“Perhaps, home is not a place but simply an irrevocable condition”
Saudade há de outorgar gênese à melancolia partida do estranhamento de algo, alguém, sucessos ou locais. Mero vocábulo, contudo, não tão vago quanto outros hão de ser. Intraduzível para demasiados idiomas, afinal, algo que exprime por tão puras vias o que há de ser nostálgico, não há de cargar vulgaridade em significância. Sentimento tal, também há de condicionar secundárias emoções e reações atreladas à falta provocada por ausência de um primal ídolo abstrato, extraindo as mais distintas reações de um único indivíduo em relação àquilo que anseia reencontrar, algum dia. O prateado sentia saudades das vastas planícies, do grisáceo entorno. Do tinto vinho, do tango e da têmpera casmurra. Dos desertos perpetuamente frios. Do solo que há anos desertara. Da Argentina. Alejandro estranhava o lar.
Patagônio via-se acometido por inflamados humores. Nada, afinal, parecia trilhar por curso do que haveria de ser, do que entrava em previamente traçados planos. Ansiava por bradar, ansiava por desmantelar tudo e todos. Contanto, contentamento jazia já em vulgar ato de patear porta de habitação —por ciclópico infortúnio, compartilhava com Fleur— prévio ao cruzar de umbral. Em semblante, cravado era belicoso dissabor, explicitando sanha a assumir médula daquele. Esquadrinhara circunvizinhança de aposentos, buscando encontrar licor que haveria de propiciar-lhe calma. Contudo, ante o não topar a primeiro olhar, emitira enfuriado grunhido. As celestes órbitas, iluminadas por zanga e dolor. ❝Perdemos o voo, como já bem hás de saber. Se não fosse por tua tardança, certamente, em hora esta, já estaríamos zarpando daqui. E sabes qual a melhor parte de tudo isto que está a suceder? Sequer podemos agendar viagem com novas passagens e reservas apressadas em nosso destino. Porque turba prostra-se muralhas além, conforma cerco e nós aqui presentes em interior de palácio, encontramo-nos atrapados. Como em quarentena política, se me permites tão vulgar termo a ser aplicado. E parcela de culpa de que estejamos insertos nisto é tua, corazón.❞
Inspirara profundamente, tornando à circunspeção esmerada. Necessitava, ao menos, um apaziguante trago, tão ansiado espírito. Ao, por fim, discernir elegante botelha em rincão, estagnada, régia, em superfície mesa, apropinquara-se com largas passadas, apressurando-se a servir dose em copo a descansar em flanco de vítreo objeto. Trago, ansiante, esparzira queimação do êxtase por interior de fauces. Esquadrinhara Fleur, desapontado, porém, já atrelado à certa placidez imediata, auferida por meio do iniciar de intoxicação. ❝Expendi semanas em planejamento de viagem esta, Fleur. Logrei as melhores passagens, as melhores reservas de habitações no Resort Llao Llao para que pudéssemos passar um adorável verão em Bariloche. E agora… agora está tudo arruinado. Qual a razão de que, por uma vez, não possas facilitar as coisas? Poderias haver estado pronta para a partida em horário. Há anos não vou à Argentina, corazón. Hás de compreender minha ansiedade para momento este. Poderíamos estar a desfrutar longo silêncio em um avião agora. E em vez disso, cá estamos, cerrados em um quarto com o fantasma de nossas mentiras. Dioses, realmente me cairia em gosto que sobredose aquela houvesse cargado-me ao fenecer. Ao menos, estarias tu livre e a possuir ambas fortunas e eu, vago de qualquer frustração.❞
「 — △ Muitas vezes quando criança Fleur era indagada se sentia falta de algo, normalmente as respostas esperadas envolviam bens materiais que logo eram oferecidos para a garotinha como um símbolo de um afeto inexistente. Palavras que nunca saíram de sua boca faziam falta para Fleur, frases comuns que nunca foram trocadas entre seus pais e ela, sentenças práticas que toda criança deve ouvir pelo menos uma vez na vida...Seja de quem vier. De todas as coisas que Fleur sentia falta, as que nunca foram suas eram as que mais doíam, amor, afeto, um lar. Claro, agora ela tinha uma bela casa, ousava dizer que melhor e maior do que a que fora criada e ainda sim...Não era seu lar. Não era aonde ansiava estar. Não era aonde pretendia descansar quando sua hora chegasse, mas por outro lado, era melhor que nada. Era melhor ter um lugar para descansar do que viver com a expectativa de que não se tem um lugar para voltar, pelo menos era o que Fleur dizia a si mesma todos os dias. Era melhor viver uma bela mentira do que enfrentar a cruel verdade do mundo. O doce gosto do vinho francês tocava-lhe a ponta da língua causando um sentimento agridoce, por mais gostoso que fosse o gosto do líquido a simples ideia de que provava algo proveniente de sua terra natal lhe causava um sentimento de falta imensurável, os olhos fechados a permitiram devanear por vários momentos enquanto tinha a taça na mão, a imaginação das belas paisagens francesas enchendo seus olhos e mente o bastante para que não pensasse no imediato conflito que estava prestes a se suceder com a chegada de Alejandro.
Os olhos claros foram abertos a tempo de ver Alejandro adentrar o cômodo com a cólera já esperada, em grande parte toda a raiva vista no homem com quem dividia o teto era sua culpa e desta vez Fleur sabia e admitia isso sem problema algum. Ela tinha causado tudo aquilo com o simples erro de não conseguir acordar-se mais cedo, a culpa disto era imposta em seus remédios, no entanto mesmo tendo conhecimento de que o erro era seu os olhos foram rolados e um grande gole foi dado na bebida enquanto Fleur se ajeitava na poltrona para repousar a taça na mesa de centro. ❝ Eu sinto muito por ter frustrado seus planos, Alejandro...Talvez da próxima vez possa fazer um favor a si mesmo e me acordar. ❞ O tom jocoso era eminente e um sorriso que beirava o cínico foi oferecido àquele que por desventuras da vida havia de chamar de marido. Outro suspiro foi dado, desta vez este fora de real estresse com a própria situação, por um lado queria mandar Alejandro calar-se, por outro sabia que ele tinha um ponto, estar em Gales não era a melhor opção e por mais que se queixasse das terras patagônicas as preferia dez vezes mais do que o solo que estavam no momento. ❝ Eu já disse que sinto muito, Alejandro. Continuar a chorar pelo leite derramado não lhe trará bem algum, tão pouco irá trazer as horas perdidas de volta... ❞ O cenho foi franzido. ❝ E que culpa tenho eu de uma rebelião? Eu não poderia prever que perder o voo nos prenderia aqui! Imaginava que se acabasse por ventura dormindo mais que o esperado poderíamos simplesmente remarcar as passagens! Não tenho culpa se não temos um calendário das rebeliões...Não fique tão estressado, logo o povo será disperso e poderemos fazer a sua tão sonhada viagem. ❞ Terminou com um tom irônico enquanto servia-se de vinho encarando Alejandro ao levantar a garrafa, parte em sinal de oferecimento parte em sinal de brinde.
Ao encarar o argentino memórias invadiam Fleur sem permissão da mesma, memórias de tantas brigas e gritos que trocavam entre si durante os anos seguintes ao acordo que fizeram, muitas das discussões acabavam com ambos em seus respectivos cantos da sala, uma garrafa de alguma bebida forte aberta entre as duas figuras enquanto silenciosamente se arrependiam das próprias escolhas mesmo sabendo que elas eram as únicas a serem tomadas. No fim do dia sempre a pergunta ‘eu fiz a coisa certa?’ parecia pairar sobre ambos no silêncio ensurdecedor da casa, nenhum dos dois ousava responder essa pergunta, sequer fazê-la em voz alta mesmo que esta pudesse significar o fim das tão calorosas brigas que haviam de ter todos os dias, nenhuma das figuras caricatas do que um dia foram ousava por um ponto final na rotina. Eram, afinal de contas, nada mais que criaturas de hábitos e quebrar um tão importante quanto a volta ao lar – pelo ao lar de Alejandro. – era algo que nem mesmo Fleur poderia desculpar-se. ❝ Eu não fiz de proposito se é isso que está insinuando. ❞ A voz saiu firme e dura. ❝ Eu poderia estar pronta se você tivesse se dado ao trabalho de me acordar mais cedo ao ver a situação lá fora! Eu fiquei até tarde cuidando de diversos assuntos importantes para que pudéssemos viajar tranquilamente, você só tinha que me acordar! ❞ As costas foram batidas na poltrona enquanto as pernas eram cruzadas e as mãos postas no joelho, a expressão voltando a neutralidade que sempre apresentava quando falava sobre aquele assunto. ❝ Alejandro. Se você tentar se matar...Faça longe de mim. Eu não posso deixa-lo morrer, não só por ser juramentada a não fazê-lo, mas também porque eu não iria querer ter seu sangue em minhas mãos e sua ida em minha consciência, pode ser difícil de acreditar, Sweet, mas eu aprecio sua companhia e sua vida. Então por favor, chega do assunto ‘seria melhor se eu estivesse morto.’ Deixe esse desejo insano de querer acabar com a própria vida para os mais novos. ❞