eu queria escrever um texto definitivo sobre você. um texto que abrangesse tudo o que você significou e ainda significa para mim. eu perdi as contas de quantas vezes tentei expor em palavras a multiplicidade de sentimentos e sensações proporcionadas por você. romances, contos, poemas nada parece dar conta. as palavras são tão insuficientes! ao longo de todas as minhas tentativas, a impressão que tenho é de que só dei voltas em torno da sua complexidade. parece clichê falar que os momentos em que você esteve aqui foram os melhores da minha existência. eu nunca fui tão feliz como naqueles anos e acho que nunca mais vou ser. eu sei, parece que estou romantizando o passado. por muito tempo achei isso também. mas, hoje vejo claramente que essa é a mais pura e terrível verdade. os anos em que estivemos juntos foram os mais felizes da minha vida. naquela época, éramos inocentes e livres. ainda não havia o peso da vida adulta que tudo devora e tudo desencanta. naquela época, possuíamos a delicadeza, o brilho e a euforia da juventude, algo que jamais vamos ter novamente. mas como expor isso em palavras? como expor que, ao longo desses anos, eu penso em você como uma religião? não há mais nada em que eu acredite. eu não acredito em Deus ou em qualquer outra coisa. nada. nem mesmo em ideologias políticas. não tenho nenhuma ilusão nesta vida, exceto você. quando estou voltando do trabalho, eu penso em você. eu penso em você nos momentos mais tristes e mais cansativos da minha vida. imagino que você vai aparecer de repente, como naquelas histórias de contos de fadas, e que vai me salvar. nos dias mais melancólicos, quando não há escapatória, eu penso que você vai me levar para longe, para uma vida ideal, repleta de cores e de fantasia. e isso, de algum modo, me reconforta, apesar de eu saber que nunca vai acontecer. você virou uma espécie de religião que me dá forças para suportar a rotina maçante e exaustiva. como escrever sobre isso? como expor em palavras? estou escrevendo aqui, agora, mas sinto que não estou abrangendo tudo. estou dando voltas novamente em torno do que você significa para mim. as palavras são, de fato, insuficientes.