O desencanto não acontece de repente, ele não arromba portas nem causa escândalos. Ele entra descalço, no meio de um dia comum, com cara de quem sempre esteve ali. Começa nas pequenas coisas, tão pequenas que a gente quase ignora. Uma resposta seca demais, uma impaciência disfarçada de cansaço, um “tá” onde antes havia entusiasmo. Você nota, claro. Mas tenta não dar importância. Atribui à rotina, ao estresse, ao clima. Acredita que vai passar, porque sempre passa. E continua. Um dia depois do outro. Até perceber que está vivendo por inércia. O desencanto tem um jeito quase educado de se instalar. Ele não destrói de uma vez, ele desgasta. Ele se aloja na repetição dos gestos, no sumiço dos detalhes, no jeito como as palavras bonitas vão murchando até virarem só som. Está na ausência de perguntas, no toque automático, no jeito como se passa a existir mais por hábito do que por presença. Ele vai corroendo por dentro o que antes era encantamento e você nem sente quando o brilho se apaga, só percebe que está escuro quando tenta acender de novo e nada mais responde. E aí não há discussão, nem rompimento, nem lágrimas dramáticas. Só um vazio. Um afastamento silencioso. O desencanto é isso: uma ausência que vai ficando, ficando… até ocupar tudo. E quando você se dá conta, percebe que está ali, ao lado de alguém, mas sozinha. E que, no fundo, talvez a pessoa sempre foi assim e não foi ela quem mudou e sim a sua vontade de continuar.