Assim que recebeu a aprovação, não demorou em sentar, pegando uma das torradinhas apontadas por ela, mordendo com fervor, estava com muita fome. Sentiu até mesmo os olhos revirarem assim que o sabor chegou às suas papilas gustativas. “Caramba, que pãozinho bom…”, só então percebeu que devia estar parecendo uma completa maluca, rindo de si mesma. Apanhou o guardanapo e limpou a boca, ajeitando na cadeira antes de dar levemente de ombros. “Eu sinceramente não sei, mas acho difícil. Só usei o diminutivo porque parece ser mais fácil de conseguir as coisas assim.”, sinalizou para a garçonete que passava ali, pedindo um cardápio para si, voltando a atenção para a loira em seguida. “Mas você me parece meio tristinha… aconteceu alguma coisa? Não sou a melhor conselheira do mundo, mas posso tentar ajudar em algo.”
“Está mesmo?” Franziu os lábios levemente antes de se render às torradas brilhante, puxando uma para seu pratinho de entradas e esfarelando-o conforme repartia com os próprios dedos para morder um pedaço, e pelo menos ela tinha razão. Estava bom de verdade. “Vou me lembrar disso da próxima vez que usar o Clarinha, só pra já esperar algum pedido inusitado.” Piscou levemente com um sorriso no canto dos lábios antes de respirar fundo uma vez, distraindo-se com tão pouco como se nem estivesse interessada em estar ali de verdade. Mordeu um pedaço maior do pão para encher a boca, como se aquilo fosse ajudá-la a não falar, mas como sempre, ficava de boca vazia. Um dos ombros subiu e desceu e ela negou levemente com a cabeça. “Nada demais. Só problemas no paraíso, e vítima de uma fofoca. Sabia que disseram por aí que eu sumi por quatro dias? Pelo jeito uma mulher não pode tirar uma soneca que é dada como desaparecida... E, you know... Love problems.”
Não mentiria dizendo que era uma boa amiga. Violet sabia que tinha dificuldades em demonstrar o quanto gostava de algumas pessoas e que estas sofriam com sua personalidade difícil, mas a jornalista se importava verdadeiramente por estas. Motivos para que estivesse tão preocupada com @periwinklc. Havia descoberto que a amiga fora uma das pessoas que desapareceram e sentiu-se extremamente culpada por não conseguir fazer nada a respeito. Se tivesse feito algum avanço na sua pesquisa, poderia ter evitado que aquilo acontecesse. Teria que se esforçar para tentar resolver toda a questão agora que ela estava de volta. Era questão de honra! Não queria mais suas amigas próximas sendo vítimas daquele tipo de coisa. “Abre, abre, abre!” Começou a tocar a campainha de Clara com nervosismo. Precisava ver a professora e ter certeza de que ela estava bem.
Escondida no meio de algumas pilhas de provas e cadernos, Clara tinha os fones de ouvido tocando uma música alta para tentar engajar melhor seu trabalho ali, como se tudo estivesse normal demais. E estava, porque ela não sentia nada de diferente apesar de saber que algo estava errado. Deixa pra lá, é o que sempre repetia. Se a pessoa do lado de fora tivesse tocado a campainha uma única vez, definitivamente já teria ido embora, mas não foi o caso. O timbre repetido chamou atenção por cima da música e ela pausou a música antes de retirar os fones, franzindo o cenho. Precisou espiar pelo olho mágico antes de abrir e, com a mão na cintura, destrancou a porta. “Eu não sei mais nada pra sua matéria do acidente, Violet. Esse caso já não tinha sido encerrado?” Ergueu uma sobrancelha, já pronta para o questionário que a morena sempre empurrava para complementar as informações do jornal. Deu espaço para ela entrar, erguendo o braço para o interior do apartamento. “Não é possível que o porteiro já gosta tanto de você pra te deixar subir sem me avisar... Aliás, eu li a matéria sobre o casamento real da cidade com ele, e concordamos que ficou muito ácida e amargurada. Ficou ótima. Quer uma bolacha? Água? Também tenho suco integral de uva.”
“Clara!!!” Felicity gritou no meio do parque quando notou a menina andando alguns metros de distância. Deu alguns passos firmes em direção à loira, ignorando que as outras pessoas estavam olhando pra ela. Estava feliz por já não estar mais grávida porque aquela barriga enorme a atrasava um pouco, além de estar nervosa com os últimos acontecimentos em Storybrooke – estaria aos prantos se os hormônios fossem tão intensos quanto antes. “Por onde você esteve? Eu estive procurando por você! Achei que tinha sumido como os outros!” Disse quando já estava próxima dela. “Você não pode desaparecer assim sem mandar nenhuma mensagem! Nem um emoji!”
Picolés eram a única coisa gelada que Clara andava tendo acesso naquele verão enquanto ainda não tinha férias, e o senhor do carrinho do parque vendia os melhores que ela conhecia. Já estava no segundo, completamente distraída como se nada tivesse acontecido de verdade quando ouviu Felicity a chamando do outro lado. Parou assustada por um instante antes de ir na direção dela, mas completamente calma; não queria perder seu sorvete correndo. A abordagem da amiga fez com que ela suspirasse um pouco cansada, mas ela tinha toda razão: ela sequer havia deixado um recado depois. “Aqui, com os picolés.” Chutou absolutamente nada levemente no chão, tentando disfarçar a vergonha pelo assunto. “Eu sumi, mas não do jeito que pensaram. Foram só algumas horinhas porque eu estava muito cansada e peguei no sono no banco do jardim botânico... E aí esqueci de avisar.” Mentiu descaradamente, e nem mesmo ela sabia porque dizia aquilo quando, na verdade, era o efeito da maldição mascarando o que havia acontecido de verdade. Para Clarissa, tudo era confuso, mas ela acreditava quando dava aquela resposta. “Se isso foi um ataque à minha compulsão de mandar emojis, eu já disse que não consigo parar. É mania!” Protestou levantando a mão livre do sorvete. “Mas não foi nada demais. Os fofoqueiros do prédio aumentaram a história bem mais do que realmente foi. Sabe como é fim de semestre... Só queria tirar uma soneca. Como você está, aliás? E o meu bebê?”
❛ volumes . gaze at my muse in a way that silently says ‘i love you’ . ( flashback )
flashback — neverland
Apollo falava sobre seu barco e sua futura viagem com tanta empolgação que Periwinkle quase não conseguia acompanhar. Era nítido que o rapaz estava cheio de objetivos e já havia rabiscado os mapas que pegara emprestado de Gancho, e alguns que ela mesma havia tirado de Clarion, mais de uma vez. Não pensou duas vezes antes de ir atrás daquilo que ele tanto queria, e sentia que se empolgava juntamente à ele todas as vezes em que o assunto surgia. Novas terras, lugares diferentes, a potência do barco e até mesmo qual seria a decoração de sua bandeira pirata. Quem visse de longe conseguiria ver que seu brilho aumentava todas as vezes em que Apollo tagarelava sobre o futuro, e era raro que o pirata falasse tanto daquele jeito; geralmente, aquele cargo era todo seu.
Enquanto a conversa era toda costurada, Apollo falava sobre as coisas que ela faria durante as viagens, sobre como ele dirigiria o leme e ela seria a guarda do leme, capaz de criar grandes rochas de gelo quando inimigos em potencial fossem atrás deles após pegarem muito ouro ‘sem dono de verdade’. Também reforçou diversas vezes como ela seria essencial em viagens a mares quase congelados, rodeados por geleiras, porque ela amava tanto o frio e gelo e conseguiria mapear tudo apenas pela vista das crostas congeladas... E aquilo trouxe a mente dela para Neverland outra vez, sobre como o bosque de inverno andava em condições terríveis.
O peito de Periwinkle se apertou ao imaginar aquele empecilho, novamente trazendo-a para a dúvida de uma decisão que ela não queria tomar. Era pra ser tudo fácil e simples: ela iria embora com ele, ponto final. Mas não era. Com Milori ameaçando se aposentar de vez, ou pelo menos aposentadoria era o apelido digno para se dar e esconder o que acontecia de verdade, alguém precisava ser responsável. Peri não tinha coragem de dizer nada para Apollo porque não queria tirar aquela alegria dele, e não queria dar a impressão de que não queria ir. Na verdade, era tudo o que ela mais queria e tinha vontade. Entretanto, a pressão de ter uma responsabilidade sobre um bosque inteiro e várias vidas era algo indescritível.
O olhar da fada azulada baixou-se por alguns instantes enquanto Apollo ainda falava, agora sobre como eles atravessariam um portal que prometia levá-los a uma tal de Wonderland, onde diziam que as águas eram vermelhas ou brancas. Não demorou para que ela tomasse o ar intensamente, voltando-se para ele com os olhos ternos novamente. Tudo o que a aguardava por Neverland adentro podia esperar, já que mesmo com o coração apertado, nada valia tanto a pena quanto ouvi-lo desenhar todos os seus sonhos em palavras. E Periwinkle sabia que aquilo significava que ela o amava tanto quando parecia, e seus olhos claros, atentos entre cada curva que os lábios faziam e os olhos com os cílios tão pretos quanto a noite, entregavam todo aquele sentimento, que se aflorava pela simples presença.
❛ I fell in love with you, smartass, because you were one of us. ❜ (Lorenz)
flashback — senior year
Clarissa não pôde evitar o riso fraco que se saiu, embora estivesse cheio de graça, pela fala de Lorenz. Os dois eram, na verdade, de mundos completamente opostos e ela sequer tinha certeza de que eram mesmo para ser alguma coisa. O que importava naquela noite é que ele era seu namorado, mesmo às escondidas diante da família. Ela se preocupava frequentemente com o que os pais do garoto poderiam pensar a respeito daquela relação, porque ela era um tanto mais... humilde que ele, e seus pais não eram nada fixos ou atenciosos como pensava que outros pais fossem esperar. A angústia em querer dar alguns passos para trás e conseguir tirar o moreno daquela situação era grande, especialmente porque ela não queria esconder mais nada ou revelar e acabar sendo desaprovada. A única solução que via era tentar terminar, e como sempre, Lorenz acabava amarrando-a de volta junto a si de uma maneira que ela não conseguia resistir.
Gostava mesmo dele e queria que tudo desse certo. Às vezes, sentia que ambos sabiam bem que alguma hora chegariam ao fim daquela linha e, às vezes, sentia que era apenas da parte dele a vontade de aproveitar o agora. Clarissa era um tanto mais emotiva do que deveria ser e consequentemente se machucava mais. Mas ali estava ele, tentando confortá-la com dizeres carinhosos e brincadeiras apenas deles. “I’m not sure if I’m one of us.” Brincou, puxando uma mecha do próprio cabelo para enrolar no dedo algumas vezes antes de levantar o olhar divertido a ele novamente, dando levemente de ombros. “But I’m sure I’m yours for now.” Inclinou-se rapidamente para deixar um beijo estalado sobre os lábios do outro.
Grunhiu diante da fala de Clara e seguiu apontando para o braço, esperando que ela entendesse que queria ser beliscada. Nunca poderia acordar daquele pesadelo se ela não sentisse alguma dor. Balançou a cabeça em negação veementemente, não ela não tinha quebrado o braço. Havia quebrado suas cordas vocais se é que era possível. Quase lhe abraçou quando a professora pareceu entender o pedido e esperou pelo beliscão que apesar de doer e Joanna ter feito o possível para exclamar sua dor, não saíra nenhum som. Arregalou os olhos. Não era um pesadelo. Sentiu as pernas enfraquecerem e encostou-se na parede antes que caísse, sentindo-se completamente assustada diante daquela situação. Nunca imaginou que algo como aquilo poderia acontecer com ela em algum momento. Perdeu-se nas palavras da loira e apenas voltou a encará-la com a sugestão de que havia bebido. Talvez devesse fazer aquilo agora. Estava precisando. Hospital, hospital era uma boa ideia! Começou a balançar a cabeça em concordância. Talvez um médico soubesse o que estava acontecendo, mas Clarissa não poderia chegar lá dizendo que Joanna estava bêbada. Tentou lembrar-se de como fazer mímica e pediu que a amiga prestasse atenção no que fazia a partir de gestos: Começou a imitar seus movimentos enquanto dava aula mais cedo e então tossiu — daquela vez sem som, mas Clara precisava entender que tinha algo a ver com a voz — e ao final fez uma expressão assustada de quem não estava entendendo o que acontecera. Entenda Clarissa! PERDI A VOZ.
“Oh, damn!” Clara exclamou de uma forma até mesmo cômica quando viu a amiga se entregar à parede e quase cair no chão, o que só não aconteceu pelo apoio e porque a loira a segurou sem pensar duas vezes. Não estava entendendo absolutamente nada daquela situação, especialmente porque Joanna não falavam! “Certo. Certo, hospital. Eu posso te levar. Onde estão suas coisas?” Perguntou, rodando no lugar e procurando por alguma bolsa que fosse da outra, mas nada encontrava. Será que ela tinha mesmo bebido alguma coisa? Talvez sem querer... Franziu o cenho, voltando a encará-la, e tentou entender o que ela quis dizer. As palmas no ar e um pedido de calma foram feitos e Clarissa permaneceu no lugar, uma sobrancelha arqueada como se a estivesse julgando e, bem estava. “Mímica, entendi. Se isso for brincadeira, Joanna...” Começou, mas percebeu que ela se esforçou para tossir e nada saiu dali. Um ruído sequer. As coisas ainda pareciam estranhas, mas pareciam se encaixar devagar. “Você tossiu e aí ficou com a garganta ruim? Dor de garganta? Por isso não fala!” Tentou adivinhar, mas não foi bem o que a expressão final da amiga parecia querer dizer e, para completar, ela parecia assustada de verdade. “É isso? Acontece em dor de garganta de perder a voz, geralmente ficamos roucos, mas você está... muda. Meu Deus, Joanna! Você ficou muda? Depois da dor de garganta? Não tosse perto de mim! Sem ofensas.” Ficou levemente apavorada, se afastando um pouco. “Tudo bem, hospital e boca fechada. Vamos. Isso não pode espalhar.” Alarmou-se, puxando-a pela mão e já tirando da bolsa um frasquinho de álcool em gel para usar no caminho. “Tem uma máscara do Patolino na sala de aula. Acho que é do Ian. Você pode usar. Vamos buscar.”
Caleb franziu o cenho, ainda um pouco sonolento demais para pensar na pergunta que ela fez e entender o que Clara estava insinuando sobre dormir sozinho. “Uh… Sim…? Só tem eu em casa.” Foi o que respondeu, e era mesmo bem capaz de adormecer sem que sua colega de apartamento estivesse presente. Claro que teria sido melhor nessa situação se Noelle estivesse em casa e ele teria pelo menos alguma pequena chance de chegar no restaurante na hora certa, caso ela se lembrasse de acordá-lo ou o acordasse com um barulho alto. De qualquer jeito, Clara estava magoada e a culpa parecia ainda pior e mais pesada em suas costas quando notava que ela mal conseguia esconder o choro.
A mente de Caleb ainda parecia um pouco zonza e uma pontada de dor continuava insistindo em latejar, como uma enxaqueca terrível. O efeito de ainda não ter comido nada e o jeito que se levantou tão depressa só para continuar com todo aquele sono estava começando a assustá-lo, e não ajudou quando Clara revelou quanto tempo Caleb adormeceu. “Três horas??” Como isso era possível? Nem mesmo as noites mais caóticas que passou em bares e festas o deixaram tão sonolento – Caleb tinha decidido agora mesmo que preferia passar por uma ressaca do que pelo sono pesado que o assombrava pelos últimos dias. “É claro que não foi por causa da última vez! A gente conversou e estávamos bem.” Caleb continuou insistindo com Clara, afastando a mão para cruzar os braços para evitar de tocá-la de novo. Não queria deixá-la desconfortável, mas mesmo assim permaneceu perto para mostrar que também não queria que ela fosse embora. Sabia que as chances de consertar isso eram poucas, afinal, todas as vezes que suas ex se magoaram com o moreno daquele jeito queria dizer que estava acabado. E geralmente ele só tentava esquecer enquanto seguia com a vida, mas era diferente com Clara. E não era só porque trabalhava com a loira, mas porque o sentimento que nutria pela professora era algo que nunca teve com outra pessoa; e tudo que ele queria era mostrar pra ela que se importava, fosse em pequenos gestos ou fosse com um jantar que significava muito para ambos. Agora, sua última chance de fazer isso estava arruinada porque ele resolveu dormir.
Seu coração começou a bater forte enquanto ela falava, rejeitando cada ideia sobre se evitarem. “Pretendentes? Eu…” Agora ele entendia o que estava acontecendo – e isso explicava a primeira pergunta dela e, de repente, Caleb estava um pouco ofendido e até quase totalmente desperto. Caleb queria arrumar aquilo de alguma forma, e queria que Clara soubesse que ele se importava com ela, então o magoava que tudo que ela conseguia assimilar dos momentos que tiveram juntos era que Caleb só estava planejando uma brincadeira de mal gosto. “Então, o que? Você vai se afastar de mim por causa disso? Você acha mesmo que eu fiz isso de propósito?” Não tinha mais noção se estava soando irritado, ou magoado, ou os dois. Queria ficar com ela e era frustrante não poder demonstrar isso melhor, adicionando com o fato de que o universo parecia contra eles. “Se você sabe que eu sou tão babaca a ponto de te deixar plantada porque estou tão afim de outras pretendentes, então por que você concordou com um encontro em primeiro lugar?” Não era justo que toda aquela culpa deveria cair em suas costas, até porque da última vez ele poderia ter falado a mesma coisa para Clara, que também teve seus pretendentes aqui e ali, mas Caleb continuava se esforçando porque gostava dela e ela parecia gostar dele também… Só que também não era justo que estivesse descarregando isso agora, que Clara teve que passar três horas plantada num restaurante por sua culpa. Ótimo Caleb, você conseguiu arruinar mais um relacionamento na sua vida. “I’m sorry.” Caleb repetiu o que ela disse por último, suspirando enquanto obrigava seus ombros a deixarem de ficar tão tensos, recostando-se no batente da porta de seu apartamento. “Me desculpa por ter estragado tudo.” Continuou. “Eu…” Eu gosto de você. – ele poderia dizer – Eu sonho acordado com todos os encontros que a gente poderia ter. – era outra opção – Eu sei que a gente ainda tem tempo pra ficar junto e arrumar isso. – poderia completar. Só que Caleb não disse nada. Não sabia se estava com medo de magoá-la de novo no futuro, ou apenas era covarde demais. Ficou em silêncio por um tempo antes de voltar seu olhar pra ela. Clara ainda estava linda, e tudo que desejava era poder pular toda essa parte em que estavam praticamente brigando pra ficar bem de novo. “Você ainda pode passar a noite comigo.” Ele tentou a convidar de novo, mesmo que a resposta não fosse o que o professor queria ouvir.
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A resposta de Caleb como se parecesse na dúvida levou Clara a pensar que, talvez, ele estivesse pensando que ela perguntava sobre sua colega de quarto. Nunca duvidou da capacidade das pessoas de se fazerem de tontas quando era conveniente, mas não conseguia enxergar que Caleb estava fingindo ali. Ele realmente parecia estar dizendo a verdade e só enquanto ele falava pôde perceber suas olheiras mais roxeadas que o normal. E se sentiu uma completa idiota por pensar e sugerir coisas tão negativas, mas sua língua grande já havia falado mais do que devia e agora estavam ali, naquela posição tão tensa e delicada.
Se pudesse se duplicar naquele instante, ela se daria vários tapas para tentar se acordar. No fundo, ela sabia que a última vez estava praticamente apagada, porque haviam mesmo conversado e ficado bem em mais vezes, fosse entre os corredores da escola ou durante um café da tarde desajeitado na sala dos professores. O tempo andava curto, era verdade, mas eles continuavam se dando tão bem quanto antes. E nada daquilo fazia sentido, no fim das contas. Ambos haviam se enganado ou perdido a data e hora por motivos tão bobos e diferentes de uma forma que parecia até sabotagem, e ela só não sabia dizer como ou de quem. E estava arrependida das besteiras que havia dito até então, e mesmo pedindo desculpas, sabia que agora ele era quem estava chateado, não porque ela faltou um compromisso, mas porque suas falas tinham soado um pouco más. E Clara não pensava menos de Caleb ou que ele fosse ser tão insensível, pelo contrário: ele sempre se provava ser melhor do que ela poderia esperar, e também parecia ser um encaixe perfeito em suas qualidades e defeitos. Engoliu em seco uma vez e cruzou os braços da mesma forma, encarando os próprios pés sem a mínima coragem de olhá-lo.
Mas aquilo durou pouco tempo. As palavras seguintes a desarmaram por completo e sentiu-se mais envergonhada ainda de sugerir coisas tão ruins. Ele estava no total direito de se sentir com raiva, magoado ou ofendido, e ela não poderia exigir que ele compreendesse seus anseios e inseguranças, especialmente porque enquanto ele poderia ter tido várias pessoas, ela quase nunca teve ninguém na vida adulta. De um instante para o outro, porém, Clara se viu ofendida de novo, e se perguntou se demonstrava afeto tão mal assim. Os braços se mantiveram cruzados e os olhos claros semicerraram-se. A coluna de Clara inclinou-se na direção do moreno levemente, e a voz saiu ligeiramente sussurrada: “Because I like you, dumbass!” O coração chegava a errar batidas naquele momento e o frio na barriga era completamente apavorante. Admitir aquilo em voz alta era amedrontador porque ela não sabia se receberia a mesma resposta e, honestamente? Dane-se. Clarissa sentia que tinha um peso maior nas costas por nunca conseguir se expressar bem ou se reter com medo de afastá-lo, e confessar o sentimento de uma forma mais palpável era libertador. E constrangedor. E medonho. E, bom, ela já havia dito. “Certo. Acha mesmo que eu penso que você é tão babaca assim? Eu nunca disse isso, Caleb. Eu sequer conseguiria pensar em algo assim. Você é...” Tentou finalizar, mas quase e engasgou na p´rópria garganta. A voz saíra um pouco mais frouxa, enquanto a postura se voltava para aquela murcha que tinha anteriormente por saber que era um tanto estúpida. Respirou fundo uma vez e negou brevemente com a cabeça. No fim das contas, era ela quem havia estragado tudo, insinuando coisas em que não acreditava e apenas deixara escapar porque estava irritada e enciumada. Mesmo já tendo pedido desculpas, sentia que não valeria de muita coisa. Apertou os olhos uma vez e esperou que ele dissesse. Ela queria muito ouvir o que ele sentia, queria ter certeza de que não precisaria se preocupar com sua falação porque ele gostava das coisas daquela forma. E quando nada veio, Clara pensou se por um acaso não estava certa sem querer, e aquilo partiria seu coração, porque Caleb era dono de um de seus sentimentos mais puros que há anos não sabia definir bem. Queria que ele se sentisse da mesma forma, mas agora só havia trazido um monte de rancor para uma conversa ruim. Abaixou o olhar novamente, pensando em já apertar o botão do elevador para sair dali e nunca mais voltar, já pensando em várias estratégias para despistá-lo na rua, escola e qualquer outro lugar. Mas ele falou de novo, e os olhos de Clarissa brilhavam novamente. Por mais que Caleb não fosse tão expressivo verbalmente, ela gostava de brincar que ele tinha seu próprio jeito de admitir, pedir, confessar ou reclamar. A bolsa pareceu ficar mais pesada naquele instante e se lembrou da embalagem contendo um pudim que havia trazido, pensando em comê-lo enquanto sofria uma desilusão em casa. Olhando para a roupa amassada do professor de história, deu um passo atrás do outro, cautelosos, na direção dele. Os dedos foram de encontro com a gola da camisa branca, que foi ajeitada assim como o restante da roupa enquanto ela conseguia pensar unicamente em como ele estava radiante, mesmo com as vestes mal arrumadas. Precisou morder a bochecha para não rir baixinho e acabar soando insensível ou dando a impressão de que estava fazendo graça. Caleb estava e era lindo. Ainda olhando para baixo, os dedos da loira foram até os dele, os quais segurou levemente. “I’m really sorry. Eu não quis dizer nada daquilo. Eu só... Não sei. É confuso. E provavelmente uma das confusões que eu mais gosto.” A voz saiu baixinha e tímida enquanto ela sentia o perfume natural do rapaz que parecia um abraço. “E, hm, eu tenho um pudim.” Soltou de repente, olhando-o na esperança de receber alguma aprovação. “Se ainda quiser um fim de jantar...”
Bella não tinha o costume de jantar fora, ela gostava muito de cozinhar. A lembrava do tempo que passava na cozinha na companhia do pai e seu coração permanecia quentinho, apesar de todas as outras situações que vivenciaram. Naquela noite, no entanto, estava com vontade de sair. Ajeitou-se de forma aceitável, sem muitos acessórios, e desceu do apartamento que morava até a rua, caminhando a passos lentos até o Granny’s, um dos poucos restaurantes que realmente chamavam sua atenção. Não esperava, no entanto, encontrar o local lotado. E assim que seus olhos pousaram sobre o semblante conhecido de Clara, não deixou de se aproximar. “Oi, Clarinha… se importa se eu lhe fizer companhia essa noite? Parece que a cidade toda decidiu jantar aqui.”, ela riu baixo, esperando que a resposta fosse positiva.
Clara se perguntou algumas vezes enquanto beliscava o pão amanteigado que havia chegado antes de seu pedido se estaria fadada a jantar sozinha para sempre depois de duas tentativas fracassadas em um encontro e a negativa de todas as suas amigas ocupadas naquela noite. Não que ela se importasse, é claro, mas quando tudo dava errado, acabava suspeitando. Muito. Respirou fundo, deixando a casca do pão de lado, até ser abordada no meio das vozes altas e felizes até demais para o gosto dela naquele instante; péssima noite. Apesar dos pesares, abriu um sorriso gentil. Gostava de Bella e a presença havia sido boa em outros momentos. Por que não, certo? “Claro. Você ainda chegou na hora certa porque acabaram de deixar essas torradinhas por aqui.” Sorriu uma vez, erguendo uma sobrancelha para ela e sentando-se melhor. “E é bom que posso comentar que ultimamente percebi que todo mundo anda me chamando no diminutivo. Não que eu esteja incomodada, é claro.” Falou antes que ela pudesse entendê-la mal. “Mas queria saber se tenho alguma fama pelas costas. Será que é porque me acham boba?”
Após a reunião de pais e alunos daquela noite, Clara não conseguiu rejeitar os olhares que Francisco lhe dava, completamente ansioso e nervoso. Ainda se recordava do episódio em que ele a havia atraído para um buraco jurando ter visto um coelho com relógio de bolso alertando-os sobre o atraso para o chá... Que chá? Que coelho? Por mais que aquilo fosse, logicamente, toda a imaginação fértil de uma criança, a loira só conseguiu se perturbar mais ainda com o pensamento naquele restante de sexta-feira. E sem perceber, caminhou para fora da escola completamente sem rumo de volta ao jardim, onde se deparou com o mesmo buraco e, instantes depois, se viu caindo no mesmo. E tudo ficou turvo demais.
Clarissa sentiu um enjoo forte ao ver todas as cores, cheiros e situações diferentes. O vestido que usava anteriormente em Storybrooke agora estava em um tom tão escuro, feio e morto que ela sequer parecia ela. Os cabelos loiros estavam gelados como num dia de inverno, assim como seu nariz, boca, bochechas e, bem, todo o corpo, mas não porque estava frio: ela estava apavorada e correu até bater forte contra uma porta vermelha e robusta, que abriu com o simples toque e fez com que ela caísse do outro lado. Conseguia ver todo aquele ambiente que nunca vira na vida antes completamente arruinado, ao mesmo tempo em que era mítico como se tivesse saído de um dos livros que se divertia lendo com seus alunos.
Algo muito ruim parecia ter acontecido ali, e ela caminhou por toda a noite ofegante, precisando apertar os olhos e falar em voz alta, gritar desesperada, para ter certeza de que tudo aquilo não era real. Mas era, e cada vez mais perturbador. Sentiu o estômago embrulhar diversas vezes e perdeu a conta de quantas vezes precisou se recuar em uma árvore viva para se recompor, toda decorada de símbolos de cartas que eram assustadores e não admiradores. Os ruídos que as plantas faziam eram absurdos, e foi imersa naquela loucura da natureza viva que acabou apagando, exausta de tanto correr sem rumo.
sábado e domingo.
Quando acordou, não estava no mesmo lugar, e aquilo a apavorou novamente. Sentia estar completamente fora de si, precisando se olhar no reflexo da água para ter certeza de que ela era mesma... Mas a água era vermelha como sangue, e nada conseguia refletir, e quando refletia, sempre tinha a sensação terrível de que grandes asas estavam penduradas em suas costas. Rodou no lugar tantas vezes para garantir que nada havia nas costas que caiu uma, duas, quatro vezes. É claro que nada encontrou, e ainda assim, estava no lugar irreal, onde criaturas desesperadas corriam de um lado para o outro gritando sobre o fim dos chás.
Seu estômago estava doendo de fome, e sentia que qualquer coisa que colocasse na boca voltaria com a mesma rapidez que entrasse. Quando finalmente se deu conta de que falavam de chás, teve a brilhante ideia de falar com as cartas de baralho em tamanho real que gritavam para todos os lados junto de baixinhos gorduchos que pareciam ter a mesma face: Alguém viu o coelho?, foi o que perguntou várias vezes, e em algumas delas, sentiu que estava sendo muitíssimo xingada pelos seres, mas não conseguia compreender uma palavra.
Depois de correr para os lados e ver ao longe duas ruínas opostas de um castelo branco, tão distante que mal conseguia ter certeza de que era um castelo de verdade, e outro vermelho destruídos, sentou-se sobre a grama verde e chorou como se não houvesse outro dia. O que estava acontecendo? Será que Francisco colocara algo nos cupcakes da reunião? Ele era uma criança! Não era possível! Aquilo parecia familiar demais, como se já estivesse naquele ambiente, mas Clarissa estava devastada. Nada fazia sentido, nada a compreendia, e nem mesmo os baralhos furiosos conseguiam lhe prestar um xingo decente.
Sentia que o ar escapava dos pulmões com frequência em um surto de pavor, até que eles apareceram. Philip e Gwendolyn Mayfield apareceram com suas camisas de viagens e um boné de lembrança de algum lugar, amparando a filha de uma forma um tanto estranha, e a coisa mais lógica que Clarissa fez com suas mãos machucadas e os joelhos ralados foi ir até eles — mal ela sabia que aquilo era tudo obra de Wonderland e seu território devastado. Se jogou nos braços dos pais que há tanto não via com um alívio extremo, mas a expressão preocupada deles não fez com que se sentisse melhor.
“Mãe? Pai! Vocês precisam sair daqui, e me levar junto. Eu morri? Onde estamos? Vocês morreram? Meu Deus, o que está acontecendo?” Perguntou enquanto os sacudia, desesperada.
“Ah, floquinho... Nós sabíamos que esse dia chegaria, mas não está acontecendo da maneira certa. Você errou o caminho.” A voz suave e aveludada do pai, como sempre fora, saiu.
“Pensávamos que quando conseguissem salvar vocês, você entenderia as coisas. Até mesmo nós conseguimos criar uma afeição por você.” Os dedos delicados da mãe traçaram o rosto da professora de geografia, que parecia estar prestes a virar um pingo de luz de tão inferior que se sentia.
“Do que vocês estão falando? O que está acontecendo? Tem cartas falantes! Por todos os lados!” Perguntou, furiosa. “Eu quero ir embora.”
“É só voltar pelo mesmo caminho. Por que você chegou até aqui?” O pai indagou, tirando do bolso uma mexerica que começou a descascar, oferecendo a ela um gomo que foi visto com aceito com tanta raiva que logo foi jogado para o lado. “Você se machucou muito.” Continuou o homem na tranquilidade enquanto seu rosto desaparecia devagar.
“Pa-papai...” Gaguejou ao vê-lo como um borrão, apenas nas feições.
“Querida, nós nunca estivemos aqui. Fomos fruto da sua imaginação, e adoramos viver isso com você. Mas a maldição já acabou até aqui. Perdemos nossa função. Você não se lembra de como nasceu?” A mãe ergueu um dente-de-leão tão brilhante que parecia estar banhado de brilho, que foi pegado por Clarissa e logo umedecido. Ela sequer percebia que continuava chorando sem parar. “É hora de nos esquecer de vez. Você já sabia que isso estava acontecendo. Nossa última participação vai ser em te levar para fora. Ainda existem forças tentando consertar tudo. Você devia falar com Mirana, e Edward. Ou pelos outros nomes.” A mulher finalizou enquanto seu olhar se dissipava no ar esfumaçado.
“O QUE ESTÁ ACONTECENDO?” Clarissa empurrou dos pulmões uma última vez, recebendo uma única imagem dos pais, que também seria a última.
“Vamos, senhorita Winkle. Vamos te levar pra casa.” O homem, que sequer tinha nome para Clarissa mais, falou uma última vez.
Tudo pareceu um borrão novamente, e ela se viu andando completamente perdida, seguida de duas sombras que existiam apenas em sua mente. A boca estava seca e todo o corpo doía, pior que um dia inteiro de gincana escolar. A garganta estava fechada enquanto ela tinha certeza absoluta de que estava louca, completamente maluca, em um mundo onde tudo era terrível demais. E também havia sido ali onde Periwinkle se afundou antes da maldição cair de vez, o que a havia levado de volta para o mesmo lugar.
Não se lembrou de mais nada, e sequer percebeu que dois dias haviam se passado.
segunda-feira.
Quando Clarissa acordou novamente, estava diante da porta vermelha. Se recordava com um aperto enorme no peito das duas pessoas que eram completos estranhos, e não pensou antes de correr para longe dos baralhos berradores e do mundo que ardia em chamas. Apenas correu como se não houvesse outro dia e, de repente...
Estava em Storybrooke. Olhando para o buraco, estática. A testa estava franzida e sentia um grande cansaço no corpo. Os joelhos ardiam, as palmas estavam feridas e as costas pesavam como se tivesse carregado algo por dias.
Bom, Chico estava enganado. Aquele era apenas um buraco vazio que dava arrepios, de fato, mas não havia nada demais. Ela havia ficado tempo demais ali, apenas encarando, que havia imaginado coisas, inclusive que esquecera de seus pais. Tinha certeza de que era café demais para uma noite cansativa, exceto pelo fato de que era de dia. O que? Clara se levantou rapidamente, olhando para os lados perdida, enquanto um jardineiro a encarava agarrado à enxada.
“Bom dia, senhorita Mayfield. Esqueceu algo do passeio de semana passada? Já encontrei três garrafinhas de água das crianças e uma lancheira cor de rosa. Precisamos procurar por algo mais?” O rapaz perguntou, embora estivesse um tanto aflito com aquela cena. Clarissa tropeçou para trás, deixando o homem falando sozinho enquanto ia para fora daquele lugar.
Deparou-se com a bolsa e seus pertences, puxando tudo com muita força, e quanto olhou para o alto, viu um rapaz com um sorriso muitíssimo gentil, usando a camiseta de uma tal de Buts Dans La Vie, o que ela não fazia ideia do que se tratava, aproximando-se.
“Oi! Clara, certo?” Ele estendeu a mão, pegando na dela antes mesmo que ela pudesse oferecer. “Recebemos uma ligação de seu amigo, Caleb, reportando seu sumiço. Fico muito feliz em ter te encontrado. Quer me acompanhar? Posso te explicar sobre o nosso serviço, e nosso chefe, Gerard, disse que te conhece. Não precisa ter medo de nada.” Tagarelou tão convincente que Clara sequer negou a ajuda, olhando para o papel que ele entregava, sentindo os olhos arderem muito na tentativa de leitura.
“Sumiço? Eu acabei de chegar aqui... Acho que cochilei perto do buraco. Não foi nada demais. Hoje é sábado. De manhã.” Começou, sentindo que o toque do homem praticamente despertava alguns sentidos e praticamente apagava tudo o que sabia de antes, sobre Francisco, o buraco e a escola. Como se nunca tivesse acontecido.
“Hoje é segunda-feira, Clara. Podemos conversar em outro lugar. Caleb está te esperando na Buts Dans La Vie.” Apontou para o bordado na camisa e, novamente, falou com tanta garantia que ela assentiu e foi embora, olhando uma única vez para o jardineiro que tampava o buraco com urgência... E ela não fazia ideia de que buraco era aquele.
Naquele instante, pensou em telefonar a seus pais para avisar que estava bem. Se havia sumido, e acreditava que tinha mesmo sumido, mesmo que ainda estivesse confusa, eles sabiam também. Não queria preocupá-los. O problema era que ela não se lembrava deles nem um pouco. E sequer tinha certeza de que tinha pais naquele momento.
ooc. eu sempre deixo recado nas tags, mas agora vai ser aqui pra ficar legível. vem de read more!
gente, eu já tô com reply nos drafts quase terminadas e outras no like pra começar. eu tô realmente muito apertada com a faculdade agora, perdi um cado o muse porque tô no finzão do semestre, então vou dar uma de clubista e priorizar as inters que dão mais desenvolvimento ou aprimoram mais as relações e, por isso, vou estar dropando o restante. logo que voltar vou postar um call e me atentar aos starters, mas perdão mesmo pela demora e pelo drop, e obrigada pela compreensão! amo amo vcs.
Caleb não tinha ideia de onde aquele sono surgiu. De repente se via dormindo na biblioteca, na sala de aula entre os intervalos, e nem na hora da apresentação de trabalhos dos alunos estava conseguindo conter alguns bocejos – que podiam parecer bastante rudes no ponto de vista da criança que apresentava. De qualquer jeito, bebeu um grande copo de café assim que chegou em casa e de repente sentia-se como uma nova pessoa. Isso ia funcionar, estava certo disso, e ainda se encontrava animado para encontrar-se com Clara depois. Tomou um banho frio para ajudar a acordar, colocou perfume, vestiu suas calças, a blusa social, deixou a gravata por fazer e quando se sentou na cama para colocar os sapatos… bem, foi como se algo de repente começasse a pesar em seus olhos novamente. Não faria mal deitar um pouquinho… e foi o que fez quando puxou um travesseiro pra perto de si e afundou a cabeça ali. Sua cama parecia bem confortável depois de cochilar em lugares tão aleatórios e— Abriu os olhos em um susto quando escutou a campainha tocar. Caleb franziu o cenho ao se apoiar com o antebraço, olhando ao redor e seu coração quase saiu pela boca quando notou que já estava escuro lá fora e a campainha continuava tocando em um som contínuo como se a pessoa estivesse afundando o dedo no botão. Levantou-se em um pulo; estava com apenas um sapato vestido, a gravata toda torta, os cabelos bagunçados e o rosto amassado de sono, mas não tinha mais tempo para parecer apresentável quando atendeu o interfone para deixá-la subir. Abriu a porta com pressa e foi de encontro a Clarissa saindo do elevador. Ele sabia que ela tinha razão em estar irritada com ele – Caleb também ficou quando ela se esqueceu dele, mas aquela era pra ser a segunda chance dos dois. A culpa parecia ainda mais pesada que o sono naquele momento, principalmente quando a viu toda arrumada e linda demais, apesar da expressão de raiva direcionada ao moreno. “Clara, me desculpe, eu…” Não sabia que desculpa dar. Não havia exatamente uma, a não ser o que Clara já devia estar notando: ele estava dormindo. “Eu juro que peguei no sono e…” Ele deu mais um passo na direção dela, tocando-lhe o braço de leve como se desejasse por algum tipo de aproximação por estar com medo de vê-la se afastar agora. Seu coração bateu forte; sabia que tinha perdido mais uma chance de fazer algo certo em um relacionamento e pela primeira vez não queria fugir, mas, de novo, parecia que o universo pregava essas peças de propósito. “A gente ainda pode ir ou… fazer qualquer outra coisa…?”
Clara definitivamente não queria subir, mas quando notou que não havia barulho algum ou sinal de que ele descia, resolveu bater o pé para dentro do prédio. Aquela com certeza não era uma maneira desejável de conhecer o lugar onde Caleb morava, mesmo que a vez em que ele havia ido até o seu lar não tivesse sido na melhor das hipóteses. Mesmo assim, a loira estava chateada e nada conseguia conter o sentimento ruim na boca do estômago, como se estivesse mesmo acreditando que ele havia feito de propósito. Quando saiu do elevador, se deparando com a imagem dele totalmente bagunçada, se viu em dois extremos: o primeiro era da atração inegável e quase incômoda que sentia mesmo daquela situação; o segundo era totalmente associado a pensamentos ruins e possibilidades piores ainda, afinal, ela se fazia muito bem de surda, mas não era idiota o suficiente para ignorar os comentários sobre as mil mães babando e a fama de mulherengo que o rapaz tinha, sempre ditos entre um corredor e outro. “Você pegou no sono? Sozinho?” A pergunta saiu um tanto ofensiva e acusatória enquanto ela saía de dentro do elevador de uma vez por todas, cruzando os braços e entoando a voz em um tom baixo. Não queria causar uma cena entre os apartamentos de desconhecidos, mas não conseguia conter os mil sentimentos que fervilhavam ao mesmo tempo e totalmente opostos um do outro, o que causavam os olhos levemente irritados por segurar um choro inútil.
“Não.” Respondeu curta, sem conseguir desviar o braço do dele, sentindo-se ainda atraída pelo Caleb desarrumado que continuava tão lindo quanto ela conhecia. Respirou fundo uma vez, negando com a cabeça. “Não, porque tive que comprar alguma coisa depois de ser gentilmente convidada a sair do restaurante, e é claro que antes o garçom me ofereceu companhia porque eu fiquei praticamente três horas sentada olhando pro nada.” Desabafou o que havia acontecido com um pigarro na garganta, precisando mexer com a cabeça várias vezes para poder tirar o foco de si mesma. Estava se sentindo um tanto culpada por exigir a presença de Caleb daquela forma, e ao mesmo tempo, magoada por ter sido deixada plantada. “Me diz... Isso foi por causa da última vez? Por que eu esqueci? Achei que tivesse entendido de verdade que não foi de propósito. Eu disse que queria muito aquele jantar. E queria muito esse.” A tagarela começou, assim como sempre acontecia quando ela se encontrava imprescindivelmente nervosa ou ansiosa. Não conseguia aceitar bem que sua espécime de relacionamento estava indo por água abaixo e que havia sido ela a primeira pessoa que vacilou, desencadeando em todo o momento de agora. No fim das contas, só se culparia de uma vez por todas. “Não quero fazer outra coisa. Aliás, não quero fazer nada. Você só precisa ser sincero e se isso foi uma brincadeira de mal gosto, tudo bem. Eu posso esquecer e não vai ser difícil, você mal vai me ver na escola ou em qualquer outro lugar porque eu sou boa em evitar pessoas que não me querem por perto tanto quanto eu quero elas, ou porque eu vacilei, e eu sei que você tem ótimas pretendentes atrás de você...” Novamente, disparou a falar engolindo em seco uma vez para tentar desprender a garganta que parecia mais engasgada do que antes. Abaixou o olhar, se sentindo envergonhada por admitir ali tudo o que vinha sentido e o ciúme ridículo que sequer estava ao seu direito de sentir, afinal, eles não eram um casal de verdade, certo? Os olhos encaravam os pés nas sandálias de salto como se fossem a última coisa que queria ver no mundo. “I’m sorry.”
[ ✉️ ]: fofoca?
[ ✉️ ]: que fofoca doida kkkkkkkkkk eu ia dizer para X que uma conhecida tava precisando de um ombro amigo e coisas que eu não sei prover
[ ✉️ ]: e aí se vc quisesse eu mandava seu contato pra X
[ ✉️ ]: tipo secretária de um terapeuta??? sei lá kkkkkkkkk
[ ✉️ ]: eu não fofoco nem coisa interessante, imagina coisa que nem sei…
[ ✉️ ]: enfim
[ ✉️ ]: gatos são legais adota um!!
[ ✉️ ]: bom, nada tá fazendo muito sentido KKKKK
[ ✉️ ]: mas agora entendi melhor. deixa isso pra lá, é melhor não mandar nada
[ ✉️ ]: depois eu converso com ele pessoalmente...
[ ✉️ ]: eu só tenho fofoca de criança, mas são tão bobinhas
[ ✉️ ]: acho que vou adotar logo, já faz um tempo que queria
ser professora significava ter dia bons e dias ruins; aquele em específico havia sido um péssimo. como se de repente todos os seus alunos decidissem se rebelar por um dia, a briga entre dois meninos resultara em uma de suas estantes indo para o chão e quando finalmente conseguira separar os dois, os encaminhara até a diretoria. agora, após dar seu depoimento, esperava do lado de fora os pais deles. caminhava de um lado para o outro nervosa, odiava situações como aquela onde se sentia péssima por não ter agido antes. assim que levantou o olhar, percebeu que clara passava por ali, e logo sorriu de canto para a colega. “antes que você pergunte, não… não está tudo bem.”, suspirou, cruzando os braços em seguida. “espero que seu dia letivo esteja correndo melhor.”
Clara estava se sentindo igualmente ansiosa e nervosa, assim como a colega que andava para os lados no corredor. Já tinha ficado sabendo do boato da briga e parecia ser a coisa mais normal do mundo, sempre estressante para um professor. Sorriu como se quisesse consolá-la antes de respirar fundo. “Fiquei sabendo da pancadaria. Acho incrível como essas crianças sabem passar fofoca melhor que matéria.” Brincou uma vez, franzindo o cenho para o fim do corredor, que não tinha nenhum pai eufórico chegando por. “Foi muito feio? Ou só aquela implicação chata?” Indagou curiosa antes de rir um pouco desconsertada, negando com a cabeça. “Não exatamente, mas é uma bobeira.” Deu de ombros, pensando se deveria falar algo sobre ou não, mas acabando por partilhar do sentimento mais que esquisito. “O Chico, da Madalena, sabe? Começou com uma história de que tinha um coelho entrando em um buraco com um relógio, bastante apressado, nos jardins do fundo. E não parou de me chamar pra ir junto e, bem... Parecia verdade. Não um brincadeira que nem o resto, e sabe-se lá o porque, mas me incomodou. Bastante.”
Chegou na sala dos professores desesperada. Estava ofegante e os cabelos bagunçados. Seus olhos começaram a busca por @periwinklc e quando finalmente a encontrou, puxou-a pelo antebraço para fora da sala sem dar nenhuma explicação. A questão era que Joanna não podia explicar. Sua voz desaparecera! Completamente! Estava em meio a uma explicação sobre o Império Romano quando a voz começou a falhar até que nenhum som era possível de ser ouvido. Como uma professora poderia trabalhar sem voz? O que havia acontecido? Estava morrendo? Estava em um pesadelo? Talvez devesse tirar a prova daquilo primeiro. Quando parou com Clara em um corredor vazio, começou a apontar para seu próprio braço e torcer o ar com os dedos, como um pedido para que ela a beliscasse. Precisava de ajuda para acordar.
O puxão que levou de Joanna foi tão forte que Clara quase derramou todo o café que estava em um copinho fechado. Não havia entendido bem o que aconteceu, apenas que estava em uma sala bagunçada com ela que não era a dos professores, sem nenhuma explicação. As sobrancelhas da loira arquearam, esperando que ela dissesse algo, também fazendo com que deixasse o café de lado e cruzasse os braços. “Certo, desembucha. Eu aceito perder meu cafézinho da manhã por seja lá o que seja que você estiver tramando.” Perguntou, mas nada saía dos lábios dela além da apontada para o braço. Franziu o cenho, se aproximando com cautela e fazendo um carinho. “Você quebrou? Parece normal...” Ficou pensativa antes de lascar um belisco totalmente aleatório que não teve reação vocal nenhuma, ficando cada vez mais confusa. “Ok, isso é coisa de gincana de novo? Eu já disse que não consigo participar porque tenho três turmas e elas brigam pela participação dos professores, e eu não quero ser detestava por escolher a que eu prefiro.” Perguntou de novo, recebendo o silêncio. “Joanna, você bebeu? Ou usou alguma droga? Olha, a gente pode ir pro hospital e fazer uma limpeza de estômago... E intestino. Não vai ser agradável, mas você não pode agir assim!” Praticamente gritou sussurrado, fechando a porta ao seu lado, preocupada. “Você nem bebe!”