“Quando minha mãe estava grávida de mim aposto que ela tinha milhões de planos para mim, é normal, toda a mãe sonha em algo para o seu filho, seja desde entrar numa grande universidade até ganhar um brinquedo no Natal. Toda a mãe deseja algo pelo seu filho, mesmo que seja para realizar seus próprios sonhos pelo filho que esperava. Eu não posso falar pela minha mãe, mas sim por mim… desde pequena me senti miúda mesmo sendo a maior entre meus amigos, sempre fui inconsequente, sem medos, me aventurava entre os meninos, e isso anos 2000 era algo incomum para uma garota. Adorava tentar andar de skate e patins, adorava jogar vídeo game e brincar de pique esconde com meus amigos, sempre fui muito moleca. Durante os anos fui crescendo e infelizmente conheci o lado sombrio e doloroso da vida adulta, mesmo muito jovem conheci a maldade humana e a dor. Tenho segredos e dores maiores do que qualquer pessoas que tenha passado pela minha vida possa imaginar, uma dor pesada demais para uma menina jovem demais para sair das brincadeiras de Barbie e pique esconde. Fui obrigada a crescer rápido demais e consequentemente tive que me perder. E me perdi, durante anos me senti sozinha mesmo que no meio de muitos amigos e festas. Lutava constantemente para ser aceita entre as pessoas mesmo que me sentisse diferente. No começo dos anos 2000 ser uma dita “menina-moleca”, ter mais amigos homens do que mulheres era mal visto, ser diferente e não se portar como uma “menina” deveria se portar era extremamente complicado. Me espelhei em amizades erradas que me fizeram crescer e amadurecer, aprendi desde cedo que amor e confiança é algo que precisa ser regenerado após cada ciclo. Desde cedo soube que, nós mudamos, para melhor ou pior dependendo do ponto de vista, mas que sempre e para sempre seremos julgamos. Sempre soube que da nossa dor é somente você e você mesmo que poderá entender, alguns tentaram outros nem isso mas somente você saberá o que se passa dentro de si. Sempre tive um sorriso e uma risada fácil mesmo quando estava machucada demais para sorrir, desde sempre fui assim condicionada a sorrir enquanto sorria e por dentro me mutilava, desde sempre eu tentei agradar e cuidar de tudo e todos mesmo que as pessoas não esperassem isso de mim. Dentro da minha cabeça, eu tinha que agradar e fazer o certo. Óbvio que quando cheguei aos 18 anos era certo que meus pais, irmãos e familiares esperassem um espelho de mim, alguém que seria um exemplo, que seguiria um caminho certo, que minha vida tomaria um rumo, mas logo que dei de cara com a “vida adulta” tudo o que eu era antes disso se perdeu, tudo o que amadureci se perdeu quando completei 18 anos, toda a dor, mágoa, ressentimento, problemas que escondi de baixo de uma pedra apareceram, eu com 18 anos voltei a ter 14 anos e me sentir completamente perdida e desemparada. Pensei em todos os sonhos que minha mãe teve para mim e cada vez que alguém dizia que eu era adulta e que dali por diante minhas responsabilidades e ideias seriam levadas a sério, eu tinha um ataque de pânico imaginando o desgosto dos meus pais e das minhas ideias que eram pequenas e insignificantes perto de muitos que conheci durante meus 18 anos. Eu me sentia pequena demais em um mundo que cada dia se demonstrava mais cruel. Nunca entendi os motivos de quando se completa 18 anos você é adulto… Com 14 me tornei adulta, - se não antes, e com 18 me tornei uma criança novamente com medos e inseguranças de uma menina que queria agarrar as pernas da mãe e clamar por socorro. Nunca entendi o porquê da sociedade nos julgar adultos com 18 quando somos meras crianças aprendendo a engatinhar para a vida adulta. No começo tinha medo de decepcionar meus pais, mas depois entendi que tinha medo de me decepcionar comigo mesma, tinha medo de não ser ninguém, e agora, eu entendo que, com 18 eu tive que aprender a engatinhar novamente, os 18 são a marca da “primeira-infância adulta” como eu chamo. E o que eu espero hoje? Nada. Espero ser feliz e conseguir me encontrar nesse mundo adulto, por ora alegre, por ora doloroso, por ora professor e por ora criança novamente. Cada dor nos faz forte, todos nós estamos sob o mesmo céu.”