Não há muito o que entender sobre a guerra quando se tem sete anos.
Mas Milo não era ingênuo. Ele podia não compreender todas as nuances do conflito, mas era inteligente o suficiente para perceber o nervosismo dos pais, o peso da tensão que pairava sobre a casa como uma nuvem carregada. O perigo se fazia presente de maneiras sutis e, ao mesmo tempo, inescapáveis — na forma como seu pai, o Sr. Suthipong, reagia a cada estrondo do lado de fora, puxando esposa e filho para debaixo da mesa sem hesitar; ou no tremor discreto de suas mãos, que se fechavam com força ao redor deles, como se o aperto fosse suficiente para protegê-los do que quer que estivesse à espreita lá fora.
Milo via tudo. Sentia tudo.
E isso o aterrorizava. Seu pai sempre fora seu porto seguro, o homem que nunca demonstrava medo, que sempre soube o que fazer. Se até ele tremia... então o que poderia ser mais assustador do que isso?
Milo estava nos jardins, ajudando o pai a podar alguns arbustos, quando os carros começaram a chegar. O som dos motores interrompeu o ritmo tranquilo da manhã, e sua curiosidade foi imediata. Ele parou o que estava fazendo para observar as crianças que desciam dos veículos, uma a uma, tentando entender o que estava acontecendo.
Afinal, existiam tantos Thornhill assim no mundo? Como Lydia nunca havia mencionado aquilo?
— Pá, pá! — chamou, correndo até o pai, que cortava as folhas de uma árvore com paciência meticulosa. — Quem são todos esses? Eu não sabia que nong Lydia tinha tantos parentes.
Sem esperar resposta imediata, Milo agachou-se no chão, distraindo-se por um momento ao brincar com as folhas e pétalas espalhadas pela grama. Seus pequenos dedos traçavam padrões entre os galhos podados quando ouviu o som dos passos do pai descendo as escadas. O homem se aproximou em silêncio, agachando-se ao lado dele, acompanhando-o na brincadeira por alguns instantes antes de falar.
— Milo, quero que escute pá. — A voz do pai era gentil, mas carregava um peso que o menino não compreendia completamente. — Todas essas crianças vieram de longe. Estão aqui por causa da guerra, para se protegerem.
Milo franziu a testa, ainda distraído com a pétala de rosa em sua pequena mão. — Mas por que a guerra queria pegar elas?
O pai suspirou, os olhos cansados pousando sobre o filho.
— A guerra pega e destroi tudo o que está à sua frente, Milo. Não importa se são lék como você, grandes como pá ou velhos como sua yâa. — Ele fez uma pausa, garantindo que o filho estava ouvindo. Depois, inclinou-se ligeiramente, sua voz baixando para um tom ainda mais suave. — Quero que seja um bom menino para essas crianças. Elas sentem falta de casa, e isso as deixa tristes. Você pode fazer isso por mim?
Pela primeira vez desde o início da conversa, Milo levantou os olhos para o pai, piscando algumas vezes antes de assentir. Se esse era o desejo dele, não havia motivo para negar.
O mais velho observou o filho por um momento, um sorriso suave surgindo em seus lábios antes de levar a mão aos cabelos negros e lisos do menino, acariciando-os com carinho. Milo retribuiu o sorriso, pequeno, mas sincero, antes de voltar sua atenção para as folhas espalhadas no chão, retomando sua brincadeira como se, por um instante, o peso daquela conversa não existisse.
ป๊า (pá) – Forma carinhosa e informal de chamar o pai.
ย่า (yâa) – Avó paterna (mãe do pai).
น้อง (nóng) – usado para se referir a alguém mais jovem de forma amigável.