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@poemasquecolori
é que eu sou caos da cabeça aos pés.
céu de júpiter
é que eu sou caos da cabeça aos pés.
céu de júpiter
Hoje foi o primeiro aniversário, depois de 7 anos, em que eu não acordei mais cedo para decorar a casa.
Não teve bolo feito do jeito que você gostava. Não teve bilhete escondido em post-it. Não teve uma programação inteira pensada por alguém que se divertia mais te vendo feliz do que comemorando qualquer coisa própria.
Também não teve aquela minha insistência em reunir as pessoas que te amam. Em te lembrar, de novo, o quanto você era querido.
Engraçado.
Porque eu vi as fotos. Os vídeos. As declarações.
E parecia tudo exatamente igual.
Só eu não estava.
E talvez seja essa a constatação mais dolorosa destes últimos sete meses: a sua vida continuou.
Continuou sem mim. Continuou sem falta. Continuou, inclusive, repetindo as mesmas coisas que me fizeram partir.
A pessoa que era "só uma amiga" continua aí.
A mesma pessoa sobre quem você confessava desejos para os seus amigos enquanto me encarava com uma tranquilidade assustadora e dizia que tudo estava na minha cabeça.
Às vezes penso que a pior parte não foi a mentira.
Foi a forma como você me convenceu a duvidar daquilo que eu já sabia.
E, mesmo assim, eu não consigo sentir raiva.
Já tentei.
Porque a raiva seria mais fácil. A raiva fecha portas. A raiva constrói distância.
Mas o que sobrou em mim foi algo muito mais cruel: a compreensão.
Eu entendi exatamente quem você era.
E entendi tarde demais quem eu estava me tornando para continuar ao seu lado.
Então, de alguma forma, hoje eu também te dou parabéns.
Porque é o seu aniversário.
Mas também porque existe uma parte de mim que acredita que você venceu.
Você ficou com tudo.
Com a vida que queria. Com as pessoas que queria. Com a liberdade de continuar sendo exatamente quem sempre foi.
E eu fiquei com a tarefa muito menos glamourosa:
juntar os pedaços da mulher que precisou ir embora para não desaparecer completamente.
É mais fácil fugir e se anestesiar do que ficar e encarar o estrago. Guardar o que doeu fundo demais, fingir que passou, carregar culpa e vergonha em silêncio. No fundo, fugir sempre pareceu mais simples do que mudar.
- Pretérito Punk.
E no fim você fez exatamente aquilo que eu dizia, aquilo que você reduzia a drama, ria como quem ri do fogo antes de sentir a queimadura.
Quando aconteceu, o choro não veio. Veio um silêncio áspero, pesado, um tipo de vazio que encosta por dentro e deixa gosto de ferro na língua.
A raiva não era sua, era minha. Da minha teimosia em pressentir tempestade e ainda assim continuar ali, de braços abertos, esperando que o céu mudasse de ideia.
Fui eu quem falhei comigo. Com essa esperança torta que acredita que alguém muda só porque a gente deseja. Com essa fé ingênua que insiste em apostar num jogo em que as cartas sempre caem do mesmo lado.
E não, não sinto raiva de você. Raiva seria simples demais. O que sinto é ânsia, um enjoo lento, profundo, o corpo entendendo antes da mente que algo ali sempre esteve estragado.
É repulsa também, aquela que não precisa de toque, aquela que faz a pele se retrair sozinha, como se o instinto fosse mais sábio do que qualquer explicação.
É uma decepção funda, antiga, como se sempre tivesse morado em mim, esperando apenas o seu descuido para sair da sombra.
E talvez o pior nem seja o que você fez, mas o que isso acendeu aqui dentro: essa lucidez gelada, essa lâmina fina da verdade passando devagar pela carne, esse “eu já sabia” que nunca erra, que nunca falha, que desta vez não me poupou.
Rasgou. Doeu. Mas abriu espaço. E no fundo, mesmo ardendo, libertou.
Tenho vergonha, do que eu fui, do que eu era.
Mas não cabe arrependimento, cabe aprendizado e evolução.
Principalmente orgulho, por saber superar o pior, não, do que eu fui ou era.
Mas o muito pior que eu me poderia me tornar
Não existe nada mais patético do que se apaixonar pelo potencial de alguém. É quase comovente, de tão triste. Amar o que o outro poderia ser, se quisesse, se tentasse, se não fosse quem é.
Eu sei bem como funciona. Falo de um lugar que conheci bem. Sei o preço de insistir no quase, de apostar em sementes que nunca brotam.
Tem algo de vergonhoso nesse tipo de amor. A gente tenta justificar, chama de esperança, de fé, de paciência. Mas no fundo é teimosia. É medo de admitir que o outro não vai mudar.
É como olhar para uma dúzia de frutas verdes. Você sabe que não estão prontas, mas insiste em comer, uma a uma, com a garganta travando e o estômago revoltado, imaginando que em alguma mordida o gosto será doce. Que talvez, dessa vez, valha a pena o esforço.
E quando pesa na balança, o amargor sempre vence. Mesmo assim, a esperança de um instante de doçura fala mais alto. A ilusão de que amar o suficiente pode amadurecer alguém.
Passei anos assim. Devorando o que me fazia mal, convencida de que o problema era meu paladar.
E um dia, quando já não restava fruta alguma, percebi que nenhuma teria sido doce, por mais que eu esperasse. Que a doçura que eu buscava nunca esteve ali.
O mais cruel é que eu não te vejo como a vilã dessa história. Você apenas foi quem sempre foi. Fui eu quem se fez de cega, de surda, de muda, para não ouvir o barulho da verdade se partindo dentro de mim.
Hoje, quando olho para tudo isso, não sinto raiva. Sinto um tipo novo de cansaço, o que nasce quando a ilusão se esgota e a lucidez finalmente senta ao meu lado, sem pressa, sem consolo, apenas límpida e crua. Como há de ser.
é triste e só.
nada justifica, nem sentido tem
é simplesmente triste e só.
Fico me perguntando por que a ingenuidade me irrita.
Mas, quando rasgo o pensamento até o fim, percebo que é inveja.
Inveja do espanto intacto, da fé sem rachaduras, de não saber o desfecho antes do início.
Eu, que já decorei os atalhos do labirinto, queria não saber o mapa. Queria me surpreender com o golpe, não sentir o frio da lâmina antes de vê-la.
Há um luto silencioso em quem enxerga cedo demais. E, às vezes, eu daria tudo para ser enganada mais um pouco.
M.S.
eu penso demais porque eu percebo tudo.
poemasdocaos
Sempre sou eu: sozinho. Contra todos os meus demônios, internos ou não.