O som do riso de Emir era algo raro de ouvir, até mesmo para Elena — pelo menos recentemente. Por isso, não conteve o riso quando este lhe fez cócegas na garganta, ansioso para sair, rompendo o limite dos lábios que alargavam um sorriso divertido, quase juvenil. ━━ talvez … ━━ seus olhos se fecham num breve lapso de instinto, entregando-se ao toque de Elena, apreciando o momento, mesmo que por curtos segundos, antes que torne as íris escuras em sua direção ao ser provocado. Ele conseguia sentir o tom, reconhecer a forma como ela usava daquilo o suficiente para envolvê-lo um pouco mais — e todos os santos estavam de prova do quanto funcionava, do quanto Emir gostava. ━━ porque você é minha. ━━ a resposta lhe sai, simples e sem entraves, como quem joga uma verdade nua e crua no ventilador, sem qualquer medo do que possa acontecer depois. Outrora, ele teria fugido daquela verdade, teria desviado a rota sem olhar para trás, e provavelmente teria se arrependido pro resto da vida — estava cansado de fingir e cansado de arrependimentos. Seu riso se torna ainda maior — como se fosse possível — ao ter o polegar mordido pela princesa, por instinto, aproximou os próprios dos dela, selando-os brevemente como forma de libertar o polegar de seu aprisionamento momentâneo. ━━ percebi que não. ━━ retrucou ainda entre risos, havia sido uma pergunta redundante, mas a surpresa de Elena era impagável. Se ela tivesse passado no quarto, estaria usando o presente dele, teria achado uma forma de encontrá-lo antes, mas o fato de se encontrarem só agora e com Elena mencionando o aniversário, já respondia por si só que ela não havia encontrado. E, assim como ele esperava, a chuva de questionamentos veio a seguir, tornando tudo mais divertido do que já estava, cada nova expressão de Elena lhe arrancando risos empoeirados de sua garganta.
━━ comprar é uma palavra muito forte. ━━ principalmente para alguém de poucas posses. ━━ eu te fiz um presente, Elena. ━━ era melhor que colocassem assim, para que ela não criasse muitas expectativas, para que não corresse até o quarto achando que encontraria algo mirabolante ou coisa parecida. Claro que, conhecendo-a como conhecia, Emir sabia que ela não se importava com ouro ou joias — pelo menos não da parte dele — mas era bom que mantivesse os pés no chão, pelo menos por um instante. ━━ o que acha que eu pretendia fazer quando fui até seu quarto? esperava encontrá-la, mas, só achei um espaço extremamente bagunçado e vazio. Achei que fosse mais organizada, alteza. ━━ usou do tom divertido na última frase, com o sorriso abandonando os lábios apenas para que seguisse trilhando de beijos o pescoço da menor, deixando que um riso soprado interrompesse um ou outro, no instante em que ouviu sua réplica seguinte. Emirín. O apelido criou ecos em seus ouvidos, quase como uma melodia que há muito tempo não ouvia, mas que, apesar disso, seguia sendo sua favorita. ━━ posso reclamar, se quiser… posso fazer tudo que quiser, alteza ━━ murmurou de volta, antes de romper aquele contato com ela, antes de afastar-se mesmo que o corpo clamasse para que a colocasse contra a parede mais próxima. ━━ só que não ainda… ━━ existiam tópicos sérios a serem resolvidos antes de qualquer outra coisa e Emir já havia caído no erro de deixar as coisas incompletas uma vez, não o faria de novo. Se fosse retomar o que tinham, seria do zero, sem segredos, sem noivos aparecendo do nada.
O contraste térmico entre eles se faz marcante no instante em que os dedos de Elena lhe alcançam o rosto, provocando arrepios que não se contentam apenas com a face de Emir, mas que se alastram ao longo da nuca, espinha, peito e restante do corpo. Não lhe resta nada além de deixar-se tomar pela sensação estranhamente reconfortante que o toque causa, entregando-se mais uma vez no fechar dos olhos para ativar outros sentidos. As próprias mãos tornam ao corpo de Elena, paralelas em sua cintura, incertas quanto ao desejo de trazê-la contra a própria, ou de colocarem um limite de até onde ela poderia avançar. Era tolo resistir. Quando seus olhos se abrem outra vez, com o rosto de Elena não próximo ao dele, ao ponto de sentir o hálito gélido e fresco contra o próprio rosto, o impulso fala mais forte e as mãos a puxam de volta. Corpo contra corpo, sem mais espaço entre eles, apenas o calor natural de Emir tentando invadir o gelado de Elena — e vice-versa. Numa guerra que não importava quem perdesse, pois ambos sairiam vitoriosos no final. ━━ arrependimento… ━━ ele repete, como quem testa a si mesmo com aquela palavra, forçando-se a refletir se é assim que se sente sobre Elena, sobre tudo que viveram. ━━ se eu disser que me arrependo, vou estar mentindo pra você… e pra mim. ━━ completa ao que a testa volta a encostar na dela, assim como a ponta do nariz que roça suavemente contra o da princesa. ━━ não me arrependo de nada sobre você, ou sobre nós, Elena. ━━ não mudaria nada, uma vírgula que fosse, manteria tudo da forma que aconteceu, apesar dos pesares, pois uma vida sem ter conhecido Elena, de nada valia.
Seu aperto se faz mais firme na cintura alheia, como se aquilo fosse o bastante para garantir que é real. Todas as palavras que queria ter ouvido de Elena, aquele dia nas passagens, agora tomavam uma forma melodiosa ao alcançarem seus ouvidos. Não, ele nunca quis que ela arrumasse um noivo que não fosse ele, nunca quis ter que ver Elena em jantares planejados, encontros, ou até mesmo naquele vestido, tudo para alguém que não era ele. Emir a queria assim, exatamente como estavam agora, nas mãos um do outro, entregues um ao outro, como deveriam ter continuado. Havia levado um tempo, mas Emir finalmente sabia que fácil não era sinônimo de melhor. Poderia ser fácil escolher qualquer outro caminho, mas não seria o que julgava melhor para ele e, agora, recebia a confirmação de que também não era o melhor para Elena. ━━ e vai ser muito difícil, Elena. Ter que ver você fazendo tudo que é esperado, seguindo todos os protocolos, na esperança disso postergar qualquer decisão. ━━ que partisse dos atores externos a eles, o magisterium ou o pai dela, outra vez. ━━ e não poder simplesmente estar assim com você, o tempo inteiro, diante de todos. ━━ era quase torturante pensar que, ainda que tivesse Elena, não poderia ser da forma que queria — não ainda. E era mais torturante ainda, pensar em não tê-la de forma alguma. A conclusão lhe arrancou um suspiro vencido, quase cansado de travar batalhas contra a própria razão. ━━ e é claro que eu amo você, Elena. ━━ desde o primeiro tropeço que a fez cair em seus braços, até aquele último e além. ━━ só não sei se consigo lidar com tudo isso, mas, também sei que vou me arrepender se não tentar.