Emir teria corado, se tivesse outra tonalidade em suas bochechas, que não fosse o laranja da abóbora. Aquele pesadelo iria acabar em algum momento? Parte dele esperava que sim, enquanto a outra parte, estranhamente se sentia confortável em conversar com aquela desconhecida, ao ponto de que aguentaria mais umas boas horas de cabeça de abóbora, antes que tivesse de partir. O que estava fazendo? Normalmente, envolver-se naquele universo de nobreza não era uma atividade que Emir apreciava, a única e última vez que o fizera, deixou-lhe cicatrizes tão profundas, que não conseguia dimensionar o tamanho do dano. Ainda assim, e outra vez, se via entretido na conversa, no sorriso de outrem, no som da sua voz, nas correntes brilhosas que cobriam o corpo, agora mais brandas e pacíficas do que em outrora. ━━ Claro que existe. ━━ outra vez, lá estava ele fechando a mão, como se fosse uma boca. Não era nem de longe parecido, mas na imaginação de um garotinho? Dava pro gasto. ━━ Sim, ela era… ━━ era? é? Emir jamais saberia realmente. Era uma dor a qual carregava desde a última vez que viu a irmã. Em alguns dias, se tornava até suportável não saber o que teria acontecido com a mais velha. Em outros, não conseguia tirá-la da cabeça e todo seu humor ficava azedo. Outra vez, mais uma das tantas, as palavras a desconhecida serviam como um bote salva vidas, resgatando Emir dos seus pensamentos à deriva, impedindo-o de se afogar naquele abismo que, se não vigiasse bem, já o teria arrastado para as profundezas há muitos anos. ━━ Então tem o péssimo hábito de se envolver com pessoas decepcionantes? Sinto em saber disso, principalmente quando você parece deveras interessante. ━━ e aquilo estava longe de ser uma cantada, era mais uma observação ao fato de que ela tinha conseguido prender a atenção de Karam, ao ponto da atmosfera da tenda não interferir na troca que estavam tendo, do contrário, já teria sido levado pelos desejos carnais e, honestamente, ele até poderia considerar, no entanto, sua atração por ela parecia ir além do físico, quase como se conhecesse a pessoa do outro lado, bem melhor do que a si mesmo.
Emir encara a própria mão por alguns segundos. Faíscas de eletricidade ainda podem ser percebidas nas pontas dos dedos, ganhando terreno em sua palma, punho, braço… até se dissipar com o cotovelo acima. Uma sensação estranha e arrebatadora o atinge, já sentiu aquelas faíscas antes, correntes de eletricidade similares correndo-lhe o corpo, por caminhos desenhados e trilhados por uma só pessoa… Elena. A simples ideia de que poderia se ela na sua frente, aquele tempo todo, ouvindo tudo que desejava dizer-lhe, mas que era covarde o suficiente para fazer de cara limpa, fez o seu corpo inteiro estremecer e pela primeira vez naquela noite, a feição entalhada na abóbora mudou, expressando confusão. Não poderia ser ela, ou poderia? Tinha ouvido coisas a respeito da magia da noite, algumas afirmavam que pessoas com fortes conexões se reconheceriam, então, em que ponto Emir e Elena se perderam? Talvez em suas diversas tentativas de esquecê-la, ou vice-versa, talvez depois da última conversa que soou como uma despedida, mesmo que no fundo, Emir quisesse que jamais fosse… talvez… nem ele sabia mais o que estava pensando. Sacudiu a cabeça de abóbora para os lados, balançando o espaço oco e vazio que existia dentro dela, como se isso fosse o bastante para afastar as hipóteses que começavam a preencher aquele grande nada. ━━ Não tanto. Sou bastante recluso, na verdade. ━━ respondeu com sinceridade, enquanto alguma parte do seu ser insistia para que mentisse, a parte que ainda teimava que conhecia a persona a sua frente e que, se continuasse falando honestamente, ela o reconheceria também.
━━ Existem diferenças e diferenças. ━━ fez questão de enfatizar um pouco mais na segunda fez que repetiu a palavra, destacando até mesmo a diferença na hora de pronunciá-la, dando a entender que poderia significar muito além do que o sentido comumente conhecido. ━━ E algumas são… difíceis de contornar, ou praticamente impossíveis. ━━ como a diferença do sangue, por exemplo, mas não lhe convinha deixar isso explícito, seria revelar muito mais e muito além do que ele gostaria. Em meio a réplica de outrem, permitiu-se abraçar o silêncio, prestar atenção em cada detalhe, preencher as lacunas confusas de sua mente. Talvez, não fosse o melhor caminho a seguir, mas era inevitável. E lá estava, mais uma vez, aqueles pequenos detalhes que teriam passado despercebidos para qualquer outra pessoa, mas não Emir. “cabeça na lua”, ela tinha dito, e a associação se fez cristalina como água, até mesmo com a mente impregnada pela névoa que tentava, a todo custo, impedir que Emir ligasse os pontos. Muita coincidência para ignorar. Não o bastante, a menção de uma relação anterior o gerou leve incômodo, aquele mesmo desconforto familiar, como se levasse várias picadas de formigas no peito. Ciúmes! Nem mesmo as palavras seguintes, de um possível alguém que se parecia com ele, foram capazes de fazer o incômodo passar. O que estava acontecendo? Sua própria voz gritava na mente turbulenta, criando ecos sem respostas. ━━ dizem que os opostos costumam se atrair. Mas, eu sempre gostei de pensar que os opostos se completam, se assim quiserem que seja. ━━ gostava de pensar, pois sempre foi ciente que Elena era seu oposto e isso jamais o afastou, pelo contrário. Era como se tivesse sido atraído para ela desde o princípio, ela representava aquilo que ele jamais poderia cobiçar, pois jamais poderia ter e, ainda assim, ele teve. A partir do momento em que isso se tornou possível, qualquer outra coisa também seria, pois ele a tinha. Ela era a coragem que quebrava com a sua covardia, o impulso que o fez desejar algo para si pela primeira vez: uma vida para além do servir, um futuro, uma família…
Todas as dúvidas desapareceram e as certezas ficaram junto com os termos usados por ela: cielo, cariño, amor… não restava nada além, nenhum outro questionamento que fosse. Sozinhas, essas palavras poderiam significar qualquer coisa, e aquela mulher poderia ser de qualquer reino além de castilla. Mas juntas, aquelas palavras formaram o brilho claro que só Elena tinha. Foi nesse instante que Emir sentiu o corpo travar, denso, pesado como uma âncora que se recusava a sair do lugar, mesmo com toda sua racionalidade pedindo para que levantasse da forma mais educada possível e fosse embora. Ainda não era hora, algo lhe dizia e contra argumenta, não foi ele quem disse instantes atrás que queria estar naquela tenda com Elena? Então, Emir deveria aprender a sustentar o que diz, ou não fazer desejos em vão para o universo, pois ele pode ser prontamente atendido. ━━ É. Colocamos bastante coisa pra fora quando não sabemos com quem estamos falando. ━━ e agora que ele sabia, que tinha convicção de que sabia, como continuaria dizendo? Como continuaria agindo normalmente diante da sua Elena? Sua… o simples pronome possessivo lhe causava arrepios. Ele faria um esforço, aparentemente ela ainda não tinha percebido que era ele, então podia seguir com isso sem sair machucado de novo. ━━ É, não é? ━━ o riso fraco acompanhou a pergunta retórica ━━ Perto dela, eu consigo ter um pouco mais de fé no impossível, ser menos racional, por assim dizer. O problema é quando estamos longe, quando sou arrebatado pela minha lógica racional que não vê outra saída além da distância. ━━ não há outra saída além dessa e, ainda assim, é a última coisa que Emir consegue fazer, ficar realmente distante de Elena, deixá-la seguir sua vida, procurar um bom casamento, principalmente quando ele sabe que nenhum seria tão bom quanto ele. Ou pelo menos é no que gosta de acreditar.
Ao menos agora, Emir consegue perceber o motivo de se sentir atingido cada vez que ela ri, o motivo do coração ameaçar errar uma batida de propósito. Não é a tenda, não é a conversa, mesmo que essa continue agradável, é simplesmente Elena sendo ela mesma, como sempre foi nos momentos que tiveram anos atrás, quando se conheceram. Era algo muito diferente da última conversa que tiveram nas passagens secretas, pelo menos no início da conversa, com todas as coisas não ditas engasgadas, todas as mágoas e questões a resolver. Ainda tinham muito para resolver, era verdade, muito tinha ficado em suspenso naquele dia, coisas que não cabiam lembrar agora. ━━ Talvez devêssemos. ━━ foi sucinto, soprando um meio riso junto das palavras. A ideia não era ruim, o difícil seria convencer-se depois que saísse daquela tenda, convencer-se a encontrar Elena outra vez, sabendo dos danos irreparáveis que esse encontro poderia causar. ━━ O que seria do mundo sem seus vilões, não é mesmo? Sempre somos o vilão da história de alguém, mesmo com as melhores intenções no coração. A questão é que nem sempre isso fica claro para o outro. ━━ ou para si mesmo. Compensa mesmo desistir do sentimento, só para que nenhum dos dois tenha que abrir mão da vida que tem hoje? Aos olhos de Emir, sim. Elena tinha muito mais a perder do que ele - que já havia perdido praticamente tudo. Por isso, ele já estava em paz, já havia aceitado ser o vilão da história, aquele que impediria a própria felicidade, contanto que essa felicidade não estivesse literalmente a um esticar do seu braço. Tão acessível, tão linda, tão atraente e desejável, como sempre foi. ━━ hmm.. mesmo? Bom saber.
A pergunta o atinge diferente, quase como se, implicitamente, ele esperasse por ela quando comentou que mulher lhe lembrava alguém. Ele só não imaginava que descobriria tão facilmente quem. ━━ Ainda estou tentando descobrir. ━━ o que ela pensaria se soubesse que era ele do outro lado? Retiraria todas as palavras, apagaria as confissões, ou sustentaria tudo com a força que só Elena tinha? Entre eles, Emir sempre soube que era o elo mais fraco, aquele que sempre ia pensar no concreto, para além do abstrato. Ele sempre seria a razão, mesmo quando sentia a necessidade de se entregar e mergulhar de cabeça nas emoções. Qual futuro poderiam ter? O que ele tinha para oferecer? Bastava que sumissem juntos, para que Elena perdesse a vida toda que conhecia: fortuna, viagens, título, família… Tudo isso pelo que? Emir? E mesmo assim, mesmo enquanto a mente se impregnava pela própria racionalidade, ele não conseguia silenciar-se e deixar de rebater os argumentos de Elena com meias palavras. ━━ não acho que seja capaz de estragar essa também. Também não acho que ele vá acordar um dia e perceber que não era o que queria. Talvez seja o contrário, talvez ele acorde todos os dias desejando que ainda fosse verdade, mesmo que essa verdade fosse um segredo. ━━ realmente era mais fácil falar com a segurança de que jamais seria reconhecido, esconder-se por trás da magia, da névoa que cobria as mentes e deixava tudo numa escala de cinzas. E claro, a conversa que tiveram antes tinha ajudado a dissipar um pouco da mágoa, do contrário, Emir já teria dado seu jeito de partir no instante em que a reconheceu. Talvez até mesmo antes, pelo receio de encantar-se por alguém que não poderia ter, como havia se encantado por ela.
Um suspiro rompeu do vazio onde deveriam estar os lábios do rubro, prolongando-se ao que observava a mulher se levantar pela primeira vez e marchar em sua direção. Seria o momento de dizer que também estava cansado? Não, pois, mais uma vez, seu peso não se comparava ao dela, nem mesmo de longe. Em seu silêncio ensurdecedor, acompanhou os movimentos de outrem, cada passo duro, o despencar do corpo ao seu lado, os braços que lhe envolveram o peito num abraço que o teria feito fechar os olhos - se observasse, as fendas entalhadas da cabeça de abóbora, seria possível notar que ficaram menores, quase como se tentassem juntas as partes que deveriam ser suas pálpebras. O coração bateu acelerado contra o próprio peito, sendo o único som que Emir ouviu por longos segundos, até que o silêncio fosse quebrado por ela. O questionamento ganhou ecos na cabeça vazia e antes mesmo que pudesse responder, a mão de Elena já alcançava a cabeça de abóbora. Ela talvez não sentisse, mas Emir sentia o toque, aquelas malditas faíscas, a eletricidade de sempre. Num movimento suave, ergueu a mão até a dela, os dedos lhe envolvendo o pulso, arrastando a mão de Elena para baixo, em direção ao próprio peito. A tensão lhe dominava por dentro, conquistando cada pedaço de Emir, tentando impedi-lo de cometer qualquer ato absurdo, mas era tarde. ━━ Você vale muito mais do que imagina… muito mesmo. ━━ murmurou, as palavras saindo de algum ponto profundo no vazio da garganta. Só então, rompeu com o contato, o toque, com tudo, tomando distância para se desprender do meio abraço e levantar. ━━ obrigado por me fazer companhia, mas sinto que devo ir agora. Espero vê-la em breve… alteza. ━━ fez questão de enfatizar o título que lhe pertencia, não como da última vez, nas passagens, mas no tom que lhe atribui nos momentos em que simplesmente não podia chamá-la como gostaria, pois alguém poderia ouvi-los. Não precisou esperar para saber se ela o reconheceria, torcia para que sim, que o fizesse, mas, caso não acontecesse, Emir preferiu por evitar a frustração.
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