“São tempos difíceis para os sonhadores”
(O Fabuloso Destino de Amelie Poulain”)
Sim, são tempos difíceis porque sentimos a diminuição do contato entre as pessoas. Contato físico, contato de pele, aquele contato que nos une, que nos mostra fisicamente que não estamos sós. Sabe? Aquele abraço que te engloba e que te faz pensar que há mais calor no universo!
Estamos em Isolamento. E diferente do que muitos dizem, não penso que seja um isolamento social, mas sim um isolamento presencial. Ainda temos o mundo virtual. Porque em épocas de pandemia, nossa tendência é nos fecharmos. Para o outro; para o mundo.
Mesmo que haja mediações, ainda existe o outro na relação. E isso é extremamente importante porque ainda podemos estar presentes uns nas vidas dos outros. Eu mando mensagem para pessoas lá de longe como se estivessem aqui do lado. Mesmo que haja telas e fones de ouvido. Presença! Olha que coisa mais linda! Eu não te abraço (agora), mas saiba que estou ao seu lado! Receba estas palavras!
Outro dia no mercado, percebi que havia uma placa de acrílico que me distanciava da atendente do caixa. Minha relação com ela foi mediada por um instrumento de segurança para mim e para ela. Na hora pensei que se alguém espirrasse, o outro estaria protegido. Mais vulnerável. Não foi direta a nossa relação. Foi truncada. Por conta deste medo que paira no ar, o vírus, nossas relações de contato estão diminuídas. Amortecidas.
Na mesma observação, percebo a rapidez com que realizamos a visita ao mercado: pego, pago e vou embora. Minha segurança está em casa. Vivemos todos, um processo intenso de efemeridade da vida... tudo é passageiro... vou ao mercado com um único objetivo: sair do ponto A e chegar ao ponto B.
Trouxemos o “não ultrapasse o limite da linha amarela” dos trens e metrôs para dentro de casa. Na farmácia, há uma linha de distância para nossa segurança. No trabalho, atendimentos com 2m de distância. Sem toques. E muito “alquingel”. Necessário! Porque o contágio acontece pelo contato. E não podemos permitir. Nosso contato, hoje, é contagioso.
Isolamento é próximo de distância. E neste momento, distanciar-se é estar seguro. E as mediações são necessárias para mantermos nossa integridade física.
Mediações. Nossa fala e nossa respiração estão mediadas por uma máscara. Nosso toque por luvas ou álcool em gel. Nosso olhar, por placas de acrílico. Esse é o nosso isolamento. É estarmos apenas com nós mesmos. Só.
E quando percebemos que nossas relações estão mediadas, que não podemos dar um abraço, um beijo, um aperto de mão, percebemos o quão angustiante é aquilo que os filósofos já diziam há séculos: estamos no presente. Vivemos o nosso presente. O nosso tempo (agora) no nosso espaço (corpo-casa).
O nosso isolamento nos obriga, necessariamente e primeiramente, a olharmos para nós mesmos. Até a terapia, “em tempos de cólera” (parafraseando Gabo), tornou-se virtual. Entre a relação dialógica “eu - tu”, encontram-se agora, telas de vídeo, fones de ouvido e conexões de internet.
E conforme percebemos as mediações, os nossos vínculos se modificam. E hoje, atualmente, possibilitamos as nossas relações com base exclusivamente na palavra.
Saem de cena (por um momento, momento necessário!) os abraços, os beijos e os apertos de mão; entram com força total os “Bom-Dia”, “Boa Tarde” e “Boa Noite”.
O “Como vai?” se apresenta tão acolhedor quanto aquele abraço apertado no fim do dia.
Que usemos então a palavra. Esse instrumento tão rico, tão aconchegante, tão intenso. Que usemos da palavra. Aquela palavra que vem lá de dentro; transformemos a impossibilidade do abraço em uma mensagem, uma ligação, um “Meet” - uma palavra: Saudade (pode ser mais, que “sejamos livres para conjugarmos o verbo que quisermos, que não haja predicados prejudicados e que todos os sujeitos sejam livres para construírem suas próprias orações” - conforme cantou aquele Teatro Mágico). E prossigamos. Não estamos isolados virtualmente. Pelo contrário! Utilizemos das redes para fortalecermos os vínculos entre nós.
Estarmos isolados é estarmos voltados à nós mesmos. É olharmos para a nossa respiração, para o nosso cheiro, para as nossas mãos, pés, olhos. No instante Agora. Neste momento. Estarmos isolados é só mais um ato de percepção de que o nosso corpo é a nossa casa, nossa morada.
Os nossos pensamentos ficam dentro de nós até o momento em que decidimos compartilha-los com o mundo. E nisso, não estamos calados! Estamos sem o toque, mas não estamos sem a voz! Então cantemos! Vibremos! (Panelemos 😬), enfim; compartilhemos os nossos sentimentos.
Fiquemos em casa. Aqueles que podem.
Mantenham-se isolados(as). É a nossa segurança.
Mas mantenha-se em casa com conforto. Com conforto. Mantenha-se em casa compreendendo que você esteve a vida toda em casa, mas só agora tomou consciência disso. Que você sempre esteve em casa. E que você é o melhor inquilino que você poderia conviver neste momento de isolamento.
Produza. Não só o que o mercado quer que você produza, mas o que você quer produzir. Quando foi a última vez que fez um bolo? Ouviu música? Fez textão no Facebook😳? Produza o seu conteúdo. (Por mais conselho de “life coaching quântico” isso possa parecer). Mas se perceba. Perceba que esta produção é sua. Toda sua. Que o bolo é seu. Que a dança é sua. Que é a sua escolha do filme da Netflix. Entende? Perceba-se neste momento de recolhimento. Porque assim, você também cuida da sua saúde mental.
Fique em casa. Cuide da sua saúde.
Perceba-se em casa. Cuide da sua mente.
E logo mais, não sei ao certo quando, os abraços, beijos e apertos de mão retornarão como instrumentos de qualidade de nosso contato. Com tato. Com bastante tato. Com bastante tato. (Com aperto! Com vontade!) Porque o toque, é só mais uma dentre tantas formas de apresentar um sentimento.
São tempos difíceis sim para os sonhadores, porque agora, sonhar se tornou uma realidade. E lidar o tempo todo com a realidade, cansa.
Então, sinta-se em casa e descanse.