acontecendo em Londres? Aquilo já era fora de sua jurisdição.
Mas quando deu por si, já estava avançando naquela direção novamente e não precisou de mais do que dois segundos para constatar que não se tratava de nada daquilo.
Sky procurava rapidamente uma rota de fuga, os olhos olhavam rapidamente ao seu redor tentando achar o melhor caminho para sair correndo dali. Claro que tinha a opção de aparatar, contudo seria extremamente suspeito e não precisava atrair mais atenção, já tivera o suficiente. Dando as costas para os passos insistentes, a jovem enrijeceu a coluna ao ouvir seu nome, mas tratou de relaxar rapidamente, tentando não parecer suspeita demais. Girou o corpo lentamente, as desculpas esfarrapadas se formando na ponta de sua língua, a garota era a mestre na conversa fiada. Contudo, a jovem hesitou assim que seus olhos repousaram na face do homem que chamara seu nome e seu corpo teve a reação imediata à presença dele, Michael Applebee, sua eterna primeira paixão. Já fazia alguns anos que não o via, esde que confessara seu amor por ele no seu terceiro ano de Hogwarts, Sky passara a evitar a residência dos Applebee toda vez que sabia que Mike estaria por perto, nas demais ocasiões era figurinha carimbada, comparecendo a jantares e assaltando a adega do Senhor Appeblee com a melhor amiga. Pippa era um ano mais velha que Sky, mas a conexão entre elas fora imediata e por mais que Oddpick negasse seus sentimentos pelo irmão da amiga e jurasse que não passavam de uma paixão juvenil, ver Mike a sua frente provara o contrário. Really Merlin? Really? He look so hoot. Seus olhos ainda estavam presos a ele enquanto seu cérebro se perdia em lembranças e admiração, Sky balançou a cabeça rapidamente e afastou as ideias, ainda precisava se livrar de um possível problema.
Ela certamente se lembrava dele, como não lembrar? Mas talvez ela conseguisse despistá-lo, mesmo que ele já anunciara o seu nome, poderia ser alguém extremamente parecido. Tinha que arrumar uma maneira de enganar Mike. – Sorry? Acho que você tá me confundindo com alguém. – Explicou cordialmente, exibindo um suave sorriso, algo que definitivamente não era típico da jovem. – Eu sou dessas pessoas que tem um rosto bem comum sabe. – E lá estava ela, the Queen of bullshit sempre pronta a inventar qualquer coisa, as pessoas comprando suas conversas atravessadas ou não, ela ao menos tinha que tentar. Sky não tinha medo do jogo ou de algo dar errado, ela vivia pela emoção e lidava com as consequências, bem, eventualmente ela lidava, caso não conseguisse arrumar uma forma de se livrar dos problemas. – Então se você me der licença, ‘tô meio que precisando ir, véspera de Natal, sabe como é. – Começou a dar alguns passos de costas, de forma despretensiosa, como se dançasse no asfalto, uma forma de tentar despistar os passos e a direção que seguiria ao fugir. Fazia cálculos mentais em relação à distância e melhores saídas, mas Mike ainda era alto e rápido suficiente para detê-la. E se eu estuporar ele também? A questão surgiu em sua mente, ao que Sky debateu consigo por mais tempo que o esperado, mas quem poderia julgá-la? Momentos desesperados pediam medidas desesperadas, mesmo que fosse deixar o irmão da melhor amiga desacordado no meio da rua. Mike era um homem crescido, ele poderia se virar, não era?! Voltou a atenção para o rosto de Mike, o que foi uma ideia infeliz, uma vez que se perdeu mais uns segundos enquanto admirava a beleza gritante dele, ao menos aos seus olhos.
- Então, como eu ia dizendo. – Voltou à realidade, era ridículo ainda estar abalada por uma paixão infantil e iria se martirizar por esse fato eternamente se não conseguisse se livrar do problema que se metera. Agora conseguia ver que a ideia de estuporar os dois jovens talvez fosse um pouco demais e imprudente, como tudo em sua vida, seus erros só pareciam exagerados e grotesco uma vez que cometidos. Era quase como se gostassem de ver a forma que ela iria reagir em tais situações, como se fossem colocadas especialmente para ela. Mas se Sky fosse honesta consigo mesmo, admitiria que não tinha qualquer conspiração para prejudicá-la, era ela e somente ela, um imenso imã para problemas. E Mike sabia bem disso, não fora uma nem duas vezes que ele tivera que limpar alguma de suas bagunças na casa dos Applebee, logo sua tentativa de enrolá-lo poderia ser em vão, mas Skylar não deixaria de tentar. – Feliz Natal pra você também. E boas festas. – Deu um tchauzinho discreto e manteve o sorriso cordial, que agora parecia mais mecânico e forçado, deixando sua situação ainda mais complicada frente ao jovem.