Juntatribo e a importância do interior no cenário independente
Esse texto foi originalmente publicado na newsletter vampiros nunca machucaram você, criado pela pessoa que escreve aqui :)
Amar e consumir músicas consideradas “underground” vivendo em uma cidade do interior é quase sempre um desafio – e falo por experiência própria. Sou uma pessoa muito curiosa e, em uma pesquisa recente para um artigo acadêmico que estou redigindo, fiquei inquieta para falar de um assunto que consome uma grande parte da minha cabeça há alguns anos.
Em 2023, estava assistindo, pelo KazaGastão (canal do Youtube do apresentador Gastão Moreira), a uma série documental que ele – em conjunto com Fábio Massari – fez para contar o Lado B da MTV. O “Lado B” é uma referência ao programa apresentado por Massari na década de 90, onde eram exibidos videoclipes de bandas do cenário alternativo. O intuito dessa série de vídeos era mostrar o vasto acervo de entrevistas e projetos que ambos tinham feito em sua passagem pela emissora, a partir de um arquivo pessoal.
Crédito: Canal Kazagastão
Em um desses vídeos, Massari mencionou um festival que ele cobriu e que tinha acontecido na cidade de Campinas, interior de São Paulo. O nome do festival era Juntatribo e ocorreu nos arredores do Observatório a Olho Nu, na Unicamp. Fiquei atiçada para saber mais desse festival. Na minha cabeça, ecoava a pergunta: “Como que uma cidade do interior – e da qual eu moro tão perto – foi palco de um acontecimento tão importante para o cenário alternativo?”. Iniciei, então, minha pesquisa. Esta é uma das coisas mais legais de buscar conhecimento: você vai sendo inserido em assuntos e mais assuntos, dos quais não consegue mais parar de explorar.
Tudo começou a partir de um Fanzine (um meio de publicação independente feita para tratar de diversos assuntos como arte, política, música) chamada Broken Strings, idealizada por Thiago Mello e contando com a colaboração de Ivan Chirsto e Sérgio Vanalli na qual eles traziam pautas da cena alternativa sobre artistas que eles consumiam e com uma linguagem que não seria muito comum de se encontrar na mídia popular, como resenhas de shows e artistas como Jesus and The Mary Chain e Velvet Underground e bandas emergentes do cenário da Capital.
Página da Fanzine Broken Strings. Crédito: VICE/ Thiago Mello.
Com essa paixão pela música, surgiu a ideia de criar um festival para celebrar, um dos organizadores , Sérgio, era integrante de uma banda chamada Heaven in Hell, que já estava de certa forma se consolidando no cenário alternativo de Campinas, em parceria com Pedro e Sargento, integrantes do DCE da Unicamp (Diretório Central dos Estudantes) e com alguns outros contatos com as bandas que já apareciam nas páginas da Broken Strings como Pin Ups e Mickey Junkies, e em shows organizados pelos mesmo, a projeção do ideal do festival ia saindo do papel.
Capa do Álbum Time Will Burn da Banda Pin Ups. Crédito: Divulgação
O festival foi gratuito, não foi cobrado cachê e nem ingresso do público, foi algo de “camaradagem” e um meio democrático de consumir e acessar a música como arte, na sua primeira edição ocorrida em Agosto de 1993, contou com três dias de festival. A estrutura se dava a partir de uma tenda de circo, onde dentro, ficava o palco para as bandas se apresentarem, dividindo sua atração com uma mini rampa de skate. A Unicamp cedeu o espaço de alojamento para os cantores se instalarem durantes os dias que ficariam pela cidade, com algumas ressalvas, segundo um usuário via BlogSpot (é muito difícil achar depoimentos recentes, então temos que recorrer na old internet mesmo rs), a universidade chegou a cortar a luz do local e tiveram que usar geradores de terceiros para retomar as atividades, muitas pessoas também contam que nos dias de evento, estava muito frio, clima seco e que o ambiente foi coberto por lama e poeira. Problema da estrutura de palco como ocorreu no primeiro dia onde não aguentou e veio abaixo.
Foram dezessete bandas, vindas de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Santos, Curitiba, Piracicaba, Brasília e da própria cena local de Campinas. A título de curiosidade, o Raimundos, que naquela época ainda era desconhecido, fez seu primeiro show no estado de São Paulo nesse dia. Cálculos indicam que, ao todo, essa primeira edição reuniu cerca de 3.000 pessoas, algo que nem mesmo os organizadores esperavam. Houve também a cobertura da mídia, via MTV, sob o comando de Massari.
Fanzine da Primeira Edição. Crédito: Thiago Mello
No ano seguinte, o festival ocorreu em Setembro de 1994, já era mais aguardado. O “line-up” ficou mais extenso e novamente, outra banda em ascensão e que viria a se tornar extremamente famosa estava fazendo seus primeiros shows: o Planet Hemp.
Fanzine da Segunda Edição. Crédito: DCE Unicamp
Garage Fuzz tocando no segundo ano do festival. Créditos: Adriano Moralis/Flickr
Contudo, mal sabíamos que, em meio ao triunfo, o fim estava próximo. Desavenças entre os fundadores – um lado querendo expandir o festival para algo mais comercial e o outro desejando permanecer fiel à filosofia do “faça você mesmo” e ao amor pela música – trouxeram o encerramento do festival naquele mesmo ano.
Nos dias atuais a cena em Campinas vem ganhando novos expoentes como bandas das meninas do Sutiã Rasgado, fazendo um punk cru e com origens inspiradas no Riot Grrrl estadunidense e o post-punk britânico, o pessoal da Viúva Fantasma com seu som mais lo-fi e com fortes inspirações no showgaze também e várias outros frutos da produtora Vinte e sete. Isso prova que o espírito da produção independente e local ainda continua viva.
Banda Viúva Fantasma em Divulgação do EP “Assunto para depois”. Crédito: Dani Wesley / Pedro Gallante
Retorno a um ponto que abordei lá nos primeiros parágrafos: eu amo ser uma pessoa curiosa e ter o privilégio de acessar conhecimento. Às vezes, uma forte nostalgia de tempos que não vivi toma conta de mim – e entendo as problemáticas sobre essa idealização –, porém, meu foco não é esse. Trata-se, na verdade, de olhar para o passado e reconhecer o vanguardismo e a ousadia dessas pessoas, que tiveram a visão de tirar o foco do eixo das capitais e ampliar um cenário até então marginalizado.
O Juntatribo não apenas abrigou o underground nacional, mas provou que o interior paulista emergiu e projetou bandas importantíssimas para a cena alternativa brasileira dos anos 90, como Linguachula, Muzzarelas e Killing Chainsaw, consolidando a cena não apenas como uma resistência cultural, mas quebrando o eixo tradicional e estabelecendo que o interior seja um catalisador para a criação artística.
Ele não é apenas um marco nostálgico, mas é um inspiração geracional para que as comunidades do interior valorizem e cultivem seus próprios movimentos artísticos, provando que o “faça você mesmo” tem a capacidade de reescrever o mapa cultural do país. O legado mais significativo do Juntatribo é a lição atemporal de que a verdadeira revolução musical e descentralização criativa começam no encontro de paixões genuínas e na crença inabalável no potencial transformador da arte independente.