A Vila de Paranapiacaba e sua decadência
Calma, pacata e silenciosa. Uma neblina que impede que você enxergue. A monotonia de fim de festa. A antiga vila ferroviária de Paranapiacaba foi construída para abrigar os ingleses que trabalhavam na São Paulo Railway. Inaugurada em 1874, era como um acampamento de operários no começo.
Paranapiacaba fica localizada no ponto alto mais alto da Serra do Mar, a estrada que liga São Paulo a Santos. No século XIX, tudo o que vinha de fora, vinha de navio. E tudo o que vinha de navio, ia para o porto de Santos, o porto mais importante para a economia brasileira naquela época. E, para os produtos irem de Santos até São Paulo, tinham de passar por Paranapiacaba, então a vila criou um monopólio no transporte de mercadorias, que favoreceu a região.
A vila é divida em parte alta e parte baixa. A parte alta é onde ficam as construções mais novas, como casas e bares, em sua maioria. São casas de alvenaria, ou seja, foram construídas com tijolos, cimento, e outros elementos mais comuns para a engenharia brasileira. Na parte alta da vila, também fica o cemitério do Bom Jesus de Paranapiacaba. Um cemitério muito pequeno, construído em terreno doado por Bento José. Mais conhecido como “Ponteiro”, foi um dos primeiro moradores da Parte Alta e comercializava produtos de Mogi das Cruzes para abastecer o acampamento. Tudo isso durante a construção da linha férrea. No cemitério estão enterrados os corpos de ex-moradores e ex-operários da ferrovia que dividem o espaço com gatos e cachorros que se escondem entre uma cova e outra.
Há um clima de desânimo e melancolia que continua também na parte baixa, onde ficam as clássicas casas ao estilo inglês, antigas moradias dos ferroviários. Entre o final do século XIX e o século XX, só podiam ter acesso a parte baixa da cidadezinha os trabalhadores da ferrovia. Então quem era de fora, não podia entrar. Hoje, o trânsito de pessoas é livre. A ponte, que foi construída em 1899 sob a ferrovia, é a única ligação que permite que as pessoas circulem entra a parte alta e baixa da antiga vila inglesa. Essa última é onde a cidade se concentra. Em meio a forte neblina e nevoeiro que toma conta da vila durante a maior parte dia, na parte baixa de Paranapiacaba ficam os principais restaurantes e bares, a biblioteca da vila, a casa do engenheiro chefe, o primeiro campo de futebol do Brasil, o clube União Lira Serrano, a única escola e o único pronto socorro dali.
Mas, em manhãs de céu aberto e claro, quando o sol aparece, a vila ganha um ar de felicidade e esperança. Durante as décadas de 1980 e 1990, a ferroviária de Paranapiacaba sofreu uma crise. Não se podia mexer na infraestrutura da região para melhorar as condições da vila, e a expansão da malha ferroviária fez com que Paranapiacaba se tornasse obsoleta. Com isso, a cidadezinha de estilo inglês começou a ficar cada vez mais invisível para as autoridades públicas. A Vila de Paranapiacaba é um patrimônio tombado pelo município de Santo André, pelo estado de São Paulo e é de responsabilidade federal.
Hoje quem mora na vila, mora porque gosta de viver lá ou porque não possui condições para se mudar para um outro lugar. As casas da parte baixa são oferecidas pela prefeitura de Santo André a preços muito baixos de aluguel, porém, não se pode alterar nada com reformas. Além disso, o acesso até a vila é muito difícil já que a estrada é quase que possuída por uma forte neblina o trecho inteiro. A vila está localizada a 35 km do centro de Santo André e na sua última contagem, possuía cerca de 921 habitantes.
O “Sukita”, monitor ambiental e guia turístico da Vila
Quando chegamos no centro da Vila de Paranapiacaba, que fica na parte baixa, estávamos procurando quem primeiro entrevistar. Procurando um início fomos até o Centro de Estudos Sócio Ambientais, na rua Direita, número 361. Uma casa de parede amarela, com quatro janelas antigas, uma porta velha e um telhado baixo.
Quando entramos,fomos atrás de uma família que estava à procura de informações sobre um evento medieval que aconteceria naquele dia na Vila. Pai, mãe e filho, que estavam muito empolgados com a chance de viverem um dia de feudalismo, tiveram logo suas alegrias cortadas, como uma cabeça na guilhotina, por Sukita, guia turístico da Vila, que disse que o evento medieval fora cancelado pouco tempo antes.
Sukita é um sujeito grande como um armário de duas portas e negro como o interior da floresta de Mayombe. Devia ter um pouco mais de 1,85m e tinha uma voz grossa como a de um soldado. E, não só a voz, vestia roupas que pareciam que iria adentrar a floresta da vila com um exército rebelde e ficar por um longo tempo. Era como um Shrek, um grande e forte ogro da Vila de Paranapiacaba. Seus dentes, sua boca e seus olhos, lembravam a um crocodilo de pântanos. Mas toda essa imagem era desconstruída, assim que falava.
“Tudo bem, vamos para aquela sala”, disse educadamente quando explicamos o que queríamos com ele. Fomos então para um quarto da casa e ele se projetou em uma mesa, como se fosse uma entrevista coletiva. Quando uma funcionária da casa veio questionar sobre algum assunto de monitoria, Sukita disse: “Por hoje, não vou mais fazer nenhum passeio. Vou atender os meninos aqui”.
Marcos Vital, ou melhor, Sukita, morou durante vinte anos na Vila de Paranapiacaba. Veio da cidade de Santo André e chegou na Vila em 1998 para ajudar o amigo, Erick Lamarca, a restaurar uma casa. Não se lembra se já era adulto e nem sabe com que idade veio. Ficou por tanto tempo reconstruindo a casa que perdeu a noção da idade e acabou se mudando para a vila. Em 2001, começou um curso de monitoria ambiental da prefeitura por recomendação de Lamarca, que era um administrador da Vila. “Fui fazendo o curso e ajudando ele ao mesmo tempo. Hoje sou o monitor mais antigo atuante aqui na vila. Fiz o curso de monitoria ambiental e aí fui ficando, ficando...”. O curso surgiu em parceria da prefeitura de Santo André que comprou, em 2001, a vila de Paranapiacaba e o Instituto Florestal. Assim, começou a se investir em turismo na pequena cidade de Paranapiacaba.
Ele falava de maneira quase como se houvesse decorado toda a história da Vila de Paranapiacaba, desde sua criação no século XIX até quais as melhores trilhas para se fazer. Embora conheça a Vila por todo o estudo e tempo que dedicou a ela, fala com certa insegurança de errar alguma informação. Em diversos momentos, utilizava a mesma data para se referir a alguma coisa: “Mas em 1864...”. Sukita se considera o melhor guia turístico da Vila e o mais forasteiro também: “Tem trilhas que só eu sei fazer. Tem uma de sete horas de duração. Nenhum outro monitor vai. Só eu”.
Em um momento quando apresentava para nós a história da Vila, fez algo surpreendentemente engraçado e curioso. Quando explicava a origem da palavra Paranapiacaba, ele fez sons da fala de tupi quase como um grito de guerra, separando as sílabas para formar a palavra. Isso, não uma, não duas, mas três vezes, até que nós conseguíssemos entender do que se tratava. “PARANÃ, EPIAK, ABA... PARANÃEPIAKABA... PARANAPIACA!”. Mesmo com o susto entendemos que, embora o nome da vila fosse em tupi, o nome não era por conta dos indígenas, que utilizavam a vila como passagem para o mar, mas sim por conta dos ferroviários, que adotaram o termo pelo significado. Paranapiacaba significa: lugar que se dá para ver o mar.
Sukita possui algumas grandes contribuições para a Vila. Fundou a primeira associação de monitores de Paranapiacaba, a AMA. Sukita também fundou a Sukitour, uma agência de turismo que ele abriu em 2005 e continua até hoje.
Além dessas contribuições para a pacata vila, Sukita também fundou o Jornal de Paranapiacaba. O tabloide impresso é escrito todo por ele mesmo, porém, não está circulando já há algum tempo. “Então... Eu dei um tempinho esse ano de julho para cá porque eu fiquei meio doente e aí dei uma parada para poder me tratar.”
Ele diz ser difícil colocar o jornal no ar, principalmente pela falta de dinheiro. Mas, o maior trabalho que ele teve foi fazer as pessoas que não gostam de ler, lerem. “O jornal é gratuito e aí eu tinha que fazer numa linguagem que quem não gosta de ler, despertasse o interesse”. Coisas de Paranapiacaba, curiosidades da Vila, receitas relâmpagos, segundo Sukita, essas eram algumas das coisas retratadas no jornal impresso de oito páginas de Sukita. “Agora imagine escrever oito páginas em um lugar que não acontece nada. Tem que ter muita criatividade”. Um dos motivos de Sukita fundar o Jornal de Paranapiacaba é que ele é conselheiro de turismo na cidade de Santo André, então possui “um pé na política”, como ele mesmo disse. “Eu tinha informações privilegiadas, e as pessoas aqui reclamavam que não se sabia das coisas. E eu pensei: ‘Caramba eu tenho o conhecimento, e quem tem o conhecimento é poder. Não repassar esse conhecimento é ser injusto.”
De acordo com Sukita, a queda e o desaparecimento da Vila de Paranapiacaba está conectada com o tombamento. “O que você vai fazer em um lugar que você não pode fazer nada?”. Depois da compra pela prefeitura da cidade, houve um plano de incentivo turístico o que ajudou a Vila de Paranapiacaba que sofria, até então com o descaso por parte da Rede Ferroviária Federal. Mas mesmo assim, a cidade só sobrevive de “turismo, turismo e turismo, desde a moça que limpa a mesa do restaurante até o guia turístico. Em Paranapiacaba, só se vive de turismo.”
Sukita casou e deixou a Vila de Paranapiacaba há seis meses atrás para morar no centro da cidade de Santo André. Com uma aliança nova em seu dedo, ele falou que já havia algum tempo que estava tentando sair da Vila por não acontecer nada. Sukita vai aos finais de semana a Paranapiacaba para trabalhar como monitor e guia turístico. E embora possua grande interesse pela vila, o mais famoso monitor transmite certo grau de tristeza. “Já faz 20 anos que estou tentando sair daqui”, disse brincando, mas, não se sabe o verdadeiro significado.
Dona Francisca, a moradora mais antiga da Vila
Depois que conversamos com Sukita, fomos recomendados a ir visitar Dona Francisca, que morava na entrada da parte baixa da Vila de Paranapiacaba. De acordo com ele e com outros moradores, Dona Francisca é uma das pessoas mais antigas da vila e iria conversar com a gente. Indo até lá, avistamos uma pequena casa ainda da construção inglesa. Havia uma senhora na varanda, com a idade já na cara devido as rugas, observando o movimento das pessoas no centro Vila. Essa mulher era Dona Francisca e sua casa era uma loja de artesanatos, feitos por ela mesma.
Quando chegamos, Dona Francisca olhou para nós com um curto sorriso, já esperando o que iriamos dizer. Começamos a conversar e ela já disse “Ah, mas esse negócio não vai para tv não, né? O pessoal aqui não gosta que eu dê entrevista, eles não gostam.” Questionando por que os outros moradores não gostavam que ela falasse, explicamos que era para um trabalho de faculdade, e assim, ela nos convidou a entrar em sua venda.
Dona Francisca nasceu e viveu toda a sua vida na antiga vila inglesa. É filha de mãe e pai ferroviários. Tem 85 anos, segundo sua conta. É viúva, possui um filho e trabalha com sua neta na loja de artesanatos criada em 2002. Curta e grossa em todas as respostas, Dona Francisca disse que os outros moradores não gostam dela. “Acho que é inveja por eu dar entrevistas.”
“Quando criança eu não saia na rua. E aqui mulher não trabalhava, só comia e dormia. Comia e dormia. Aqui é o lugar do porco”. Dona Francisca foi casada e quando o marido morreu, teve que começar a trabalhar. Não ficou com a aposentadoria dele porque já havia se separado. “Eu não fiquei com o dinheiro dele porque eu corneei ele. Aí, né, tu já viu?”, contou do caso quando traiu o ex-marido com um outro ferroviário, o que causou muita confusão na Vila de Paranapiacaba naquela época. Não entrou em mais detalhes. Não falou mais por ser muito áspera em suas respostas.
Tinha um semblante muito fechado, quase não sorria e nem abria a boca. Encarava as pessoas como se estivesse esperando elas falarem algo para que fosse grossa na resposta. Sua loja possuía um banner com Dona Francisca sorrindo, e não conseguíamos imaginar que aquela moça da foto, era a mesma que estávamos entrevistando. “Fernanda!”, gritou quando clientes entraram em sua loja. “Deixa eu chamar minha empregada”, foi o que Dona Francisca disse se referindo a sua neta, que trabalha junto dela na loja.
“Isso aqui era chique, não era assim. A cidade era movimentada com os ingleses aqui. Você ia para a mata, você não pagava, e agora você paga tudo. Fica caro”, contou Dona Francisca da mudança que ocorreu na Vila de Paranapiacaba. Suas respostas começam a ser engraçadas pela falta de polidez, não por falta de educação, mas, por ter tanta vida vivida que já não se importa mais com o que as pessoas pensam. Quando perguntada sobre o que acha do futuro, Dona Francisca disse: “Que futuro? Aqui se você não tiver a sua aposentadoria, você não sobrevive. O que que eu vendo aqui? Nada, não vendo nada.”
“A semana aqui é segunda, terça, quarta... Come e dormi”, contou sobre como fica cansada de não fazer nada. Na grande parte das entrevistas, todos falaram do quanto gostam de Paranapiacaba, mas também do quanto odeiam o tédio da pequena cidade de origem inglesa.
Quando já nos despedíamos de Dona Francisca, ela tira de baixo do balcão um livro publicado m que tem uma poesia sua. Descobrimos então que a velha da casa de artesanatos é uma poeta. “Os anos lá se vão. E eu na solidão. Saudades da mocidade, dos meus passeios na estação. Andava de lá para cá, sem saber o que olhar. O homem servindo café, o pipoqueiro a falar. O trem a apitar, a moça formosa a conquistar, o andar. O trem vai embora, eu na estação. Não conquistei ninguém, nem um amor, nem um bem. Os anos se passaram, fiquei sem estação. A moça formosa não tem nem o trem. Meus cabelos brancos chegaram, a velhice também. Eu vi o trem, ouvi o badalar do Big Bem. Vi a destruição, também”, esse é o poema, de Francisca Cavalcante de Araújo, moradora de Paranapiacaba há 85 anos, que consegue retratar as mudanças na vila. Do que era, e do que é hoje.