Joana I de Castela (A Rainha Louca)
Este princípio parte de um mito da realeza, num assombro de loucura e crises de ciúme, muito mal-contado quando é desconsiderado as questões políticas e de poder entre os monarcas do século XVI. A rainha confinada em seu próprio reino, traída por seu marido, pai e filho; seu tempo se acentuando e passando em meio a falta de testemunhas e arquivos em seu favor perpetuaram a imaginação coletiva em conjecturas sobre sua pessoa. Afinal, quem foi Joana I de Castela, a chamada rainha louca?
Se trata de um mistério da Espanha, vigorado em duas linhas para análise. Partamos para a introdução! Joana, antes de ser conhecida como a Louca, nasceu em Toledo, 6 de novembro de 1479. Filha da rainha Isabel I de Castela e do rei Fernando II de Aragão, ambos católicos e ambiciosos. A centralidade de poder e garra esteve sempre presente na vida de Joana, em verdade seu parentesco se enquadra com as decisões que ela tomará posteriormente.
Os casamentos na nobreza tinham questões a cerca de aliança entre reinos como estratégia política do que outros aparatos sentimentais. Sendo assim, há uma fama da rainha Isabel sobre cultura, tinha a melhor biblioteca de seu tempo, em sua corte havia muitos pensadores e artistas, se instituía a transição do feudalismo ao renascimento cultural e apesar de alguns apontamentos sobre Isabel apreciar a erudição, toda esta educação tinha o propósito de que seus filhos fossem bem instruídos, principalmente quando adquirissem casamento e pudessem adequar seu papel aos interesses do reino de Castela.
Isabel, a que comanda
A rainha Isabel tem grande proporção na história de sua filha, é mencionado que dentre os três Joana seria a mais relegada por não ser tão complacente a mãe e protestar contra ela. No filme Juana La Loca de amor, a influência da soberana é bem destacado, no período Isabelino acreditavam que a vontade e voz da soberania/rainha era a mesma que a de Deus, a confirmação se apresenta a Joana, pela escolha da mãe em seu casamento; para o qual ela precisará deixar seu país e navegar para uma terra estrangeira, sem precisar de mais justificativas.
Assim ela saiu aos 16 anos para conhecer seu futuro marido e o reino onde ficaria pelo resto de sua vida. Num arranjo de casamento a frota que acompanha nem sempre é bem recebida, sobretudo se são transição de países. Neste caso Joana foi tratada com negligência quando chegou a corte de Flandres e Borgonha.
Apesar da falta de estadia os sinais de romantismo e obsessão se iniciam quando os dois se encontram pela primeira vez, é expresso que Felipe nutriu por ela apenas atração carnal enquanto Joana se apaixonou por ele. O sinal inicial em que aparecem as duas linhas para análise tratam da boda oficial. Como mencionado, Joana estava relegada em terra estrangeira, mesmo que Felipe quando a viu tivesse possuído uma forte atração por sua pessoa, o casamento estava efetivamente marcado para 21 de outubro de 1496, o que ele antecipou para o mesmo dia em que se conheceram, fazendo com que o capelão se movesse a seu favor para os procedimentos da benção ao matrimônio. Alguns registros discutem esta ação repentina de Felipe como um enigma, não há menção das reais intenções dele com esta postura, porém pode se tratar de uma composição pessoal ou segurança política. E estas são as duas questões que pontuam esta história. O contrato de casamento estaria selado por ali, a cerimônia oficial de Flandres seria mera incumbência protocolar.
A boa educação que Joana recebeu da mãe foi por água abaixo, Felipe governaria sobre a casa, sobre ela e seu reino. Era também muito influenciado por seus conselheiros que não viam com bons olhos a união da casa dos Habsburgo com os Trastâmara espanhóis. Em particular, sendo uma mulher em terra estrangeira, Joana se configurava como um perigo para as estruturas de poder. A segunda linha, que reflete sobre o desfecho político, aplica que o tema de loucura encaixado em Joana veio apenas como meio de protocolar sua invalidação para reinar, deixando o passe livre para Felipe, mas isto será tratado mais a frente.
Os interesses de Joana
Joana se prova uma mulher de físico forte ao conceber seus 6 filhos, todos eles atingiram a maioridade numa época em que a mortalidade infantil era alta e mesmo Joana viveu até seus 75 anos.
“Carlos V e Ferdinando I, ambos imperadores do Sacro Império; suas quatro filhas se tornaram rainhas: Eleonor, rainha da França, Isabel, rainha da Dinamarca, Maria, rainha da Hungria, e Catarina, nascida depois da morte de seu pai, rainha de Portugal.” (TAPIOCA NETO, 2017)
Suas ações depois da morte de seu marido provém de uma segunda linha, tracejando a consecução do reino aos seis. O emprego de suas atitudes como viúva relutante ao enterro de Felipe e que permanece nesta condição por 3 anos anulou as tentativas de seu pai de casá-la novamente, o que poderia representar a perda de título de seus filhos.
Circunstâncias a mais para a retirada de um todo sentimental: Felipe quando vivo, se reaproximava dela sumariamente, a isto lhe proveio a prole; após a filha Eleonor ter nascido, em 24 de novembro, ele estava bem interessado em sua esposa. O irmão dela, Juan, herdeiro das coroas de Espanha havia falecido. Joana era a caçula, com isto ficou mais próxima à sucessão do trono de Castela. Por revisão, Felipe já tinha uma sequência de possessões e títulos, tomando as coroas de Castela e Leão ele poderia se configurar no homem mais poderoso de seu tempo.
“Enquanto Joana proclamava o luto em sua casa pela morte de seu irmão, segundo os documentos, Felipe de autoproclamou Príncipe das Astúrias e buscou o apoio de França para reclamar seus direitos como herdeiro dos reinos espanhóis. Nesse período se evidenciou ainda mais a ausência da influência de Joana sobre seu marido e sua posição de debilidade política (MATILLA, pag. 18).” ¹
O status de Joana aumentou em 1501 e certamente seu suposto diagnóstico de doença mental também, quando passou a ser sucessora de sua mãe. Sem a fala de Joana em documentos ou registros, a análise se ancora mais a terceiros, em 1503 sua mãe altera o testamento, temendo que Castela caísse nas mãos dos Habsburgo, indicando que caso Joana estivesse inapta para atuar em seu posto Fernando agiria como regente. Erguendo-se Felipe, conjecturado como o Belo quando sua personalidade aludia mais a ambição, alterou suas estratégias para com a esposa retirando o que havia dito contra sua saúde mental para plenas faculdades, em busca de tirar seu sogro do governo. Em 1505, na concórdia de Salamanca, os três concordaram em reinar em conjunto. Logo após esta conquista houve um novo acordo em manobra para retirada de Joana, seu próprio pai concordou com Felipe em taxar sua filha de louca, trancando-a na torre de Tordesilhas.
A rainha de papel
Seu poder se constituiu em um símbolo, mesmo quando sua mãe, marido e pai não eram mais vivos, suas chances de governar foram consideradas impróprias. A acusação contra sua saúde mental fez seu confinamento em Tordesilhas perdurar. Como a mãe, precisou lutar contra as amantes de seu marido, enquanto Isabel promoveu isto silenciosamente as mandando para outro local, Joana demonstrou seu ciúme e desaprovação. Apontava a dedo as que participassem da corte, num caso chegou a cortar o cabelo de uma e seguia Felipe nas festas sempre que possível para vigiá-lo, numa destas ocasiões acabou por dar à luz, em um banheiro da festa, seu filho Carlos V, somente para não descuidar de seu marido. Estas condições seriam suficientes para contatá-la como louca? Quais seriam as configurações de loucura no período do renascimento? Taxar alguém como louco estaria mais ligado a uma crítica de sua pessoa e modos e Joana poderia se enquadrar sobre a cláusula de comportamento não esperado. Loucura também se qualificava como vício, Joana se enquadrava como alguém dominada pela imprudência e rebeldia, caracteres do vício. Porquanto a falta de dominação de si mesma, fraqueza humana, se tratava como norma de conduta da época e nisto não se enquadraria um diagnóstico de loucura. A era romântica de 1800 cravou-a nas pinturas e romances como a rainha enlouquecida por amor, em que costumeiramente visitava o cadáver do marido, outra atitude que referiram contra suas faculdades mentais.
Visto que citam seu diagnóstico de loucura costumam o ligar a sua avó Isabel de Portugal.
“Não obstante, correram de boca em boca as histórias de que a “rainha louca” marchava a pé com uma comitiva, pelo silêncio da noite como se fosse um vulto na escuridão iluminada pelas tochas, em direção a Granada, para ali dar descanso aos despojos do marido.” (TAPIOCA NETO, 2013)
A Morte de Felipe
Depois da morte de Felipe seu pai tentou afastá-la do posto e enfraquecer os direitos sucessórios de seus filhos através de outros pretendentes, o cortejo fúnebre que tomou o imaginário popular partiu de três meses após a morte de Felipe. Joana pediu para desenterrá-lo e levá-lo a Granada. A primeira linha partiria de um amor não correspondido perdido, a rainha viúva, sofrendo da perda de seu marido e do luto infindo. A segunda linha partiria ao tratamento estratégico com que Joana escolheu para lidar com as investidas do pai para pretendentes, se pudesse se manter longe de seu alvo dificilmente o rei Aragão seria bem-sucedido. Ao passo que esta sua ação, de arrastar uma comitiva com o corpo morto do marido por três anos, construiu ainda mais a ideia de sua debilidade mental e não de um luto comum.
Em 1509 Joana obteve certo consentimento com a aceitação de sua aposentadoria, prática comum entre as viúvas da nobreza, o que também descartaria prospecções para um novo casamento. Quando seu filho, Carlos V, atingiu a idade de sucessão houve um novo acordo incomum, de governo em conjunto com sua mãe, onde mais uma vez ela permaneceu em Tordesilhas favorecendo o direito ao seu filho. A segunda linha se refere a perspectiva de uma rainha responsável em suas decisões ainda que limitadas, em prol de seu reino, mesmo que a primeira linha favoreça certo papel passivo e romântico a Joana, como a vítima dos desejos ambiciosos dos ao seu entorno e perdida no amor não correspondido. Ambas boas proposições, por muito tempo historiadores consideraram apenas a primeira conclusão e sem muita criticidade avaliaram por outra perspectiva suas ações.
NOTAS:
¹ Traduzido do espanhol pelo autor Renato Drummond Tapioca Neto.
FONTES:
Abalada pelo óbito do marido e confinada em um castelo: a agonia de Joana, a Louca ( https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/abalada-pelo-obito-do-marido-e-confinada-em-um-castelo-a-agonia-de-joana-a-louca.phtml)
BIOGRAFIA DE JOANA I DE CASTELA, COGNOMINADA A LOUCA (https://dialogos.files.wordpress.com/2008/09/biografia-de-joana-i-de-castela1.pdf)
Joana I de Castela: a rainha que ficou conhecida como “a louca” – Parte I | Rainhas Trágicas (https://rainhastragicas.com/2013/03/18/joana-i-de-castela-parte-i/)
Joana I de Castela: a rainha que ficou conhecida como “a louca” – Parte II Juana, a relegada esposa de Felipe, “o Belo” | Rainhas Trágicas (https://rainhastragicas.com/2013/03/20/a-loucura-de-d-juana-i-de-castela-parte-ii/)
Joana I de Castela: a rainha que ficou conhecida como “a louca” – Parte III Diagnóstico de Loucura | Rainhas Trágicas (https://rainhastragicas.com/2013/04/01/d-joana-i-de-castela-parte-iii/)
Joana I de Castela: a rainha que ficou conhecida como “a louca” – Parte IV (Final) | Rainhas Trágicas (https://rainhastragicas.com/2013/04/02/joana-i-de-castela-parte-iv/)
Joana I de Castela - Personagens históricos ( http://www.tordesillas.net/pt_PT/descubre-tordesillas/historia/personajes-historicos/-/asset_publisher/eF65c2HI6pXY/content/juana-i-de-castilla/23202?_101_INSTANCE_eF65c2HI6pXY_redirect=%2Fpt%2Fdescubre-tordesillas%2Fhistoria%2Fpersonajes-historicos)
Juana La Loca, de amor! (https://rainhastragicas.com/2013/04/05/juana-la-loca-de-amor/)
MATILLA, Begoña. El mito de la Reina Juana: ¿“la Loca” (https://atencionpsicologicaintegral.es/admin/biblioteca/documento_10.pdf) — Acesso em: 7 set. 2022.
TAPIOCA NETO, Renato Drummond. Irmãs e rainhas: as filhas de Isabel I de Castela – Parte II: Joana de Trastâmara, a rainha louca?. [S. l.]: Rainhas Trágicas, 25 set. 2017. Disponível em: https://rainhastragicas.com/2017/09/25/joana-de-trastamara-a-rainha-louca/. Acesso em: 7 set. 2022.
TAPIOCA NETO, Renato Drummond. Joana I de Castela: a rainha que ficou conhecida como “a louca” – Parte III – Diagnóstico de Loucura. In: .. [S. l.]: Rainhas Trágicas, 1 mar. 2013. Disponível em: https://rainhastragicas.com/2013/04/01/d-joana-i-de-castela-parte-iii/. Acesso em: 7 set. 2022.













