𝙿𝚎𝚗𝚎𝚕𝚘𝚙𝚎 𝚘𝚏 𝙸𝚝𝚑𝚊𝚌𝚊 - 𝚝𝚑𝚎 𝚕𝚎𝚐𝚎𝚗𝚍𝚊𝚛𝚢, 𝚏𝚊𝚒𝚝𝚑𝚏𝚞𝚕 𝚚𝚞𝚎𝚎𝚗 𝚘𝚏 𝙸𝚝𝚑𝚊𝚌𝚊 𝚊𝚗𝚍 𝚠𝚒𝚏𝚎 𝚘𝚏 𝚝𝚑𝚎 𝚑𝚎𝚛𝚘 𝙾𝚍𝚢𝚜𝚜𝚎𝚞𝚜 𝚒𝚗 𝙷𝚘𝚖𝚎𝚛'𝚜 𝙾𝚍𝚢𝚜𝚜𝚎𝚢
pelos deuses! aquele ali passeando na praia é PENÉLOPE OF ITHICA? ah, não, é só CLARA DEL ROSARIO HASTINGS ALCOTT, um jornalista nos agraciando com sua beleza nos halls do aletheia hotel. as moiras avisaram: mesmo com os 29 anos nesse novo corpo, segue tão sagaz e desconfiada quanto na antiguidade. repararam também que ele lembra muito hailee steinfeld? a maldição levou tudo, menos sua beleza. que prazer tê-lo como HOSPEDE do nosso hotel!
who's that girl?
- Clara Alcott tinha oito anos quando descobriu que o pai não voltaria para casa naquela noite, e isso se manteve, por tantas noites que ela chegou até a perder a conta. Lembrava da mãe chorando no quarto, sendo deixada sozinha em jantares e aparições sociais, tudo enquanto os jornais cochichavam sobre amantes e apostas feitas em cassinos da costa leste. Foi a primeira vez que entendeu, ainda criança, que a vida não era feita de contos de fadas, que promessas eram frágeis e que a fidelidade não passava de uma farsa elegante. E graças a isso cultivou uma desconfiança precoce, respondendo ao mundo com sarcasmo e um sorriso que sempre parecia zombar de tudo, aprendendo a a ver o mundo através das rachaduras da família perfeita, e foi assim que começou com seus diários, que serviam muito mais para expressar tudo aquilo que tinha vontade do que para guardar seus segredos, esses ela mantinha bem perto de si, somente em sua própria cabeça.
- Por conta da idade e da proximidade entre seu mãe e a tia, Clara cresceu muito próxima da prima, Anastasia, as duas se consideravam irmãs, e como Clara era filha única, se apegava muito a esse vínculo com a prima. Na primeira infância não poderiam ser mais parecidas, quase emulavam a personalidade uma da outra, mas conforme cresciam, as duas não poderiam ter se tornado mais diferentes. Enquanto Ana era a imagem da delicadeza, Clara era o oposto: festas, roupas ousadas, romances breves e um gosto por escandalizar a família, mas nem mesmo isso parecia distanciar as primas, que continuavam tão unidas, mesmo discordando aqui e ali, elas eram uma unidade e nada nem ninguém as quebraria.
- Aos dezesseis, já tinha a fama de “Alcott sem filtro”. Tinha talento para as palavras e sempre usava a língua afiada para expor a hipocrisia dos jantares de gala, fosse provocando os tios, fosse fazendo comentários ácidos sobre os convidados. E seu maior desafeto era Oz, na verdade, ela não tinha nada contra a ele como pessoa, era só mais alguém tentando se encaixar, fazer parte dos Alcott, e tinha até um certo talento para isso, o problema era a proximidade que ele tinha com Ana, fosse por sua visão distorcida do amor ou por simplesmente não confiar inteiramente em homem nenhum, ela não acreditava na lealdade dele para com a prima, em todas aquelas juras de amor, e não fazia questão nenhuma de disfarçar, dizia e repetia para Ana sobre isso, mesmo na frente dele.
- Na juventude, tentou Veneza, cursando História da Arte, mas largou o curso antes do fim, pois no final o que realmente a seduzia não eram as pinturas e esculturas em museus, mas as histórias por trás das pessoas que olhavam para elas. Voltou aos EUA e começou a escrever em blogs independentes sobre comportamento, relacionamentos e poder, contando sobre suas histórias de adolescente e suas aventuras pela Europa, admitindo o quanto era privilegiada, mas também que nem, mesmo seus privilégios a protegiam de sofrimentos e traições. Um editor de uma revista de estilo de vida a descobriu, e logo Clara tinha sua própria coluna semanal batizada de Fios Soltos: crônicas afiadas sobre amor, sexo, traição e a fragilidade das convenções sociais.
- Entre seus vinte e poucos anos, os relacionamentos seguiam o padrão de suas colunas: intensos, breves, quase sempre terminando em traições. Clara nunca chorava em público; transformava cada desilusão em material de escrita. Se fosse traída, escrevia um texto sobre como a fidelidade era uma ficção literária, se terminava um relacionamento de maneira abrupta escrevia sobre a necessidade de sobreviver antes de ser enganada. Os leitores viam nela uma cronista ousada da vida moderna, mas, nos bastidores, tudo se tratava de autodefesa.
- Agora, aos vinte e nove, Clara chegou à Grécia. Oficialmente, dizia a si mesma que era para buscar inspiração para um livro-reportagem sobre “a vida europeia pós-moderna” ou qualquer coisa assim, na verdade, ela sentia falta de estar em movimento, nunca em um lugar por muito tempo ou a vida se tornava monótona, chata, ela queria ir atrás das experiencias para depois compartilha-las com os leitores, nunca foi alguém com muito paciência pra esperar as coisas acontecerem, e bem Hotel Aletheia lhe pareceu um cenário perfeito: exótico, silencioso, cheio de histórias para roubar e transformar em crônicas.

















