Era mais uma sexta-feira, como outra qualquer. Estava eu sentada no mesmo banco de praça, observando as crianças a brincar, admirando o sorriso que carregam no rosto, e o brilho que é possível nos olhos de cada uma notar.
Logo um senhor sentou-se do meu lado, me estendeu a mão se apresentando.
- Muito prazer, eu poderia te dizer o meu nome, mas, cada um me chama de um jeito, gosto de ser marcado pelas pessoas e gosto que me marquem também, então me chame como quiser.
A forma um tanto incomum a qual ele se apresentou chamou a minha atenção. Conversas foram fluindo através de comentários, e quando me dei conta já estávamos falando sobre a vida. Ele me perguntou o que eu achava sobre aquele assunto, respondi então dizendo.
- Ah seu Zé, eu tenho tantos planos para a tal da vida, e espero de verdade que ela também tenha para mim. São tantos objetivos a serem cumpridos, sonhos tão grandes aqui dentro. Mas sabe tenho andando tão cansada, exausta, com medo…
- Medo?
- Sim, medo do tempo. Veja ao seu redor Zé, olha pra essas pessoas que estão passando, quando me sentei pela primeira vez nesse banco elas costumavam andar devagar e até mesmo parar pra ver as flores. Mas agora elas correm, olhando para o relógio, lutam contra o tempo. Certa vez eu disse que nunca seria assim, que não me permitiria torna-se o que via nelas. E acredite ou não, o tempo já não é mais o meu aliado, digamos que ele tenha deixado nossa cumplicidade de lado, ou será que quem deixou foi eu? Enfim, as coisas estão mudando rápido demais, e os meus planos ficando para trás.
Aquele senhor ficou me olhando por alguns minutos, sem dizer uma palavra se quer. Até que me disse apontando o dedo em direção ao parquinho.
- Sabe filha, tá vendo aquelas crianças? Pois bem, elas brincam uma com as outras como se não houvesse o amanhã, e estão certas por que talvez não haja mesmo. Você já foi daquela idade, e devia aprontar muito. Certo dia, com certeza, a sua mãe já pediu para que não corresse porque iria se machucar, e minutos depois de ter desobedecido a ordem dela caiu e ralou o joelho. Doeu, você chorou, o medo te tomou ao ver aquele sangue descendo, fazendo passar pela sua cabeça que nunca mais iria brincar daquilo outra vez. Mas pega-pega era tão divertido, que mesmo após o tombo, mesmo depois do choro e do medo, no outro dia lá estava você correndo outra vez. E sabe por que? A sua vontade era maior, mesmo sabendo que podia dar errado de novo, você tentava. Então se tem uma coisa que eu possa te falar é, lute, mais não contra o tempo, e sim ao lado dele. Deixe o cansaço de lado, olhe nos olhos do medo e diga “hoje não meu amigo, a coragem chegou primeiro”, e vá só vá. Seu futuro é brilhante, seja confiante, acredite.
Seu Zé acendeu uma fogueira de esperança onde já não havia mas nenhuma fagulha. Me deu um abraço bem apertado, e antes que eu pudesse agradece-lo pegou seu rumo e foi embora, sem ao menos dizer seu verdadeiro nome. No começo da conversa ele disse que gostava de marcar as pessoas e ser marcado, ele tinha razão, porque “Seu Zé” por mim será pra sempre lembrado.