levantou as sobrancelhas de maneira irônica, pegando a xícara limpa sem muito entusiasmo. o aroma do chá era familiar, diferente da marca que vinha em saquinhos que ela tomava em londres, pertencente a uma memória infantil há muito esquecida. “que cavalheiro.” ela murmurou, levando a porcelana aos lábios. o tom seco não escondia a exaustão que pesava sobre ela. a verdade é que em qualquer outra situação lydia não se deixaria incomodar por algo tão supérfluo — deus sabe que ela nunca fora um exemplo de etiqueta — mas estar em thornhill, cercada de pessoas que ao longo dos anos tinham virados na melhor da hipótese estranhos (e na pior fantasmas que habitavam seus sonhos e memórias) não trazia o melhor de lydia à superfície. “você sempre foi assim? tão... indiferente?” não era uma pergunta acusatória, mas uma verdadeira curiosidade. "fingindo não se importar com nada?"
ele pensa na pergunta. o ser humano é um mero produto do meio onde vive; caso a mãe não tivesse morrido, talvez fosse um homem diferente do que é atualmente. se fosse criado com carinho, amor e calor de um abraço, talvez fosse capaz de igualmente amar, demonstrar as próprias aflições, talvez não precisasse usar drogas e se distanciar da realidade, de tudo e todos. porém, não passava de um ‘se’ e de inúmeras hipóteses irreais e que, se existissem universos paralelos, estariam acontecendo. mas, para aquele victor, o qual provavelmente morria de câncer de pulmão por tanto fumar, não havia outra maneira de ser. ‘ você sempre esteve doente? ’ o rosto dele formiga. os olhos não olham mais a figura ao lado, prendem-se na xícara em sua frente e é capaz de ver a própria expressão refletida no líquido escuro. o vazio não o surpreende, pois bem, a vida o consumiu por completo. agora, ele é apenas um carcaça que não vive, mas sobrevive. ‘ com o que preciso me preocupar, lydia? ’ o sarcasmo na risada curta e seca é palpável. ‘ sequer tenho a necessidade de fingir algo. viajei para cá unicamente pela curiosidade. ’ poderia atear fogo naquele jardim e reduzir tudo à cinzas, mas não se importa o bastante para tamanho esforço. porém, caso outrem o fizesse, não impediria. o victor no chá se distorce em uma expressão perturbadora, o sorriso tão largo a ponto de rasgar os cantos da boca. é rápido em acabar com o chá, engolindo-o de uma única vez. ‘ porra… ’ leva a mão até os olhos e os aperta; não devia ter usado nada.













