O que o bullying me fez
Ainda nem tinha nome essa implicância que as crianças têm com os mais vulneráveis da turma, ou do bando, mas, eu passei por ele, o bullying. Eu fui uma criança muito amada, um menino chamado à responsabilidade muito cedo, era uma criança, mas, era menos criança que os irmãos menores então tinha que ajudar mais, cuidar mais, ser mais exemplo, mais sério. Acabei ficando aquela criança chatinha que se mete na conversa dos adultos dando pitaco em tudo,o certinho, agradar minha mãe e não deixá-la triste era minha razão de viver na época, some-se aí meu pai trabalhando longe e que maioria dos homens que me cercavam eram bossais, eu inconscientemente fiz a escolha óbvia e elegi como referência o adulto mais sensato ao meu redor, a minha mãe, daí meu jeito diferente ficou ainda mais acentuado, ficou mais delicado e contrastante com a boçalidade que se ensinava aos meninos ao redor. Daí ainda fiquei adolescente, os braços cresceram primeiro, depois o nariz, depois o pescoço alongou, aí tentava por algum estilo no cabelo e a desgraça só piorava o visual (rindo aqui, agora), a gente tinha bem pouca grana, era tudo contado, então eu não tinha muita roupa, me virava com o que tinha e customizava o que tava velho, era foda. - Ta Joey, mas, cadê o Bullying nessa história? - Então, tava só contextualizando um período que foi dos meus 7 aos meus 17 anos, 10 anos em que me lembro de todos os dias ouvir, “Viado!”, “Bixa”, “Ridículo”, “Tu é muito feio, quem vai querer ficar contigo?”, todo santo dia, durante os 10 anos mais importantes da minha formação como pessoa, eu ouvia pelo menos uma dessas coisas, e o legado dos impopulares é a solidão e falta de amigos que lhes defendam, então, não tinha ninguém para quem contar ou desabafar, só a mãe, mas, eu não queria deixá-la triste, lembra? Foi um período em que fui bem invejoso, tinha inveja de quem adolescia bonito, de quem tinhas roupas descoladas e principalmente de quem tinha amigos, tive dois ou três colegas mais próximos porque eu fingia que curtia as paradas que eles gostavam, mas, não lembro de ter tido mais que uma única amiga de verdade, tinha inveja de quem tinha auto-confiança o bastante para conversar com as gurias que queriam, eu saí de lá sem ter falado com a guria que eu sempre quis, nunca me senti bom o bastante e sempre tive certeza de que era recíproco, mas, covarde que fui (fomos os dois) não falei nada, hoje é só uma incógnita que nunca saberemos resolver.Como a vida dá voltas redondas e completas, todos os que me atormentaram e que na época me causavam raiva, medo e inveja, todos parecem não ter tido um futuro assim tão brilhante e receberam de volta da vida a mesma mediocridade que impunham a mim todos os dias. Eu saí daquele lugar aos 17 anos, e vim para outra cidade, outro estado, ninguém me chamou de nada, muitos quiseram ser meus amigos e para minha surpresa, me acharam muito bonito, era um paradoxo, porque não passaram meses, foram dias eu era o mesmo cara e aqui era querido, respeitado e (pasmo na época) desejado, então eu não era tão ruim, apenas estava cercado de idiotas.Houve ainda um longo caminho, outros dez anos, para eu me despir de um monte de auto-defesas que eu tinha construído, eu era ríspido, introspectivo e muito difícil de lidar, perdi várias daquelas oportunidades de amizade que havia por causa disso, perdi alguns amores também, mas, foi meu caminho e eu fiz as pazes com ele, graças a essas perdas depois consegui reter e cultivar muitos novos e preciosos amigos, é realmente muito legal ser amigo de alguém e principalmente, sendo eu mesmo, as pessoas gostam do meu eu de verdade e é libertador poder exercer a autenticidade sem medo de ser feliz.De tudo isso:Em um olhar positivo, resultou que, por me sentir, muito pouco e quase nada, eu corri muito, mas, muito atrás da bola, fiz o impossível na época e concluí o curso superior, iniciei uma carreira quem vem andando muito bem obrigado, entendi que minha aparência e meu jeito atraem suficientemente atenção das pessoas e que o meu conteúdo seleciona e retém aquelas que devem ficar compartilhando comigo dessa jornada. Amo e sou muito amado também.Em um olhar negativo, resultou que apesar de racionalmente eu saber que sou OK e legal, ainda me sinto aquele menino feio pra caramba, desmilinguido, culpado por ser do meu jeito e com quase nada a oferecer a um amigo, a um amor... daí então, a ansiedade, a baixa-auto estima e outros déficits, parece que de dez em dez anos eu noto os avanços né, quem sabe aos 37 essa parte também já não estará solucionada, juro que estou trabalhando por isso, são leituras, psicoterapias, espiritualidade, cursos e ouvindo muitos conselhos, um dia chego lá.Fato verdadeiro amigos é que o Bullying é terrível, crianças sabem ser muito cruéis e as consequências disto levamos para a vida adulta e provavelmente para a vida toda, então, pais, professores, adultos em geral estejam atentos e defendam quem não sabe como se defender. Um conselho com muito carinho, desejando que nenhuma criança precise se envergonhar de si, nunca na vida. :)















