A falta de atenção era sempre um risco para a maioria das pessoas, Marlene sempre fora cuidadosa em tudo que fazia, mas com a cabeça cheia daquele jeito e sua emoções brigando dentro si, já era de se esperar que pudesse acontecer algo. Poderia ter ser algo menos problemático, uma semana de azar não soava muito bem, principalmente depois dos acontecimentos recentes. O olhar direcionado para sua mão era de pesar, não pelo machucado em sim, mas pelo que ele representava. “Tomem cuidado, o corte não é ruim, mas não acho que alguém irá querer compartilhar uma semana de azar comigo, certo?” Gracejou ao notar os olhares em sua direção, ela chamava atenção para si quase sempre, mas não gostava de receber muita atenção, infelizmente o que fazia quando essas situações surgiam acabava por fazê-la atrair mais atenção. Marlene Mckinnon era um caso perdido.
Para a grifana aquele era o início de seu azar, mas as chances do professor considerar que Orpheus precisava de um amigo naquele momento e se lembrar de que os dois andavam juntos no primeiro ano da morena em Hogwarts, talvez fosse grande também, o que não mudava em nada o fato de Marlene considerar aquilo um tremendo azar. A verdade era que ela não queria se decepcionar com ele, não queria saber ou ter a certeza de que ele tinha feito aquilo com Ted Tonks de propósito, ela estava em estado de negação. “Minha mão foi machucada e não minha perna”. Rolou os olhos e começou a caminhar em direção a enfermaria, apressando um pouco os passos e tomando a frente dele antes de parar para esperá-lo quando já estavam distante da aula. “Você fez de propósito?” Questionou de forma direta, virando para encará-lo, não gostava de rodeios e mesmo que duvidasse que Selwyn fosse lhe responder de forma sincera, torcia em seu interior para que ele respondesse. Também acreditava que ele entendesse que ela se referia ao que ocorreu no halloween, afinal o corvino não era nenhum idiota a ponto de não entender. “Esquece, acho que não quero saber”. Suspirou voltando atrás, novamente o dilema dentro de si a dominando. Não queria se decepcionar com um amigo, assim como Lily, mesmo que ela e Orpheus não fossem mais exatamente amigos.
Como o usual, Orpheus não havia direcionado sua atenção para a grifana uma unica vez durante a aula de trato das criaturas magicas. Em parte porque estava concentrado na explicação que o professor estava dando a classe, ciente que se tratavam de criaturas potencialmente perigosas e, em segundo pois os dois estavam agora no que podia se dizer de "grupos opostos". Era notorio que as pessoas com quem ela andava, assim como as pessoas com quem andava não eram exatamente amigaveis umas com as outras. E quando que Marlenne Mackinnon começou a ser chamada de um deles isso ele não tinha muita certeza. O que ele sabia era que assim como o restante ela parecia aos poucos estar sendo poluida com aquele tipo de comportamento infantil. Nem ao menos valia um instante de sua atenção, quando sabia que ele poderia estar prestando atenção em algo muito mais vital e importante. Essa, claro, era a visão cada vez mais distorcida que ele tinha da grifana. A observar com bastante frequencia na companhia de pessoas como o Black e Potter não melhoravam muito seu animo ou vontade de rever essa imagem que estava aos poucos criando da mesma. Diferentemente dos colegas, que pareciam assustados ao observar o machucado alheio Orpheus mantinha uma expressão fria no rosto. Nem mesmo assim ela se dava conta ou tinha noção das coisas? Do perigo que se expunha sendo idiota daquele jeito ? Existia mesmo essa história de lavagem cerebral ? Porque ele estava cada vez mais disposto a acreditar que ela havia passado por isso. Ou talvez fosse verdade que as companhias que escolhemos nos influenciavam aquele ponto.
Tirando o fato dele ser um dos poucos alunos mais afastados do ponto onde todos pareciam estar concentrados, seja por medo ou fascinio das criaturas Orpheus não conseguia pensar em outra razão de ter sido escolhido para escolta-la. Era se conhecimento publico que ele era um "sociopata", que atacava sangues ruins e seus amigos. E se aquela fosse uma tentativa do mais velho de o colocar a sós com alguém que o pudesse ajudar, ou faze-lo "enxergar a verdade" ele também estava igualmente enganado. Na verdade esse pensamento o aborreceu mais ainda. E de todas as pessoas sem noção da turma que poderiam ter se machucado tinha que ser Marlenne. Sério, atualmente ele estaria aceitando qualquer um. Literalmente. Escutaria de bom grado os gracejos do Black. Escutou a resposta alheia cerrando os dentes, forçando-se ao máximo em apenas seguir adiante. Deveria manter a descrição pelo menos até sairem do campo de visão do professor. — Não esta em posição pra ficar fazendo essa pose toda não, sabia? Para alguém que se deixa ser mordida desse jeito.. — acrescentou desdenhoso, seu olhar passando rapidamente pela ferida causada pelo bicho. Existia alguma coisa que faria com que ela parasse de agir daquele jeito ? Se perguntou silenciosamente, continuando a conduzir por entre os terrenos em direção ao castelo. Tornou a desviar o olhar do caminho a encarando incredulo por alguns instantes. Levando no contexto da conversa que estavam tendo Orpheus interpretou como, e ele estava começando a sentir muito isso ultimamente, se ela estivesse o culpando daquela aberração a ter atacado durante a aula. E se ele ja estava farto de pessoas o culpando por coisas que faziam sentido, imagine isso. No entanto, mal tinha conseguido pensar em uma resposta a altura e Marlenne ja estava se emendando mais uma vez. Outra vez com aquele jeito que havia se tornado insuportavel. — Pare de falar como se eu fosse mesmo te contar. — Orpheus rosnou de volta antes mesmo que pudesse pensar no que estava falando. — Você é irritante, sabia disso ? — continuou, se deixando levar demais pela raiva que estava sentindo naquele momento. Mas, mesmo irritado como estava de algum jeito continuou caminhando em direção ao castelo, quase como se estivesse no piloto automatico. — Fica andando com aquele bando de idiotas. Com toda certeza que eles ficam colocando essas coisas na sua cabeça. O que vão fazer agora ? Dizer que fui eu quem deixou Filch irritado daquele jeito ? Eu quem estou sequestrando e assassinando aqueles sangues ruins do lado de fora do castelo ? Porque eu sou a fonte de tudo de ruim que existe ? — continuou perguntando, mal percebendo que fora gradativamente aumentando sua voz assim como diminuindo seus passos. Estava irritado demais para ligar para quantas pessoas estavam olhando, ou se estava indo contra seu novo mantra de não chamar mais atenção que o necessario. Estava farto de acusações injustas e Marlenne, ela conseguia o tirar do sério.