A ESPECIFIDADE DE SUA ESTRANHEZA GENÉTICA O CONDICIONAVA À PRECAUÇÃO EXTREMA, visto que quaisquer acidentes potencialmente fatais carregariam sua indistinguível assinatura. Temendo o que viria a ser irreversível, expendia apartado horas e horas em uma sala de treinamentos, destroçando pancada trás pancada alucinações programadas para sua condição, bem como sacos de boxe e quaisquer outros equipamentos cujo propósito era ceder ante a força de golpes sequentes. Seguramente não era indefectível, já havendo sucumbido ante oponentes programados; todavia, era arrogante o suficiente como para fiar-se de seus próprios movimentos, fosse para garantir um nocaute ou, ao menos, desnorte suficiente para dar-se à fuga, se necessário.
Manso, enfaixava as mãos devotando-se quase excessivamente à tarefa simples. A vibração apenas audível, entretanto, chamara-lhe a atenção, ainda que por pura sorte. Estranhara ao ver o nome na tela, assombrando-se minimamente ante o pedido. Sem hesitar, porém, consentira à solicitação de Astrid, apressando-a encontrá-lo. Ao vê-la adentrar a sala, exibira um mínimo sorriso, cruzando os braços enquanto a esquadrinhava. “——— Porque sou uma boa pessoa e estou sempre disposto a ajudar. Ou porque gosto de sua companhia. Você nunca vai saber qual das duas é a verdadeira razão. De todos modos, não importa. O que vale é que estou aqui. Mas vou lhe contar algo: tecnicamente, estamos dentro do horário. Do meu horário.” Com um gesto breve, estendera-lhe um rolo de bandagens. “——— Venha aqui. Primeiro, preciso que enfaixe suas mãos. Enquanto isso, pode me falar sobre o porquê de ter decidido me pedir ajuda para isto, especificamente. Até onde sei, os professores daqui são ótimos…”
De todos os lugares de Staton, a academia era sem dúvida alguma o seu preterido. Dentro da ala de treinamentos, sua área favorita era a arena seguida por uma curta diferença da sala de tiros. Os treinamentos físicos, entretanto, sempre haviam sido as partes mais maçantes e tediosas da sua rotina. Com exceção das ocasiões em que havia permanecido ali para acompanhar algum amigo, Astrid era sempre a primeira a sair apressada das sessões de combate corpo a corpo. Contrariando o que era esperado, nos curtos segundos que dedicou-se a encarara Gore perguntou-se se não consideraria passar mais tempo na academia. “Eu vou considerar as duas opções. Jamais duvidaria do seu bom coração e boa vontade, mas também não é como se eu não confiasse no meu taco, sabe? E bem, eu deveria me sentir mal por estar atrapalhando a rigidez do seu horário, não deveria?” Aceitou os rolinhos de bandagem, os músculos do seu rosto relaxados e não indicando nenhum sinal de culpa. “Se você for estender seu horário por minha causa eu não me importo de ficar pra fazer companhia e assistir.”
Para uma vidente, chegava a ser paradoxal como suas ações costumavam ser marcadas pela impulsividade. Durante todo o período que separou a sua tomada de decisão e o momento que colocou os pés na academia, em nenhum momento Astrid lembrou de que teria de explicar o motivo do pedido tão repentino. “Bem, é que eu não quero morrer... E meio que entrei numa paranoia de que eu não estou fisicamente preparada para me salvar se for necessário. Não é como se meus poderes fossem lá muito úteis pra isso...” Seus olhos rapidamente focaram em um ponto atrás das costas do outro e tentava a todo custo rodar o seu vocabulário para tentar explicar o que queria sem ofender ninguém. Por fim distensionou os ombros e resolveu responder com uma expressão menos tensa. “Eu não sei se as técnicas tradicionais e... bem, consideradas justas, são suficientes...”