Faz tempo que eu não escrevo.
No começo eu ainda tentava.
Sentava diante da página como quem visita uma casa depois do incêndio.
Tudo continuava no mesmo lugar.
Menos eu.
As palavras ainda estavam ali.
Quietas.
Esperando alguém que eu já não sabia ser.
Depois vieram as explicações.
As pessoas costumam achar que é falta de inspiração.
Eu deixei que acreditassem nisso.
É mais fácil do que explicar que algumas ausências não cabem em conversa.
Foi quando eu descobri que as palavras nunca tinham sido minhas.
Eu é que era delas.
E, quando resolveram partir,
foram me levando junto.
Desde então, carrego poemas inteiros que nunca conhecerão o papel.
Eles moram no peso do peito depois de uma conversa qualquer.
Na garganta que vive apertada.
Nas noites que terminam antes de mim.
No estômago que aprendeu a sentir o que eu nunca tive coragem de nomear.
Escrever sempre foi o jeito mais delicado que encontrei de não desaparecer.
Continuo escrevendo o tempo inteiro.
Só que agora os textos acontecem dentro do meu corpo.
Agora eu desapareço em silêncio.
Tudo em mim virou rascunho.
Nenhuma palavra chega a nascer.
Não é falta de assunto.
É excesso de silêncio.
E silêncio, quando demora demais,
começa a ter o mesmo peso de um adeus.
Tenho medo de chegar ao fim de uma página.
E perceber que "Beija-Flor"
foi o último lugar
onde eu ainda morava...
Se ele realmente bater asas
Eu já não tenho mais casa.
— Julia.



















