Sade Olutola

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@onlyexception
A Pessoa que Restou Depois do IncĂȘndio
Tem dias em que eu sinto que estou caminhando em direção ao incĂȘndio de propĂłsito.
NĂŁo porque eu goste de sentir dor. Mas porque, depois de um tempo, a dor vira um lugar conhecido. E o desconhecido assusta mais do que qualquer chama.
Eu vivi tentando apagar incĂȘndios dentro de mim enquanto sorria para quem perguntava se estava tudo bem. Passei tanto tempo fingindo que era forte que esqueci como era pedir ajuda antes de desmoronar. EntĂŁo eu sĂł continuava andando, mesmo quando meus pĂ©s jĂĄ estavam queimando.
O pior nĂŁo Ă© cair.
Ă perceber que, muitas vezes, fui eu quem me empurrou.
Sabotando o que amava. Machucando quem eu queria proteger. Transformando medo em raiva, silĂȘncio em distĂąncia e amor em algo impossĂvel de alcançar. NĂŁo porque eu nĂŁo sentisse. Mas porque sentir sempre pareceu perigoso demais.
Ăs vezes eu me olho e enxergo as cinzas de todas as versĂ”es de mim que morreram tentando sobreviver. A pessoa que acreditava no futuro. A que fazia planos. A que sonhava com uma casa simples, um amor tranquilo, alguĂ©m esperando por ela no fim do dia. Parece que todas ficaram para trĂĄs enquanto eu continuava correndo de mim mesma.
E ainda assimâŠ
Existe uma parte de mim que se recusa a morrer.
Uma parte pequena, machucada e quase sem voz, que insiste em acreditar que eu posso sair desse fogo diferente de como entrei. NĂŁo intacta. Nunca mais intacta. Mas verdadeira.
Porque talvez a vida nĂŁo seja sobre evitar as chamas. Talvez seja sobre aceitar que algumas queimaduras fazem parte da pessoa que estamos nos tornando.
Eu nĂŁo quero mais ser uma guerra ambulante.
Não quero mais confundir amor com culpa, saudade com castigo ou arrependimento com sentença. Quero aprender que eu também mereço recomeços, mesmo carregando cicatrizes que nunca vão desaparecer.
Se eu tiver que atravessar o fogo outra vez, que seja para deixar nele tudo aquilo que jå não cabe em mim: o orgulho que destruiu pontes, a culpa que me mantém presa, o medo de acreditar que ainda existe alguma luz esperando do outro lado.
Porque eu estou cansada de sobreviver.
Pela primeira vez, eu sĂł queria aprender a viver.
Todo mundo diz que o perdão é uma ideia linda, até ter algo para perdoar.
Meu silĂȘncio nunca Ă© um esconderijo. Ă uma sala com a porta entreaberta, onde permaneço em silĂȘncio, alimentando a esperança quase infantil de que alguĂ©m entre sem que eu precise pedir.
â G.D
NĂŁo Ă© estranha aquela sensação que vocĂȘ sente quando vĂȘ que todo mundo pertence a um lugar e vocĂȘ estĂĄ sĂł ali, existindo.
âEra muito importante, atĂ© que um dia deixou de serâŠâ
â Arctic Ocean.Â
vocĂȘ se foi, e eu segui em frente, mas todos os outros amores continuaram tendo uma parte de vocĂȘ, como se fosse um prĂ©-requisito. nĂŁo importava se fosse apenas um detalhe, a altura, o cabelo, os olhos, qualquer coisa que tivesse um eco de vocĂȘ.
esse foi o tanto que eu te amei.
eu sou um lugar muito difĂcil de morar