Amor não é uma mala que a gente fecha com antecedência.
Eu não estou simplesmente passando por um luto.
Não é esse luto limpo, depois do fim, com começo, meio e uma tentativa desonesta de ponto final.
O que eu vivo com ele é um luto antes da ausência.
Um luto em vida.
Um luto que respira no mesmo cômodo que nós.
Porque existe uma crueldade muito específica em receber um diagnóstico. Antes dele, a gente sabe que todo mundo morre, sabe de um jeito filosófico, distante, quase elegante.
A vida é breve, todos dizem.
A gente nasce sabendo disso, mesmo fingindo que não.
Mas quando vem um laudo, quando vem um nome, quando vem a doença escrita, comprovada, carimbada pela realidade, a morte deixa de ser uma ideia e passa a te acordar em pânico no meio da madrugada.
Depois do diagnóstico,
o tempo ganha dentes.
O calendário ganha som.
A casa inteira passa a respirar com cuidado.
E cada dia deixa de ser apenas um dia, é uma espécie de concessão do impossível.
E aí tudo muda... Cada sachê que ele come vira uma vitória. Cada gesto dele em direção à vida parece um verdadeiro milagre. Não um milagre grandioso, desses de promessa cumprida e céu se abrindo. Mas um milagre pequeno, doméstico, silencioso, desses que cabem numa vasilha de comida, numa respiração tranquila, num olhar que ainda responde ao meu, na posição deitada acomodada no sofá, que eu sinto que ele está em paz, e ele ronrona ao que se enrola em meu colo.
A gente começa a medir o amor em detalhes ridículos e sagrados, que deveria ser para cada detalhe da vida em um todo: ele comeu, ele levantou, ele respondeu, ele olhou para mim, ele se aconchegou em meus braços, cada melhora vira esperança.
Cada linha do boletim abre uma fresta de amanhã.
Cada sinal mínimo me permite acreditar mais um pouco.
Porque, afinal, ele mesmo não desistiu.
Então como é que eu desisto?
Nunca pensei um dia sequer.
Eu sei que existe diagnóstico.
Eu sei que existe doença, rim cansado, corpo frágil, limite, conta, clínica, madrugada. Eu sei que existe uma linha tênue entre cuidado e apego, entre esperança e desespero, entre amar e querer segurar o impossível com as duas mãos.
Muito maduro também é ficar.
É acompanhar a esperança enquanto ela ainda respira. É não transformar presença em despedida antes do tempo.
É saber que pode doer amanhã e, ainda assim, oferecer colo hoje.
Eu estou dizendo ponto final desde que ele foi diagnosticado. Coloquei um "ponto final" quando ele morreu nos meus braços e voltou... com oxigênio, com susto, com clínica, com boletim, com uma espécie de segunda chance que ninguém sabe explicar direito. Desde então, parece que eu vivo com uma despedida sentada no canto da sala, que me intriga me assola e me apavora, misto de medo, saudade, ansiedade e alegria horas soluços de tristeza.
Mas ele está aqui.
E enquanto ele estiver aqui, eu não quero tratar a vida dele como ausência antecipada.
Eu quero tratar como vida.
Mesmo que seja frágil.
Mesmo que seja emprestada.
Mesmo que seja breve.
Mesmo que o “breve” dure um dia, um mês, quatro anos
E quem disser isso não entendeu nada.
E pouco importa.
É perder uma presença.
Um corpo pequeno que muda o peso da casa inteira.
É perder um olhar que me reconhece sem exigir explicação.
É perder uma parte de mim que aprendeu a existir cuidando dele.
É perder o jeito como ele fazia e faz o mundo parecer menos absurdo, só por estar ali.
E eu não tenho nem o consolo de acreditar com certeza que depois daqui existe um lugar lindo, uma ponte, uma luz, uma continuidade perfeita onde tudo se resolve. Eu queria ter, queria mesmo.
Às vezes eu invejo quem acredita sem rachadura.
Quem diz “ele vai estar bem” e sente isso como chão.
Eu não sei.
Tem uma parte de mim que é seca, niilista e quase malcriada com o consolo. Uma parte que diz que talvez a gente seja só o que faz, o que ama, o que toca, o que cuida, o que deixa marcado no mundo enquanto ainda respira. Mas talvez isso também seja sagrado. Talvez o sagrado seja justamente isso: ter amado tanto um ser pequeno que tive imenso prazer em dividir todos esses anos ao seu lado, dentro da minha rotina. Sem altar. Sem promessa. Sem resposta pronta.
Só amor.
E eu fico.
Fico porque ele está aqui.
Fico porque ele ainda responde.
Fico porque enquanto houver conforto, existe esperança
Fico porque enquanto houver presença, existe encontro.
Fico porque enquanto houver vida, eu não quero chamar de hiato.
E se/e chegar o momento em que amar significar soltar, eu vou odiar esse amor por alguns instantes, ter raiva. Vou dizer coisas da boca para fora, procurar culpados onde talvez só exista limites, me revoltar contra o universo, contra o acaso, contra o corpo, contra o tempo, contra essa covardia de nascer amando coisas que não ficam para sempre!
E depois, talvez, eu me perdoe.
Porque ficar com raiva, também é amor! é a dor procurando onde bater, onde puder escoar. Então eu escrevo, porque não cabe, porque, se calar, eu afogo. Escrevo porque algumas dores não querem solução, querem testemunha.
E eu sou testemunha dele, da luta dele, da delicadeza, a garra descomunal do meu vencedor, com um corpo que, mesmo cansado, ainda escolhe vibrar, resiliente em suas batalhas. enquanto ainda não temos certezas... eu também não vou transformar amor em sentença, e se tudo que eu puder fazer for amar... eu amo.
Mesmo tremendo.
Mesmo cansada.
Mesmo com medo.
Mesmo sabendo que amor nenhum revoga a morte.
Eu amo.
Porque a vida, mesmo breve, ainda é vida.
Porque cada melhora é uma esperança.
Porque cada linha boa é uma fresta.
Porque cada dia sem dor é um mundo inteiro.
E porque, enquanto houver resposta, eu fico.
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