Casa, mulher, você é uma casa.
Com esses seus seios nus apertados e um pouco desajeitados, eu repercorro os caminhos do meu passado.
O seu corpo mal escondido pelo peso do pôr do sol, me lembra o amanhecer naquela casa. Você é uma casa.
Você é a minha casa.
A casa da minha juventude, onde eu passei as noites mais milagrosas da minha existência.
Poucas vezes vazia e sempre cheia de amor. Aquele cheiro de amor !
O amor roubado, o amor malandro, incompreendido e subitamente sincero.
O amor que eu tive por um segundo por todas essas mulheres que estiveram lá comigo, na minha garçonnière.
Você chega a ser todas essa mulheres, livres, esquecidas, incontáveis e inimagináveis.
Claro, algumas, ficaram no meu pensamento, como a Carolina, mulher altruísta sempre á procura de um novo amor, geralmente mais propício para os outros que para ela. Ou a Elisa, deliciosamente calma que quando abre a boca transforma cada palavra em pureza e harmonia.
Você chega a ser todas elas e, essa casa.
Imutável e estável na aparência, você sempre necessita de alguma faxina nos quartos mais movimentados e profundos que os que amaram sempre acharam conhecer como o palmo da própria mão.
Você é, mulher, de uma vontade de se beijar, conhecer e se observar por dentro.
Como essa casa.
Horas, como essa casa, você está perdida, hoje em dia, no meio da sua selva, entre tanto velhos acontecimentos.
E agora, cansada de tanta historia de amor ou de fantasia, você se deixa levar, abandonada pelo cheiro do mar tão próximo e pelo ritmo incessante do som dessa nossas nuvens sonhantes.