Mente pra mim.
Diz que você adora o meu humor quebrado,
esse riso torto que vem sem hora marcada,
e às vezes nem chega.
Finge que se encanta pelas minhas crises sobre coisas pequenas,
como se uma meia sem par fosse o fim do mundo
e você achasse isso…
um charme.
Mente pra mim, só hoje.
Finge que entende meu português embolado,
meio nascido no peito, meio atravessado na garganta,
esse idioma esquisito que só eu falo,
mas que você ouve como música lenta,
daquelas que a gente não entende a letra,
mas sente tudo.
Finge que gostou da minha comida —
a que queimei no fundo da panela,
mas temperei com esperança.
Diz que o gosto tá bom,
que é exótico, que é “autoral”.
E sorri, como se tivesse amado,
porque, pra mim, seria o suficiente.
Concorda comigo que meu guarda-roupa faz sentido,
mesmo com os sapatos jogados,
e as blusas enfileiradas por frequência de uso
e não por cor.
Diz que isso é genial,
que você nunca pensou assim,
e que isso revela algo “profundamente meu”.
Me ilude com carinho.
Finge que você entende quando eu conto meu dia com empolgação demais,
como se tivesse vivido a melhor terça-feira da história da humanidade
só porque o café tava na temperatura certa
e eu vi um passarinho azul no fio do poste.
Mente pra mim,
com esse cuidado que só quem gosta sabe ter.
E diz que você ficaria aqui,
mesmo sabendo que tudo em mim é meio improviso,
meio dúvida, meio bagunça.
Mas que é justamente isso que te dá vontade de ficar.
— Beija-Flor.








