Fritz havia acabado de retornar para sua pequena sala que agora estava sendo adaptada para se tornar um novo quarto, sentando-se na bicama que acabara de chegar da loja, quando escutou Penny Lane falando. Seus olho claros voltaram-se para a moça, curioso sobre o que ela estava dizendo, até que riu baixo e balançou rapidamente a cabeça.
“Quando você estava muito ocupada estando na defensiva no dia em que nos conhecemos, eu disse, em algum momento, que gostava de História da Arte.” Sorriu de canto, recostando-se e relaxando no que também era um sofá-cama. “Eu consegui encontrar quando ainda morava em Berlim. Lá as pessoas realmente apreciam a cultura e expressões de arte.” Respondeu, alfinetando a capacidade fantástica de boa parte dos americanos que ele conhecia, não serem minimamente instruídos sobre isso. Consideravam a Golden Gate e a Estátua da Liberdade seus maiores pontos turísticos, aparentemente, e isso bastava.
Livrou-se de seus sapatos, deixando-os num canto, até que escutou uma ideia lhe veio à cabeça.
“Pode ficar com ele, se quiser.” Disse. Fritz já lera a obra algumas vezes, nada que tivesse permeado sua mente até os dias atuais. E se seria mais útil a Penny Lane do que a ele, por que não? “Não é mais tão novo porque já aguentou muitas mudanças, mas ainda dá pra ler.”
Descobrir o gosto de Fritz por História da Arte o tornava cem vezes mais interessante aos olhos de Penny, tanto que a garota tomou alguns segundos para observá-lo melhor a partir daquele fato. Como se, com aquela informação, ele se tornasse uma pessoa completamente diferente da que ela havia imaginado. Tudo bem, a breve conversa que tiveram no terraço não terminara da melhor maneira, mas não significava que ele fosse o brutamontes arrogante e sem inteligência que ela havia imaginado ser. Talvez Fritz fosse uma pessoa muito capaz de compreender certas sutilezas da vida e de ler as entrelinhas do não dito.
“Berlim?”, soltou, o pensamento lhe causando tanta surpresa que tomou voz. Era evidente que estava impressionada com aquilo e não conteve um leve riso, que escapou mais pelo nariz do que pelos lábios, ao escutar o comentário sagaz. “Não acho que o apreço de arte seja restrito a Alemanha, mas confesso que lá há um modo particular de compreender a arte e o seu caráter político. Talvez muito influenciado pela filosofia alemã”. Penny rapidamente fez uma busca interna por referências europeias no quesito da arte, porém, logo sua atenção se desviou para a oferta do livro. Era tão difícil de encontrar literaturas japonesas que parte de si gritou internamente de felicidade, porém, se forçou a dizer. “Eu não posso aceitar. Se eu tiver como pegar emprestado, irei agradecer muito, mas esse livro é especial demais e, se ele chegou até você, então acredito que talvez tenha um motivo para isso”.