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tudo suga demais de mim
e estou cansada
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ultimamente eu não tenho sentido vontade de falar com ninguém
tudo suga demais de mim
e estou cansada
Zé, se eu te contasse as coisas que eu sinto tu não entenderias, ninguém entenderia. Então guardo pra mim, em mim, até transbordar pelos olhos.
No fim de tudo, nós somos apenas pedaços ambulantes de carne apodrecendo. Quando a morte sopra aos nossos ouvidos e nos abraça como um velho amigo, não tem pra onde correr.
No fim de tudo, o que fazemos ou somos se resume a carne podre alimentando o solo e um registro em papel de que um dia existimos, na maioria das vezes nem isso.
Pandemônio
Pode entrar no meu quarto, se você quiser. Não tem limitações, não tem organização. Nas raras vezes em que ele se encontra arrumado é porque alguém o arrumou pra mim. É uma bagunça conflituosa. Já cheguei a olhar pros lados e me encontrar em total desespero pelo caos ao meu redor.
Deixo tudo pra cima da hora. Quanto mais eu puder adiar algo, mais eu o deixo de lado. Até não ser mais possível, até não ser mais suportável. Até eu ser obrigada a reverter a situação;
Eu sempre chego atrasada aos compromissos, e nunca sei onde coloquei aquele papel em que escrevi o horário do dentista. Na verdade, eu não chego, às vezes, a nem anotar nada porque acho que minha cabeça vai ser capaz de memorizar aquilo que julgo ser tão importante. Mas, ah, ela não vai.
Nunca sei organizar meus sentimentos e vou jogando todos eles, ou ao menos partes, em cima dos outros. Desconto nas pessoas, como se elas tivessem culpa de eu não ser equilibrada o suficiente pra me estabelecer.
Tá na moda agora as pessoas, principalmente em redes sociais, propagarem o estilo de vida espontâneo e good vibes. Como se fosse extremamente normal e prazeroso dirigir numa estrada tortuosa e sem perímetros demarcados. É em cima disso que digo, não é legal ser deslocada.
Recentemente assisti a uma serie em que a estória gira em torno de um relacionamento amoroso complicado e cheio de surpresas. Não interessa a parte do garoto aqui, o que interessa é a garota.
Ela é confusa e tem o dom de se enrolar em seus próprios problemas. Tudo na vida dela vai se amontoando numa grande bola de neve, na qual ela não sabe controlar. Oportunidades vão surgindo, e a garota vai tentando coletar todas elas, numa tentativa infame de se sustentar em alguma coisa. De se estabelecer e ter um desígnio próprio.
Ela tem um ímpeto extremo de egoísmo. Acaba puxando pessoas próximas ao seu emaranhado de confusão, sem nem ao menos se dar conta. Cria laços com elas, e depois se decepciona quando vê que nada saiu do jeito que ela esperava.
Eu me identifico com ela.
Já tentei ser organizada, centrada e fazer tudo do jeito como eu deveria. Sem paradas, sem distrações e sem complicações. Mas, meu Deus, como é difícil seguir todas as convenções impostas.
As vezes me assusto com o quanto sinto as mesmas coisas que ela.
Está chovendo lá fora, parece justo. A chuva condiz com meu atual estado de espírito. Por dentro, meu céu está cinza, o ar está nublado, uma nuvem escura trás consigo uma chuva branda. Acho que esse é o pior, não é uma tempestade. Nada de trovões, inundações, furacões ou qualquer tipo de destruição. Não, nada disso. Eu estou chovendo, uma das minhas famosas chuvas torrenciais, fortes e rápidas, mas só. De algum modo, isso consegue ser tão desesperador quanto ver a destruição dentro de mim. Porque essa chuva com calmaria significa que eu estou vazia. Significa que estou sozinha e perdida, sem nem entender direito os motivos da dor que estou sentindo. E estou chovendo justamente por isso.
O quão desesperador é se sentir vazio?
Ela
Ela sentiu mais do que aguentava. Não quer sentir nada nunca mais. Qualquer um que encontra ela na rua vê que alguma coisa se apagou ela está ficando diferente. Acho que ninguém a avisou.
privatização
você não entenderia toda a confusão que há dentro de mim
um dia estou de bem com a vida,
no outro só quero ficar trancada em meu quarto sentindo o frio da noite bater em meu rosto.
você não entenderia a tempestade que existe dentro se mim, você se afogaria nela
eu me privo porque eu sei que você não me entenderia e alguma hora quisesse ir embora antes mesmo de toda essa turbulência acabar.
(mar de rosas)
Âncora.
Eu odeio não saber o que vou sentir daqui a duas horas. Odeio não saber se vou querer desistir de tudo daqui a um dia ou se vou querer dar continuidade, a seja lá o que isso for.
Odeio não saber o que sentir. Odeio não saber o que é certo pra mim ou errado. Odeio não saber se vou ficar ou partir.
Odeio essas coisas efêmeras.
Tudo bem, as coisas mudam. Mas acho que não é normal elas mudarem a essa velocidade, a milhões de quilômetros por segundo, como acontece dentro de mim.
Eu quero uma âncora. Uma âncora resistente o suficiente pra eu parar de navegar por aí sem rumo algum. Eu quero um estabelecimento firme, e constante.
Céu cinza.
Dias nublados são os meus favoritos.
O dia amanheceu assim hoje, depois de ter chovido a madrugada toda. Os carros estavam molhados e as ruas, cheias de poças d'água.
Dias fechados me deixam confortável. É estranho dizer isso, já que a maioria das pessoas gosta de um tempo dito “alegre”, com um sol cheio de vida e nuvens passeando pelo céu azul espantoso.
Eu gosto do céu cinza.
Eu gosto do vento gélido que me circunda.
Eu gosto das ruas vazias e ensopadas.
Dizem que dias assim são melancólicos, mas melancolia é a última coisa que sinto em tempos dessa maneira.
E quanto mais eu cresço, menos sou. As pessoas se vão, não fazem questão. e desde então, também já não faço.
(se pudesse, eu me esqueceria também).
“Tem dias que eu fico pensando na vida e sinceramente não vejo saída; como é por exemplo que dá pra entender a gente mal nasce e começa a morrer.”
— Tom Jobim.
As vezes eu nem tenho ânimo de acordar respirando no outro dia.
- Isabelle Augusta
“Não existe sensação pior que se sentir um estranho em sua própria vida.”
— Marcos Filipe.
meus vestígios
eu queria apenas viver em outro espaço-tempo
no qual, eu não pudesse ser eu
porque eu tenho a sensação de estar sendo esmagada, e parece que minha ansiedade tira toda a força que ainda me resta.
toda essa angústia e o acúmulo de lágrimas no peito estão acabando comigo.
e a saudade então, é minha pior inimiga
a saudade das pessoas que se foram
mas é a saudade de mim mesma, que me condena
a ausência daquela menina que eu já fui há muito tempo atrás
e infelizmente, hoje me resta apenas os escombros do que um dia fui, sou o que restou de quem me tocou sem cuidado e me deixou dessa maneira
me deixou destroçada, insegura
sem sentir amor por mim mesma
melancólica e com essa tristeza que entrou em baixo da minha pele e se instalou
eu grito
eu choro
eu escrevo
e me desespero mas ela não sai daqui de dentro
e eu só queria poder me despir de mim
morar em outro corpo que não fosse o meu
habitar em qualquer outra pele que não fosse a minha
porque agora…
não sou um lugar bom para morar
apenas sigo tentando sobreviver
nesse breu
no abismo que é pensar e sentir
[nesse abismo que é existir]
Quem te merece não te faz chorar, quem gosta cuida, o que está no passado tem motivos para não fazer parte do seu presente, não é preciso perder para aprender a dar valor, e os amigos ainda se contam nos dedos.
Charles Chaplin. (via prenuncia)
Farsa
Eu sou uma mentira. Choro a noite todinha dizendo baixinho que não gosto de mim, me olho no espelho e desejo nunca ter nascido, eu sou isso, uma mentira.
Eu digo aos outros para se aceitarem e que tudo ficará bem, mas eu não acredito nisso, eu não consigo acreditar nisso. Eu digo que deveriam buscar por ajuda, enquanto eu também preciso.
Eu sou uma farsa, ando pelas ruas com um sorriso enorme no rosto ao mesmo tempo que desejo que uma carro passe a toda velocidade e me leve.
Eu não sou quem eu sou, eu finjo, eu finjo e estou cansada de fingir.
Eu sou a pessoa que buscam para pedir conselhos, mas a minha situação é tão desprezível quanto a deles. Eu digo aos outros o que eu gostaria de ouvir, encho-os de esperança, quando eu já não tenho mais nenhuma.