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Todo maconheiro é vagabundo (Claro que não!)
"Eu fumo maconha desde os 15 anos. Eu estou com 54. Então já faz 39 anos. Eu sempre tive um relacionamento bom com a maconha, ela nunca me deixou leso demais, nem alegre demais... Ela me deixa relaxado, feliz e pronto.
Mas já que você está entrevistando um neurologista, ouça bem: o problema é a frequência. Quanto mais maconha uma pessoa usa, mais embotada ela fica. Um amigo meu teve esclerose e botou uma prótese. O coitado fica tonto que nem um louco. Então, ele usa diariamente quatro, cinco baseados. Aí já não é uso recreativo.
Eu uso recreativamente. Que nem: ontem eu fumei, anteontem também. Amanhã já não vou fumar, nem segunda, nem terça... Geralmente, fumo de dia. Ontem, por exemplo: acordei umas 10h, era sábado, não tinha o que fazer, só umas coisas que são chatas para mim: dar uma olhada em uns papéis, preparar umas aulas... Fumei um e relaxei. Aí você se perde um pouco, ri, brinca, mas acaba produzindo e resolvendo aquilo.
Mas não uso droga no exercício da profissão. A maconha te deixa tão relaxado que como você vai atender uma pessoa, sendo médico ou qualquer outra coisa, e tomar uma conduta meio embotado com o reflexo da droga? Eu vou falar: 'Muda de Gardenal para Tegretol'? Não tem como eu realizar o ato médico fumado! Quando eu era residente e tinha supervisão, fumava. Na faculdade, vixe! Metade do que eu aprendi na faculdade foi usando maconha, e muita! Mas a partir do momento que você começa a exercer a profissão, não dá.
Isso depende do tipo de trabalho. Se você é artista e vai pintar um quadro, tranquilo. Mas no ato médico é complicado, você toma decisões que refletem na continuidade da vida de uma pessoa. Se eu fosse psicanalista, seria uma boa fumar para aguentar algum paciente chato por 45 minutos! (risos) Agora, num prontosocorro, discutindo com residente, não dá! A maconha te tira a atenção.
Já fumei muito mais do que fumo hoje. Mas também já parei de fumar. Quando fui fazer residência médica, por exemplo, porque eu tinha que produzir e ganhar meu dinheiro. Então, percebi que eu ficava lento.
Tem diferença de você usar maconha para outras drogas. Quantas pessoas bebem todo dia e nem falam? O álcool é uma droga, cujo efeito cumulativo e destrutivo é muito mais complicado que o da maconha. E ele tem uma penetração diferente, mais aceitável, não enfrenta tanto preconceito. Mas é a causa mais comum de doenças, principalmente psiquiátricas. Tanto é que você tem CID¹ alcoólatra, mas não tem CID maconheiro.
Já ouviu falar de overdose de maconha? A pessoa pode usar maconha de forma aditiva com outros propósitos. Tenho amigos que fumam para contrabalancear o efeito da coca. Mas pense: se eu uso recreativamente a maconha, ela não me acompanha no lado profissional; se eu uso recreativamente o álcool, ele piora meu lado profissional.
Eu não percebo que o uso dela tenha me trazido efeitos colaterais de longo prazo. Não tenho perda de memória. O problema, eu disse, é a frequência, o momento e a quantidade que você usa. É como tomar um cálice de vinho e tomar três; você fumar um baseadinho e fumar três...
Hoje em dia, talvez entre os usuários de droga tenha só uma pequena porcentagem de maconheiro. Acho que a molecadinha se embala tanto mais com bolinha, com droga momentânea, que com o ritual de fumar. É tudo sintético, é tomar comprimidinho e acabou.
Se eu vou numa balada hoje, chego para um monte de moleque e peço um baseado, vão me chamar de careta. Antigamente, isso tinha um outro viés. Quando minha mãe descobriu que eu fumava, quase me deu uma surra: 'Meu Deus, meu filho é maconheiro!' Depois eu cheguei a ouvir paciente dizer: 'Quem dera se meu filho usasse só maconha'. Entendeu? "
¹Classificação Internacional de Doenças, publicada pela Organização Mundial de Saúde.
A morte é um negócio sério
Sua visão embaça. A imagem de sua família aos pés da maca é substituída pela escuridão. A sensação de medo ante o desconhecido toma conta. Tudo o que você enxerga é uma trêmula luz ao longe. Aos poucos, você não percebe mais seu corpo, não ouve mais o choro dos que te amam, não sente o cheiro do vaso de rosas na cabeceira. Você morreu... Ei, mas será que dá para virar o rosto só um pouquinho para a direita, porque esse lado não te favorece?!
A morte se tornou um negócio lucrativo. Funerais antes feitos em casa, com flores recolhidas pela criançada do bairro, tornaram se incumbência de agências funerárias, floriculturas, cemitérios e crematórios. Isso sem contar os coveiros, guardas de cemitério, operadores de fornalhas e as famigeradas choradeiras. Essa indústria mórbida, como qualquer outra, cresceu e hoje conta com serviços requintados, propaganda, concorrência e todas as jogadas de marketing a que tem direito. Atualmente, o falecimento de um ente querido se tornou um evento a ser organizado por buffets especializados e preços pela hora da morte (com o perdão do trocadilho).
Na cultura geral brasileira, a morte sempre foi um tabu: o telefonema no meio da madrugada, o gato que subiu no telhado... Mas a tradição de dar um ar mais festivo às cucuias é presente em muitas outras culturas. O Día de Los Muertos mexicano é muito mais animado que o nosso Finados; a cultura japonesa também é mais receptiva em relação à morte. No interior da China, o Ministério da Cultura tem feito esforços para reprimir a presença de strippers nos velórios. Sim, é isso mesmo. Já no Brasil, acontece uma mudança de comportamento em relação à morte, e isso se reflete no surgimento de casas como a Funeral Home, localizada próxima à suntuosa Avenida Paulista.
"A ideia era fazer velórios estilo americanos, ou que remetessem ao tempo em que se velava o corpo em casa", diz Márcia Regina Pinto, gerente da empresa. "A família entra em contato e nós fazemos toda parte de assessoria: pegamos a declaração de óbito, levamos books com fotos de urnas e flores etc. A família, então, pode ser dispensada e nós acompanhamos a remoção do corpo até o local do velório, fazemos troca de roupas, higienização, maquiagem, ornamentação com flores, ou seja, tudo."
Depois de sete dias úteis (e sete palmos abaixo da terra), toda a documentação de cartório é entregada na residência da família. No entanto, há serviços mais emblemáticos que explicitam essa nova maneira de encarar a morte: se solicitado, o evento pode contar até com lembrancinha. "No caso de retrospectiva em vídeo, temos televisores e DVD em todas as salas", garante Márcia.
Para a gerente, a grande vantagem que alavancou esse business é a praticidade: "A família não precisa se preocupar com nada, só em estar presente." De fato, no momento de uma dor tão intensa, há muito mais com o que se preocupar do que toda a burocracia e planejamento. Aqueles que podem arcar com as despesas, preferem pagar não só pelo necessário, mas também pelo sofisticado. Afinal, se todos nós um dia vamos abotoar o paletó, por que ele não pode ser um Armani?
Arcos e flechas
Rafael Hayashi prende os cabelos longos e negros em um coque por trás da cabeça. Com as têmporas raspadas e os olhos puxados como seu sobrenome sugere, ele parece mesmo um samurai. Ao menos é assim que brinca Enivo, ele também com os longuíssimos dreadlocks atados à nuca. Mas, por mais marcantes que sejam, não foram essas as feições que estiveram sob os holofotes midiáticos poucos meses atrás.
Os dois artistas estão por trás de uma das obras que estampam os vãos dos Arcos do Jânio, ali na avenida 23 de Maio. As famigeradas feições são aquelas de um grafite ilustrando o que era para ser um homem negro, mas acabou interpretado como um retrato do exlíder venezuelano Hugo Chávez. Os grandes veículos de imprensa logo se apressaram a contatar Hayashi para a a fatídica pergunta: era ou não era?
“Foi sem querer querendo”, brinca Enivo. “A gente juntou cinco artistas para fazer uma coisa legal, que não tivesse marcad'água de nenhum de nós. Aí pegamos uma de várias imagens do Rafa e fomos lá numa madrugada.” Mas, no plano artístico, ser ou não ser é questão subjetiva. E o grafite é arte. A afirmação parece descabida em tempos onde essa vertente da arte urbana aparece na novela das oito e em propagandas da CocaCola, mas pintar muros da cidade em público gera uma retorno imediato da audiência. “A cada cinco minutos alguém passa e fala alguma coisa, muitos elogios, mas também muitas críticas”, diz Enivo, que nem sempre pede autorização para grafitar e, por isso, já teve seus incidentes com a polícia.
Rafael prefere fazer da periferia sua tela, e pede licença para pintar. Mas reconhece: “A essência do grafite é ser ilegal, é a contravenção mesmo”. A estética é apenas um lado de uma arte com potenciais múltiplos: o protesto social, a ocupação do espaço urbano. Isso, é claro, enfrenta resistência do poder público, com seus policiais e inexoráveis pincéis, como na história em que a prefeitura removeu, por engano, desenhos enormes na própria 23 de Maio. Cada grafite apagado, porém, é o surgimento de uma nova tela para ser preenchida.
Um dos maiores emblemas do descaso e desaprovação pública ao grafite talvez tenha sido aquele em que estudantes da Faculdade de Medicina da USP apagaram um painel gigantesco na avenida Paulista para o nobre propósito de divulgar uma de suas festas. Outro foi este protagonizado por Enivo e Rafael, quando sua obra amanheceu rabiscada com o inconfundível desenho de um pênis.
“A partir do momento que termino a arte, ela não é minha: é da rua”, fala Enivo. “Mas aquilo foi uma manifestação ridícula desse bando de fascistinha. Não é pixação. O prefeito Haddad me ligou para conversar. Disse: ‘Se foi mesmo a intenção, assumam. Vocês têm meu apoio.’” Mas o desenho já virava personagem principal de uma narrativa à que não pertencia. “O que ficou claro é que estávamos sendo usados em um jogo político bem mais amplo que aquele grafite”, Rafael acrescenta. “Fomos os bodes expiatórios.”
Os artistas sabiam que aquele seria um ponto de muita visibilidade. “Mas o local era fechado com grades, era sujo, abandonado, tinha gente que se abrigava lá.” Quando os desenhos surgiram, de repente, o valor histórico do monumento reapareceu e os Arcos se tornaram intocáveis. O grafite, no entanto, ainda se mostra para quem vem da Zona Leste e pega a alça de acesso à 23. Agora, porém, com os olhos vendados e a boca calada.
Foto: Christian Wehrle
Por trás da alvura dos jalecos
Os portões verde-escuros da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) desapareciam por trás de camisetas, cartazes e faixas… Tudo de uma só cor: o roxo, que representa o combate à violência contra a mulher. Às 11h daquele fim de manhã, quem passasse pela Avenida Doutor Arnaldo ou saísse do metrô Clínicas se depararia com cerca de vinte manifestantes, quase todas mulheres, empunhando canetões e latas de tinta em spray. Ao redor delas, aproximadamente o dobro de jornalistas.
“Dia 25 de novembro é o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher. O ato foi organizado nessa data para dar visibilidade ao tema, denunciar casos de opressão aqui na faculdade e, também, para promover um abaixo-assinado exigindo uma série de medidas da reitoria”, diz a estudante Leticia Pinho.
O documento, entre outros itens, solicita a criação de uma ouvidoria para casos de opressão, a instalação de centros de referência para apoio às vítimas, um novo plano alternativo de segurança e o aumento do efetivo feminino nos serviços universitários (fazendo menção à Guarda Universitária, cuja única integrante mulher nas rondas foi entrevistada pelo Jornal do Campus na última edição).
“A lista será entregue à reitoria no começo do ano que vem”, falou a estudante Júlia Forbes, colhendo assinaturas e puxando o coro que cantava: “Machismo contra a mulher não é a USP que a gente que quer!”.
A campanha daquele dia foi tirada em reuniões do coletivo Mulheres em Luta dentro da USP, grupo do qual Leticia e Júlia fazem parte. Além dele, havia participação expressiva do movimento RUA — Juventude Anticapitalista, que milita em causas sociais. Nos cartazes feitos à mão, liam-se protestos não só antimachistas, mas também relacionados aos abusos da terceirização.
Forças propulsoras
No fim de 2013, após uma jovem denunciar seu estupro durante uma festa e ser desencorajada por diversas vias institucionais (inclusive a Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz, da FMUSP), estudantes sentiram a necessidade da existência de um espaço onde a opressão pudesse ser debatida. Nessa conjuntura, foi fundado o Coletivo Feminista Geni.
O grupo tem estado presente nas reuniões da Congregação da Faculdade e avalia como positivo o relatório apresentado pela chamada Comissão da Violência (instância que investiga as denúncias), cujo teor abarca temas como abuso moral, racismo e violência sexual e de gênero.
A pedido deste repórter, as integrantes se reuniram para a emissão de uma opinião coletiva. Sobre a recente proibição de festas no campus, em Pinheiros, elas expressam: “Lamentamos que a tensão do momento possa ter colaborado para medidas de cunho proibicionista, as quais cremos que não abordam o problema em seu cerne".
Em relação à criação dos centros para auxílio às vítimas, o coletivo frisou a importância de que esses núcleos sejam articulados com grupos externos, de especialistas inclusive, e que sejam transparentes e acessíveis. “Estivemos em contato frequente com a Frente Feminista da USP e vemos problemas semelhantes entre os grupos. Na Cidade Universitária, a coesão é ainda mais difícil, visto que muitas integrantes estão dispersas entre cursos, e a Frente apresenta ainda situações mais complexas, como as condições das mulheres que vivem no Conjunto Residencial.”
Além do coletivo, há investigações abertas no Ministério Público. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito também está sendo conduzida na Assembleia Legislativa do Estado para apurar violações dos Direitos Humanos em universidades que recebem verbas públicas.
Histórico de opressão
Desde março deste ano, a ouvidoria da Universidade não recebeu nenhuma denúncia de estupro ou trote vexatório. Sem poder averiguar na ausência de notificações, o órgão se diz satisfeito pelo fato dos casos terem sido trazidos à tona. Na procuradoria, os últimos casos de expulsão são relacionados à ocupação da reitoria em greves passadas.
Em seu artigo 5°, o Código de Ética da USP especifica que a comunidade universitária deve “prestar colaboração ao Estado e à sociedade no esclarecimento e na busca de soluções em questões relacionadas com o bem-estar do ser humano”.
O reitor Zago parece ir na contramão dessa máxima, dizendo que os casos de violência são reflexos da sociedade. Já o diretor da FMUSP nos proporciona uma afirmação no mínimo irônica ao pedir que as vítimas de estupro tenham, por favor, a “hombridade” de relatar seus casos.
Urnas recolhidas, votos contados. Com exceção da presidência da República, o estado de São Paulo já pode se orgulhar de seus representantes legislativos e executivos eleitos. O maior colégio eleitoral do país escolheu figuras como Coronel Telhada para o cargo de deputado estadual, e Celso Russomanno e Marco Feliciano no âmbito federal. Com quase 58% dos votos válidos a seu favor, o governador Geraldo Alckmin foi reeleito no primeiro turno. Se o penteado de Marilena Chauí já não fosse rebelde, ela estaria descabelada a essa altura. Em entrevista à Rede Brasil Atual, a professora da FFLCH disse estar estarrecida. Por quê? “Porque você teve milhares e milhares e milhares de jovens nas ruas pedindo em São Paulo mais saúde e mais educação. Se você pede mais saúde e mais educação, considera que são direitos sociais e que têm de ser garantidos pelo Estado. E aí você reelege Alckmin. Estou tentando entender como é possível você reivindicar aquilo que é negado por quem você reelege.” Há pouco mais de um ano, víamos eclodir nas ruas de diversas cidades do Brasil as chamadas “jornadas de junho”. O que, no início, era um brado contra o aumento do transporte público, virou uma cacofonia de gritos que iam desde pautas tão específicas quanto “o fim da corrupção” até a volta da monarquia. O único sentimento comum àquelas milhões de pessoas, no entanto, era o descontentamento com os rumos da política brasileira. Um ano depois e aqui estamos. A bancada evangélica na Câmara dos Deputados, maior opositora das demandas LGBT, cresceu em 17%. As bancadas ruralista e da bala também engrossaram. Com tantos militares e religiosos no poder, o Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) já indica que teremos a composição mais conservadora desde 1964. Sim, isso mesmo: desde a Ditadura Militar. Mas nem tudo é má notícia. O Rio de Janeiro, veja só, manteve Jean Wyllys, o único parlamentar assumidamente homossexual, como um de seus deputados em Brasília. O Maranhão deu outro bom exemplo e finalmente pôs fim à dinastia Sarney no estado. Ainda assim, aqui no Sul, gostamos de dizer que os nordestinos não sabem votar. Já em São Paulo, onde gostamos de nos arvorar “locomotiva da nação”, não poderíamos estar mais próximos de descarrilar: Unicamp e Unesp estão quebradas financeiramente; a nossa USP acaba de passar por uma greve de quatro meses. O metrô da capital, superfaturado e deficiente, é o mais lotado do planeta. Aqui, no próprio Departamento de Jornalismo e Editoração, um colega ficou mais de um mês preso sem evidências, nas mãos da polícia que mais mata no mundo. E, nesse exato momento, o reservatório da Cantareira está operando com menos de 5% de sua capacidade. Ainda assim, aplaudimos nosso governador e pedimos bis.
Proibir festas é medida extrema e falha
Um jovem de 20 anos desaparece. Três dias depois, seu corpo sem vida é achado boiando. Não se sabe quem é o assassino (ou se houve um). Em outro episódio, um garoto é atingido na cabeça por um tiro e morre ali mesmo, no estacionamento de sua faculdade. A cada noite, novos casos de estupros, sequestros, assaltos, furtos, brutalidades. Para Datena nenhum colocar defeito, a Cidade Universitária parece um microcosmos do Brasil, onde a desigualdade social e a segurança deficiente escancaram a violência.
Com as fotos de Victor Hugo dos Santos estampando as páginas dos jornais, as autoridades correm para tomar as medidas que a sociedade exige. Ao proibir confraternizações envolvendo bebida alcoólica nas dependências da Escola Politécnica, o diretor José Roberto Castilho Piqueira, em fala para o Estado de S. Paulo, foi categórico ao afirmar: “Universidade não é local de balada, de bebida, de festa!” Se o problema é esse, que proibamos então os estudantes de ocuparem o vazio do campus onde circulam. E se maratonistas são atropelados nos sábados de manhã, oras, é porque a Universidade também não é lugar de fazer cooper!
Alguns setores da sociedade concordam com a medida, embasados por uma visão de que a USP se tornou um antro de baderneiros inconsequentes. O que tais pessoas custam a entender é que festas não são meras desculpas para atentar contra a moral e os bons costumes. Com o Grêmio Politécnico ainda preferindo não se manifestar sobre a proibição de festas, fui procurar outras entidades que vão sentir na pele as implicações do banimento.
No Centro Acadêmico da Engenharia de Produção, a vice-presidente do departamento financeira Nathalia Sadocco explica: “Aprendemos muito com o planejamento de eventos desse porte. Mas nós somos, antes de tudo, espaços de convivência. Precisamos do dinheiro das festas para manter esses espaços, pagarmos as contas, organizarmos eventos acadêmicos e para projetos voltados aos alunos e à sociedade”. No caso da faculdade, são exemplos o Poliglota, curso de idiomas, e o Cursinho da Poli, que ministra aulas pré-vestibular; ambos mantidos pelo Grêmio.
E se a moda pegar em outras instituições? “A Veterinária não costuma realizar eventos grandes dentro da USP com muita frequência”, diz Brenda Alcântara, presidente da Associação Atlética Acadêmica (AAA) IX de Setembro. “A proibição de festas dentro do espaço da Universidade afetaria, sim, nosso rendimento, mas não consideravelmente, já que as promovemos também fora daqui.” Brenda acredita que a segurança não será melhorada com proibições, mas com restrições: maior controle sobre quem entra, ainda que as festas, possivelmente, sejam barradas para os não alunos.
Já na AAA de Farmácia e Bioquímica, o presidente Daniel Campello pensa a proibição de maneira diferente. “Não diria que são medidas equivocadas, mas, sim, extremas. Essa proibição prejudicará bastante o orçamento das entidades, que contam com esse lucro para manterem atividades. A segurança poderia melhorar tanto com a contratação de equipes com mais experiência até com parcerias com a reitoria para aumentar o contingente de segurança em dias de grande circulação no campus”, ele expõe.
Enquanto o debate se prolonga, as associações tentam se equilibrar na corda bamba com o que têm. Na Escola de Comunicações e Artes, os frequentes casos de furtos e assaltos colocam em risco o happy hour semanal Quinta i Breja. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o professor Paulo Saldiva da Medicina diz que a próxima festa Carecas no Bosque, promovida pela Atlética da faculdade e recentemente envolvida em um caso de estupro, não acontecerá.
É certo, porém, que os diretores partidários da proibição enfrentarão mais que estudantes insatisfeitos. Quem não está gostando nada dos burburinhos dentro dos muros da USP é a Ambev. Nada a ver, porém, com a defesa de ideias políticas progressistas. A gigante do ramo de bebidas tomou postura contrária ao veto pois é responsável pelo patrocínio de 86% das agremiações estudantis na cidade de São Paulo. Ao menos nesse caso, os estudantes podem contar do seu lado com a força avassaladora dos interesses econômicos. Foto: Thiago Quadros
Planta apresenta substância que pode auxiliar no tratamento da aids
Vegetais da espécie Croton echinocarpus apresentam alcaloide com potencial anti-HIV
As plantas da espécie Crotonechinocarpus produzem uma substância que apresentou dados promissores nos testes relacionados a atividade anti-HIV. A descoberta foi feita pela bióloga Natália Ravanelli Athayde em pesquisa para sua tese de mestrado Perfil químico e atividades biológicas de Croton echinocarpus e Croton vulnerarius no Laboratório de Fitoquímica do Instituto de Biociências (IB/USP).
O objetivo de Natália era analisar as substâncias químicas produzidas por plantas do gênero Croton, um grupo de vegetais com ampla distribuição no mundo, especialmente na América do Sul e reconhecido por mais de 1.300 espécies que são usadas como medicamento em comunidade tradicionais. No caso do trabalho, foram selecionados duas espécies, a Croton echinocarpus e a vulnerarius com enfoque em substâncias com potencial medicamentoso.
Os componentes químicos de ambas as espécie foram extraídos, identificados e isolados para a análise de suas propriedades bioativas (antioxidante, antimicrobiana e anti-HIV). Foi verificado que a C. echinocarpus possui entre seus principais componentes um alcaloide que apresentou grande potencial para auxiliar no tratamento da aids.
"Acredito que o tema é de grande importância, já que uma parte considerável dos medicamentos que existem atualmente são feitos com princípios ativos que foram descobertos primariamente em plantas", diz a cientista sobre a importância de sua pesquisa. O ácido salicílico, por exemplo, foi descoberto em salgueiros e hoje é o princípio ativo da Aspirina. Muitos tipos de plantas aindas não foram estudadas com este propósito. Em um país de grande biodiversidade como o Brasil, acredita-se que entre as milhares de substâncias ainda desconhecidas podem estar compostos com propriedades medicinais interessantes, especialmente para o tratamento de doenças ainda sem cura.
Facebook mostra incoerência quanto à censura de imagens postadas
Rede social permite mulheres em poses eróticas, mas tira do ar fotos de amamentação
O Facebook possui 1,23 bilhão de usuários. A maior rede social do mundo é usada todos os dias para o envio de mensagens, o compartilhamento de fotos, a veiculação de notícias e diversas outras formas de comunicação. À primeira vista, o território virtual parece um paraíso para a democracia e a livre expressão. Mas a realidade não é bem assim: no passado, o site já chegou a censurar fotos de mães amamentando seus bebês.
O estudante de jornalismo Wilheim Rodrigues recebeu nota máxima em seu trabalho de conclusão de curso apresentado para o Departamente de Jornalismo e Editoração (CJE) da Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP). Intitulado Facebook: Casos de censura no Brasil, seu propósito foi traçar um panorama de casos de remoção de conteúdo por parte da empresa de Mark Zuckerberg.
A descoberta foi surpreendente. Enquanto piadas com estupro e garotas em poses eróticas circulavam livremente pela rede, fotos de mulheres africanas com os seios à mostra e até quadros famosos com nudez artística eram vetados e considerados como conteúdo impróprio. Wilheim defendeu a ideia de que existe uma ideologia política que sustenta essas censuras.
Fundado por Zuckerberg e por três colegas seus da Universidade de Harvard, o Facebook foi inicialmente expandido para as faculdades da Ivy League, grupo das melhores universidades dos EUA. Sua história, portanto, mostra que ele não nasceu com o propósito de ser uma ferramenta aberta e global de diálogo, mas, sim, restrita a um grupo específico.
Ainda assim, o site tornou-se um canal mundial de organização em lutas a favor de mudanças políticas e sociais, como se observou na Primavera Árabe e nas manifestações de junho de 2013 no Brasil. Apesar de usado como uma mídia alternativa, o site desde sua origem é regulado de acordo com um conjunto de regras julgadas pelos dirigentes do serviço, sem participação dos usuários.
Segundo a pesquisa, essa unilateralidade, que nada tem de democrática, se reflete na incoerência em relação à censura de imagens. Grupos têm se organizado para denunciar e rechaçar essa atitude no Dia da Manifestação do Nu no Facebook. Eles se respaldam na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição da República Federativa do Brasil, ambas garantindo que as manifestações de pensamento não devem sofrer interferência. Junto a isso, o trabalho de Wilheim mostra que essa delineação incerta sobre o que é ou não pornografia é só parte do problema representado pelo oligopólio das mídias.
Imagem: Wikimedia Commons
Jornalista avalia discurso do politicamente correto
Através de publicações da Folha de S. Paulo, pesquisadora traçará um paralelo entre censura e liberdade de expressão
De um lado, há aqueles que atuam no campo da linguagem para combater a discriminação de minorias tradicionalmente marginalizadas. Do outro, os que acreditam que se trata de uma patrulha que vigia e censura, uma restrição à liberdade de discurso. Afinal de contas, qual o papel do politicamente correto em um país democrático e de livre imprensa como o Brasil?
Desde 2012, o Observatório de Comunicação, Liberdade de Expressão e Censura (Obcom), coordenado pela professora Cristina Costa, vem se dedicando ao estudo da liberdade de discurso e de controles censórios nas artes e nos meios de comunicação. Sediado na Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP), o núcleo monitora casos de restrição à imprensa na atualidade através do estudo de notícias, documentos e publicações. A pesquisadora Nara Lya Simões, membro do grupo, aliou seu projeto de pesquisa a essa proposta sob a orientação da professora Mayra Rodrigues Gomes, vice-coordenadora do núcleo e chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE).
"Investigar essas tensões em torno da liberdade de expressão é uma proposta pertinente hoje em dia porque diz respeito à discussão de um dos grandes pressupostos de ação da comunicação e do jornalismo, possibilitando também a reflexão sobre as relações entre as mídias e princípios democráticos", assinala Nara sobre a importância de sua pesquisa, ainda em andamento. Seu método terá como base a análise de matérias publicadas pela Folha de S. Paulo de 1988 a 2012. O jornal paulistano foi o escolhido pois representa uma publicação que influenciou a atual produção jornalística brasileira.
O recorte temporal adotado abrange o período pós-abertura democrática do país, após o fim da censura explícita da Ditadura Militar. O ano de 1988 também foi marcado pela promulgação da Constituição Federal em vigor atualmente, cujo artigo 5º veda totalmente a censura às atividades intelectuais, artísticas, científicas e de comunicação. Com o fim do controle direto do Estado sobre os discursos que circulam na esfera pública, a liberdade de expressão torna-se também um foco de discussão.
Atualmente há, principalmente entre as elites do Brasil, uma repulsão ao politicamente correto. Nara explica: "O antropólogo Luiz Eduardo Soares aponta que esse posicionamento desdobra-se em três interpretações principais, que vêem esse discurso como forma de cerceamento do humor, como expressão moralista e autoritária e também como uma tentativa de anular diferenças entre os cidadãos, regulando-os".
Para Nara, o politicamente correto merece atenção sobretudo porque se relaciona com a complexidade da livre expressão no mundo atual, propondo o emprego de uma linguagem mais adequada à proteção de valores e direitos tão constitucionais quanto a própria liberdade de discurso.
Prisão foi para coibir ativistas, diz Hideki
No dia 23 de junho, Fábio Hideki Harano foi preso dentro da estação Consolação do metrô. O que se seguiu foram 46 dias de reclusão em Tremembé, sem que houvesse evidências de que portava explosivos no momento de sua prisão. Hoje, ele responde em liberdade processos por desobediência, incitação ao crime, porte de material explosivo e associação criminosa. Estudante de Jornalismo e funcionário da USP, Hideki se propôs a conversar com o Jornal do Campus.
Jornal do Campus: Em coletiva, foi dito que você foi um “preso eleitoral”. Você poderia explicar melhor? Fábio Hideki Harano: As prisões de junho serviram para “mostrar serviço”, para atender a uma demanda de setores da sociedade que cobravam punição ao chamado black block. Há setores – influentes, por sinal – na sociedade que vinham cobrando que o governo “desse um jeito na situação”, com ou sem fundamento.
No momento da prisão, você usava o EPI (equipamente de proteção individual). Uma vez que sua conduta estava longe de ser agressiva, você acha que isso serviu para te marcarem, como você disse? Certamente. Policiais civis do DEIC disseram que eu estava marcado, que receberam ordens de me seguir e de me prender. A polícia já estava de saco cheio, ultrajada com o japonês cabeludo, de capacete, de roupas grossas e que procura garantir o direito de continuar se manifestando, tentando convencer mais gente a não sair correndo à primeira bomba. Pelo que os próprios policiais falaram, o governo do Estado queria se livrar de mim. Não seria o caso se eu fosse alguém que só vai a manifestações para fugir à primeira bomba e depois chorar as pitangas na internet, dizendo que a maior manifestação será nas urnas.
O senador Suplicy e o Padre Lancellotti te apoiaram muito em todo o processo. Como se deu exatamente o suporte deles? Além do companheiro Júlio Lancelotti ter relatado tudo o que presenciou em muitos vídeos e eventos, ele ajudou muito a divulgar a luta contra a prisão absurda. Ele também participou de muitos atos públicos, e foi bem marcante sua fala: “Ninguém vai fazer eu mudar de opinião!” O companheiro Suplicy também ajudou a divulgar o caso e, fazendo uso de sua posição como senador, enviou formalmente cartas se opondo veementemente a minha prisão para Fernando Grella Vieira (secretário de Segurança Pública e Negócios do Estado), para o governador Alckmin, para o juiz Marcelo Matias Pereira (que me chamou de “esquerda caviar”) e para o desembargador que julgou a liminar de habeas corpus. E ele só não me visitou na penitenciária porque esteve ocupado prestando homenagens a Plínio de Arruda Sampaio, que havia morrido há pouco.
Você chegou a ler a carta dos docentes do curso de Jornalismo contra sua prisão? Qual sua situação no curso? Eu estava com o curso trancado em função de dilemas particulares envolvendo livre pensamento, burocratização do ensino, negação da educação que não seja formal e documentada, academicismo e fetichização do diploma de ensino superior. Mas, sim, li a carta e agradeço muito, pois ela repercutiu e foi anexada à defesa.
Sobre os policiais querendo se livrar de você: a sua impressão era que esse “se livrar” era algo definitivo ou te colocar na cadeia por uns anos? A impressão que tenho é de que fui pego como bode expiatório, para que muitas pessoas ficassem com medo de participar de manifestações, mesmo que eu não fique alguns anos na cadeia.
Há possibilidade de você voltar à prisão? Sim. Estou apenas respondendo em liberdade. A prisão preventiva, que deveria ser aplicada apenas em casos gravíssimos, infelizmente é muitíssimo comum. Foi só disso que me livrei. Dependendo do resultado do processo, é capaz, sim, de eu ser condenado à reclusão.
Quando sairá essa decisão? Não se sabe. A defesa prévia foi entregue no dia 21/08, com as minhas testemunhas arroladas. Haverá audiências e, após isso, o julgamento. Se eu for condenado por desobediência, incitação ao crime e associação criminosa, a pena acumulada não chega a me levar à reclusão. Acontece que, sobre o porte de explosivo, a farsa se sustenta com um papo de que pode ter acontecido evaporação do material. A sanha persecutória, a insistência, é grande. Não é à toa que tanto se usa a frase: “A luta continua!”
E sua vida agora, como está? Você disse que está de molho. Tendo em vista meu relativo isolamento social, não estou mais participando da greve da USP como delegado do comando de greve. Não tenho feito aparições públicas em assembleias, manifestações, reuniões abertas. Nem festas eu tenho frequentado! Assim, tenho ficado muito em casa e participando da greve mas sem ser delegado, piqueteiro, manifestante. Na tarde de segunda-feira, dia 18 de agosto, meu avô materno morreu dormindo, aos 81 anos. E desde a terça-feira eu estou com sinusite, às vezes mais forte, às vezes mais fraca. Além disso, corri atrás da defesa prévia do processo, entregue na quinta-feira, dia 21.
A truculência com que a PM lida com manifestantes: você acha que é algo que vem aumentando? Vem aumentando, certamente. Nos últimos tempos os PMs que acompanham as manifestações são os que, de maneira visível e expressiva, gostam de reprimir. Isso fica ainda mais evidente com a Tropa do Braço (que conta com PMs armados logo atrás) e sua composição de voluntários ávidos por ação – não são voluntários “paz e amor”, que querem apenas evitar conflitos e lutar na defensiva – como eu. Há uns anos podiam ser vistos uns policiais que, pelo menos aparentemente, não queriam estar lá nem bater em ninguém, parecendo achar um saco estar em manifestações. E ultimamente o que mais se vê é um monte de PM avidamente agressivo.
Você é ligado ao Sintusp. Quais suas considerações sobre a situação da USP: a greve e a nova gestão? Sobre a greve, eu a considero mais do que legítima. Costumo dizer que “greve” em inglês é “strike”. E essa é a ideia. Não é simplesmente parar de trabalhar. A greve envolve manifestação e pressão, tendo em vista que as tão elogiadas vias do diálogo mais uma vez se mostraram exaustivamente infrutíferas. Com filhos para criar, casas para cuidar e vidas a tocar, como fazer movimentação cumprindo expediente normal de serviço? A greve acontece quando a normalidade é insuficiente para a expressão da luta popular. Assim, o tempo e a energia que deixam de ser usados no expediente normal de trabalho dão lugar às legítimas ações de pressão. Sobre a (sic) Nova REItoria, a gestão Zago é continuidade da gestão Rodas. Rodas brincou de banco imobiliário com a USP, gastando rios de dinheiro com construções faraônicas, desmatamentos e alugueis absurdos, mas o dinheiro não era de mentirinha. Ele havia deixado um enorme abacaxi para qualquer um que o sucedesse, e acabou que foi Zago. Considero que um dos motivos para Zago não ter feito uso da presença ininterrupta da PM por todo o campus (possibilidade aberta pelo escuso convênio de Rodas e que torna a USP um local diferente de todos os demais, em um estado de exceção) foi o forte aviso, feito aos trancos e barrancos desde 2009 sobre a função repressora da PM no campus. Acontece que, intransigências de Zago, legado maldito de Rodas, contas fechadas da USP, planos de desvinculação de serviços de saúde e falta de democracia de base à parte, a sonegação do repasse de ICMS para as universidades paulistas é algo que a (sic) REItoria, o governo do estado e grande parte da assembleia legislativo vêm tratando como tabu.
Em algum momento você achou que não seria solto? Sim. Em Tremembé eu procurei lidar com a possibilidade de ficar preso até o julgamento, de passar Natal e Ano Novo na penitenciária. Tendo em vista a perseguição escancarada e as negações de pedidos de habeas corpus, preparei minha cabeça para a possibilidade de passar meses na cadeia. Reitero que, apesar da penitenciária de Tremembé ser bem menos ruim que muitos e muitos lugares sujos, insalubres e superlotados, não é bom estar preso. Não mesmo! Eu não via a hora de sair de lá. Foto: Facebook/Jacqueline Magallanes
Ao todo, foi exato um mês de viagem e cinco de planejamento. Foram seis países, oito aeroportos, mais oito estações de trem e um semnúmero de cidades, hotéis, albergues e passagens de metrô. Foram relógios reajustados para três fusoshorários, sete previsões do tempo no meu celular e contas em reais, euros, francos e libras. Os dois cartões de memória quase não bastaram pra guardar 5 mil fotos.
Foram placas em gaélico, inglês escocês, francês suíço, italiano aportuguesado (português italianado, na verdade)… Revi amigos que achei que nunca mais veria, encontrei outros pelo caminho, fiz alguns novos. Conheci um indiano que falava português europeu, uma garçonete de GuinéBissau e brasileiros de todo canto, viajando ou morando na Europa.
Percebi que nada é tão ruim como imaginamos, nem tão bom. A Suíça também tem prostitutas ilegais, Paris não cheira muito bem e vi ingleses zombando de um gay em pleno metrô londrino. Por outro lado, a gente ainda tem muito o que aprender sobre igualdade e dignidade.
Cruzei cidades inteiras a pé só pra economizar meia dúzia de euros e gastar em cerveja inglesa, vinho francês, spritzer italiano, fondue, queijo, curry, pizza, kebab, tripas de cordeiro, fish'n'chips encharcadas e os melhores piqueniques da minha vida.
E mais uma vez tive a certeza de que a maior graça desse mundo é ele ser todo diferente, e a gente morre por dentro quando se nega a abraçar isso. Aprendi que tentar ser turista de menos é tão ridículo quanto ser turista de mais. E que os livros de autoajuda estão certos quando dizem que dinheiro te compra passagens aéreas, mas isso não vale nada se você não tem amor na sua vida: amor ao seu lado pra compartilhar desses momentos, amores que ficam e te esperam voltar, ou o amor próprio para sabermos gostar da companhia de nós mesmos.
iPhone 5c Roma, agosto de 2014
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Davi de Michelangelo, na Galleria dell'Academia.
iPhone 5c Florença, julho de 2014