É claro que, de todas as pessoas que poderiam ter decidido lhe das a graça da palavra, quem de fato a respondeu foi seu detestável noivo. Àquele ponto, com os sentidos anuviados e os sentimentos aguçados, ela tinha certeza que ele devia ter algum prazer sádico em torturá-la. Aparecer sempre quando ela estava em seu pior e deixá-la ainda mais pra baixo com todo o seu ar de superioridade. — Pelo Estranho, você está em todos os lugares, não é? Não tem ninguém melhor para incomodar ou sente prazer em me irritar? — bufou frustrada, voltando a observar o lugar onde o pai agora lhe virava completamente as costas. Provavelmente ele acreditava que Valerion a impediria de se embaraçar mais, o que a fazia sentir uma vontade aguda de fazer uma cena ainda maior. Como frequentemente fazia, lamentou não ter um dragão, adoraria entrar com ele no salão só para assustar os convidados, algo que claramente era uma preocupação de Aemond, visto que mandou prender todas as criaturas no Fosso dos Dragões.
Irritada, olhou novamente para o irmão sendo paparicado e parecendo a ponto de ser desmembrado por todos aqueles lordes, para que cada um pudesse levar um pedacinho dele para si. — São tolos se acham que conseguirão alguma coisa de Rhagael. — a amargura em sua voz baixa, para que apenas Valerion ouvisse, quase a fez soar sóbria. Ou, ao menos, essa era a impressão que teve. — Tudo o que ele faz, é sob o rabo da saia de meu pai. Não sabe tomar uma decisão própria para salvar a própria vida e pode até ser que um dia se sente no trono, mas não será ele a governar. Ele não tem pulso pra isso. Gastariam melhor seu tempo paparicando seu pai ou Lorde Henri. — é claro que dizia tudo aquilo de forma vazia. Infelizmente, em alguma parte de seu âmago, sabia que Rhagael talvez desse um bom rei um dia, se conseguisse deixar de ser tão facilmente manipulável até o momento chegar. Mas soltar aquele tipo de comentário ácido fazia parte de seu jogo, e não podia deixar de jogá-lo, especialmente ao falar com a segunda pessoa que mais detestava na Fortaleza Vermelha. Ou terceira. Talvez até quarta, quando ele estava sendo bonzinho.
O riso alto de escárnio era forçado e quase doloroso diante da mera menção de que ela tinha alguma escolha no mérito. O som fez algumas cabeças virarem-se em sua direção, lancando-lhe os costumeiros olhares enojados e reprovadores por seu péssimo comportamento. Ela se virou para Valerion pela primeira vez e ficou na ponta dos pés para aproximar-se o máximo que podia de sua orelha, sussurrando como quem lhe confiava um segredinho sujo: — As marcas dos dedos cheios de anéis do rei não ficam tão bem na minha face como ficam na de Rhagael. — e se afastou com um sorriso brincalhão, tentando fingir que aquilo não a afetava. Nunca admitiria algo vulnerável como aquilo se estivesse sóbria e, mesmo a ausência de suas completas capacidades mentais fazendo-a falar mais do que devia, ainda restava em si a força de vontade para colocar a máscara de alguém que não levava nem mesmo as agressões do pai a sério. Se quebrasse em público, temia que jamais seria capaz de se recompor de novo.
A reação dela à sua presença tornou irresistível respondê-la com uma provocação. — Ora, mas é claro, não sabia disso? Adoro vê-la irritada. Seu tormento é o motivo pelo qual sigo vivendo e respirando. — Apesar do sorriso, intencional em sua postura tipicamente irreverente em relação a mais nova, a ironia em sua voz era palpável. Talvez sua fala tivesse sido verdade um dia; anos atrás, quando ainda um adolescente imaturo, mas agora aquilo não podia estar mais longe da verdade. Imaginou que, após sua contribuição à conversa, Narcissa teria se afastado, mas quando ela não o fez, Valerion deu-se por satisfeito com o fato da princesa não tê-lo deixado falando sozinho e decidiu escutá-la, guardando suas respostas ácidas e provocações para outro momento que não aquele.
Seguiu o olhar dela até Rhagael, mas não sem antes observá-la com atenção: o ressentimento brilhava em seus olhos e, ao ouvi-la, soube também escorrer de seus lábios. Então, aceitando o risco de ser estapeado em público, decidiu tentar aliviar a tensão alheia com uma brincadeira tola. — Não acho que vi seu pai usar saias alguma vez em minha vida, mas consigo entender o que quer dizer com isso. De qualquer forma, seu irmão ainda é o herdeiro ao trono. — Sabe-se lá por quanto tempo, pegou-se completando, pesaroso. Ainda que fosse membro ativo do grupo que secretamente orquestrava a ascensão de seu pai ao trono, Valerion não conseguia deixar de sentir certa culpa por privar Rhagael do futuro para o qual ele vinha sendo duramente preparado. Aliviava-se somente ao pensar que, ao menos, concederiam-lhe liberdade da crueldade do pai.
A risada dela, ainda que obviamente falsa e encenada, o arrancou de seus pensamentos e o fez sorrir brevemente, mas o que o pegou de surpresa mesmo foi a proximidade repentina entre eles. Os nobres ao seu redor certamente imaginariam obscenidades sendo sussurradas ao pé de seu ouvido, de tão chocada que foi a sua expressão ao ouvir o que ela lhe dizia, e Valerion esforçou-se a não deixar a pena transparecer em seu olhar ao que Narcissa se afastava novamente.
Por alguns momentos, não soube o que dizer, e baixou o olhar para o cálice em sua mão, tentando conter a indignação que borbulhava dentro dele; seu tio não era um homem honrado como se fazia parecer. E, embora soubesse do que acontecia por trás das paredes da Fortaleza, ouvir diretamente de Narcissa era diferente, real, e chegava a lhe embrulhar o estômago. — Às vezes penso que esta Fortaleza apodrece de dentro para fora. — Foi o que conseguiu dizer, em voz baixa, para que apenas ela o escutasse. — Se quiser ir embora, posso ir com você. Ser seu álibi. Estamos noivos, afinal de contas. Ninguém se surpreenderia. Nem mesmo seu pai.













