Onde estão os negros?
Em plena Copa do Mundo e com a nossa seleção brasileira mais uma vez sendo despachada prematuramente e surpreendendo pouquíssimos com isso, veio uma indagação: onde estão os negros? Não se trata de J.P. Sartre a fazer esta pergunta em 1960, quando esteve em um evento no Brasil e percebeu que a democracia racial brasileira era um dos muitos mitos inventados por aqui, já que não estava vendo negros e negras em espaços de poder e de destaque, conhecendo assim a sua invisibilidade. Mas, dessa vez, quem fez este questionamento é uma criança de 11 anos, que constatou que além das seleções africanas, todas as outras seleções possuem negros, seja pelas imigrações voluntárias ou pelas diásporas desumanas e perversas. No entanto, apenas uma seleção não possui negros, a Argentina. Não há negros entre os jogadores, a comissão técnica, os roupeiros, motorista do ônibus da delegação e tão pouco entre os torcedores argentinos. E antes que recorramos à tradição de se inventar mitos, é preciso dizer, não houve desaparecimento natural, fuga em massa ou sumiço dos negros argentinos.
Até o início do século 19, Buenos Aires era uma cidade com bastante presença africana e contava com uma enorme população de afrodescendentes. Os censos populacionais do fim do século 18 davam conta de que 30% da população era composta por negros. Em outras províncias no norte do país, como Santiago Del Estero e Catamarca, a população de negros chegava a 60% da população geral. Como em outras partes do mundo, os negros escravizados e depois libertados, se tornaram majoritariamente a força de trabalho urbana. Dessa influência podemos destacar a origem do Tango e dos Candombes, gêneros cujas origens rítmicas estão associadas às práticas de dança africanas, em bairros originalmente de negros, como San Telmo. Essa mesma interpretação histórica mostra que as guerras da Independência e do Paraguai (início e final do século 19) foram eventos onde os negros eram recrutados à força, muitos ainda escravizados, que recebiam a promessa, nunca realizada, da liberdade após um determinado tempo de serviços prestados ao país. Estima-se que até 70% da população dizimada nas linhas de frente era de afrodescendentes. Ainda no final do século 18, a questão sanitária foi novamente devastadora para a população negra e empobrecida, através das epidemias de cólera e febre amarela, que esvaziaram o sul da capital das elites e classes médias, que migraram para o norte, Recoleta, por exemplo, largando a população negra à própria sorte, ou melhor, sem sorte alguma, no sul. Então, além da morte física, ocorreu a invisibilização do negro através de uma manobra burocrática, que passou a desconsiderar negros ou pardos nos censos populacionais, a partir do final do século 19. A pessoa era argentina ou não, de acordo com a raça e a cor da pele. Este foi o momento em que o projeto nacional da elite era a europeização da Argentina, que incentivava arduamente a imigração de europeus, contando inclusive com artigo específico a esse fim, na constituição de 1853[i].
O projeto de estado da Argentina em branquizar sua população, seus ritmos e expressões culturais, através da apropriação cultural, logrou êxito. Sobretudo aos racistas. E o apagamento derivado disso, que agora se manifesta às escâncaras com a turma de Messi jogando uma incrível Copa do Mundo de futebol, onde não se encontram negros entre os jogadores, não está passando batido aos olhos atentos ao processo histórico. O racismo que muitos argentinos parecem se vangloriar em possuir, seja no mundo do futebol ou por jovens turistas na zona sul do Rio de Janeiro que coreograficamente imitam macacos, se torna, a meu ver, ainda mais merecedor de desaprovação. Isto praticamente tem construído uma identidade racista, nem por isso, cabe generalizar todo o seu povo. Contudo, não podemos apagar igualmente as figuras lendárias, como o goleador Alejandro dos Santos e outros negros que entre 1920-1930 vestiram a camiseta albiceleste daquela seleção e influenciaram até os dias de hoje a ginga, o drible, a garra, a habilidade, os cânticos, os tambores, a vibração mesmo em derrotas e o toco y me voy do futebol portenho e argentino.
Leandro De Martino Mota
8/7/26
[i] FRIGERIO, Alejandro. "De la desaparición de los negros a la reaparición de los afrodescendientes: comprendiendo las políticas de las identidades negras, las clasificaciones raciales y de su estudio en Argentina". In: Los estudios afroamericanos y africanos en América Latina: herência, presencia y visiones del outro. Córdoba/Buenos Aires: CLACSO, 2008.






