Fernando Assis Pacheco, «Regras para Viver em Campo de Ourique», Jornal de Campo de Ourique, n.º 4, Nov. 1977.

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Fernando Assis Pacheco, «Regras para Viver em Campo de Ourique», Jornal de Campo de Ourique, n.º 4, Nov. 1977.
Natal Natal… Na província neva. Nos lares aconchegados, Um sentimento conserva Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo, Como a família é verdade! Meu pensamento é profundo, Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça A paisagem que não sei, Vista de trás da vidraça Do lar que nunca terei!
Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio, poemas publicados em vida, edição Fernando Cabral Martins, Biblioteca editores Independentes
ESTA NOITE... Esta noite poderia escrever os versos mais tristes se os versos fossem a solução para a coisa.
Cristina Peri Rossi, A Única Maneira de Esquecer a Beleza (Tradução de Luís Filipe Parrado)
«Quando sonhamos, devemos manter sempre os pés assentes na natureza, mesmo no que diz respeito às pessoas, caso contrário facilmente chegamos ao ponto em que deixamos que uma personagem diga coisas como: "Sai daqui e mata-te." E falas destas suscitam uma careta, e fazer caretas é ridículo e tende a desfigurar mesmo o sonho mais bonito.»
Robert Walser, Os irmãos Tanner (trad. Isabel Castro e Silva), Relógio d' Água
Três Tristes Tigres, Ninguém é uma ilha I Arca, 2025
Untitled, 2025 - by Helena Georgiou, Cypriot (Greek)
Lisa Gerrard, Hans Zimmer
Ensaiei o nada. Ensaiei o tudo. Nada resultou. Tudo se perdeu. Nada se transformou. Lavoisier errou? NB
Procuro um pensamento que me abrace nesta noite escura. NB
[…] A morte de um grande poeta É como o incêndio da biblioteca de Alexandria Ou o desmatamento da Amazónia Mas não haveria poesia se a vida não fosse transitória E não fosse preciso inventar o fim da história A morte de um grande poeta É a extinção completa de todas as aves […] Perguntaram à máquina como morre um poeta Que a máquina é esperta e só dá resposta certa Disse que o pior veneno é o adormecimento Trocar toda a arte só por entretenimento Escolher a evasão em vez do encantamento Ilusão de sucesso e não reconhecimento Dopamina rápida em vez de conhecimento O dinheiro ao tempo, o ecrã ao momento Tornados robôs, sem rasgo, nem rebeldia Incapazes de entender a ironia, de ter empatia Morrem os poetas e a alma fica vazia Que a máquina faz tudo, mas não escreve poesia […] O poeta palestiniano Marwan Makhoul escreveu: Para escrever um poema que não seja político devo escutar os pássaros Mas para escutar os pássaros, é preciso que cesse o bombardeamento
Capicua e Toty Sa’Med, Um Gelado Antes Do Fim Do Mundo
Agora que penso nesse assunto, a idiotice deve ser isso: o poder entusiasmar-se a toda hora com qualquer coisa de que uma pessoa goste, sem que um desenhito numa parede tenha de se ver diminuído pela memória dos frescos de Giotto em Pádua. A idiotice deve ser uma espécie de presença ou de recomeço constante: agora gosto desta pedrinha amarela, agora gosto de "L'année dernière à Marienbad", agora gosto de ti, ratita, agora gosto dessa locomotora incrível a bufar na Gare de Lyon, agora gosto desse cartaz arrancado e sujo. Agora gosto, gosto tanto, agora sou eu, um eu reincidente, idiota perfeito na sua idiotice que não sabe que é idiota e desfruta perdido no seu prazer, até que a primeira frase inteligente o devolva à consciência da sua idiotice e o faça procurar apressadamente um cigarro com as suas mãos desajeitadas, olhando para o chão, compreendendo e às vezes aceitando porque um idiota também tem de viver, claro que até que outro pato ou outro cartaz, e assim sempre.
Julio Cortázar, A volta ao dia em 80 mundos, cavalo de ferro
Edifiquei um muro é tão alto e tão íngreme que me impede de vislumbrar novos horizontes novos desafios novos sonhos Sou prisioneira de mim própria...