‘Bury me, my Love’: Um jogo inspirado na história de refugiados da Síria
Em “Bury Me, My Love” as bombas estão atingindo Homs, na Síria, há anos. A cidade está arruinada e só o que se tem são mortos e desamparados. Quando sua irmã mais nova morre, Nour não consegue aguentar mais. Ela decide partir para a Europa, em busca de uma nova vida.
Acontece que Majd, marido de Nour, não pode acompanhá-la. Ele também perdeu seu pai, mas sua mãe e seu avô ainda estão vivos — se ele for, eles podem não conseguir sobreviver aos bombardeios.
Então juntos, Nour e Majd preparam sua viagem da forma que é possível. Eles estudam os mapas, fazem uma lista de itens que ela pode usar, juntam suas poucas economias e compram dois smartphones para manterem contato. Ambos estão assustados e com muito medo do que pode acontecer.
E uma manhã, Nour salta em um caminhão com a mochila em seu ombro. Antes de partir, Majd a abraça como nunca antes, beija a esposa na testa e sussurra uma despedida síria dizendo: “Enterre-me, meu amor” (frase que em árabe significa “Tenha sorte” ou “Espero que você tenha muitos anos de vida”).
Pode parecer complexo, mas este é o mote do jogo para smartphones “Bury Me, My Love” disponível para sistemas Android e iOS. Exatamente como os refugiados sírios que tentam sobreviver à jornada até a Europa, a troca de mensagens via WhatsApp com os familiares sírios é dos mais valiosos recursos.
No jogo, você pode oferecer suporte emocional, dar conselhos práticos — que podem ou não ser aceitos — e tudo como se fosse em “tempo real”. Ou seja: você pode ficar horas sem ouvir sua esposa Nour em sua jornada até o Velho Continente.
O trabalho de Majd — e o seu — é tentar aconselhar Nour enquanto ela enfrenta problemas na estrada, passa por patrulhas de fronteira hostis aos refugiados e também luta contra todo tipo de aproveitadores e violências. Além disso, a rota de Nour é extremamente perigosa, bem como na vida real. Um relatório recente da ONU estima que as mortes globais de refugiados no ano ultrapassam as 10 mil pessoas, com muitas delas por afogamento no Mediterrâneo.
Florent Maurin, da produtora The Pixel Hunt, a responsável do jogo, explicou ao Polygon os objetivos reais de “Bury Me, My Love”: “Adoramos a ideia de que nossos jogadores percebam que eles têm muito mais em comum com os dois jovens sírios (Nour e Majd) do que pensam. Mas não estamos tentando fazer lavagem cerebral para que os jogadores pensem que os refugiados são as pessoas mais legais que eles já conheceram na vida. É um pouco bobo, mas a maior lição que tirei de todo material que reunimos e as entrevistas que fizemos (antes de criar o jogo) é que o refugiado não é uma categoria monolítica. Veja e pense nas imagens que muitas vezes são mostradas na TV. Eles são seres humanos individuais: alguns são excelentes, outros menos, todos eles têm qualidades, falhas, esperanças, sonhos”.