Escrever é um ato de suplício. Requer uma dose gramatical de dor, afinal, esse é um ótimo tempero para um bom texto. Feito um caos universal, o escritor é semelhante ao Deus Soberano, tem o poder de criar, mas há regras cruciais, uma criação não pode perder o padrão, conteúdo nem a forma. As regras permeiam a criação, as regras universais sondam os corações... porém o universo transborda ilimitações e paradoxos.
O escritor precisa penosamente pôr limites em si, o ato de criar é muito perigoso. Quem pode domar um escritor? Verbalizar as coisas significam eternizá-las... Isso é de fato um perigo. Eternizar é o maior ato do escritor, tornar-se eterno é ser o oposto da amnésia. Tudo escorre ao esquecimento, eternizar-se é ir contra a regra da amnésia universal: tudo morre quando é esquecido.
Numa dança de luzes no papel, as palavras são estrelas, brilham e iluminam aos olhos do criador. As musas gregas brindam e festejam num cortejo textual...Não há nada mais poético? Das virtudes da raça humana, o ato de escritorizar-se é o maior feito perante os outros seres. O ser humano tornou-se capaz de gravar não só palavras, mas mitos, sonhos, desejos, anseios e paixões. Ah, ó paixões humanas, gravadas nas pedras dos corações dos homens viventes. Ó sonhos, como ousais perturbar os sofridos espíritos encarnados? Ó mitos, sois verdades disfarçadas? Ó desejos, como cessais-vos das mentes humanas? Ó anseios? Ainda hão de surgir mais e mais!
Num ato de desespero perante o próprio passamento,o escritor suplica por eternização pessoal, como uma árvore que faz questão de gerar uma semente antes de falecer, assim é a palavra para o escritor. Parte dele, pedaço da própria cultura, destino, personalidade, influências e fluxo mental. O escritor visa o eterno como maior feito, os séculos que antes assusutavam, a vinduroura morte, nunca desejada, todavia esperada, não assombra tanto assim, pois ele sabe que deixou palavras, e há expectativa maior para o escritor que a palavra dele? Não falo sobre legado, nem sobre quantidade de leitores, apenas falo sobre a obra, ao diabo se apenas ele foi seu próprio leitor, ao diabo que ele nunca quis publicar um livro sequer, e ao quinto dos inferno se todos seus papiros queimaram, coitada da sua sofrida alma.
Escritorizar é labuta, é esforço, e por fim, tornar-se escritor de si próprio, saber rescrever e tornar a escrever, num ato que apenas a morte é inimiga e o tempo o maior aliada... Quanto tempo há? Como saber?
Quantas palavras faltam para o fim? Quantos hiatos? Quantos sonhos? Quantas palavras um texto pode suportar? Quantas tragédias precisam para nutrir um texto? São tantas respostas, são tantas questões!
E o escritor exclama, a pena cai dos dedos, as tábuas dos corações parecem nunca estarem totalmente preenchidas... Sempre há mais espaço! E o tinteiro e papiro viram um teclado QWERTY e uma tela branca eletrônica, todavia a dor no peito de iniciar um novo texto, trabalho ou obra para o escritor não mudou, há uma insegurança, um pavor frente ao branco da tela, há tantas possibilidades, há tantos passos, tantos caminhos... E ele exclama: “Está pronto, glória às Musas e às minhas noites mal dormidas, o texto está finalizado!”